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1º deputado do PSOL eleito no RN é vigilante, filho de agricultor e morador da periferia

O PSOL terá um representante na Assembleia Legislativa pela primeira vez no Rio Grande do Norte. Eleito com 19.158 votos em razão do coeficiente eleitoral, o vigilante da UFRN e vereador de Natal Sandro Pimentel venceu uma disputa interna com outros 29 candidatos lançados pelo Partido para concorrer ao cargo de deputado estadual.

Aos 52 anos de idade, Pimentel ainda cumpre plantão noturno na escala da UFRN, é filho de agricultores e mora no bairro de Nossa Senhora da Apresentação, maior e mais populoso bairro da periferia da Zona Norte de Natal. Como representante dos trabalhadores, dirigiu o Sindicato dos Servidores da UFRN (Sintest) na primeira década de 2000 até conquistar uma vaga na Câmara Municipal em 2012, puxado pelo fenômeno Amanda Gurgel, então no PSTU, que recebeu mais de 32 mil votos e levou Sandro Pimentel e Marcos do PSOL.

Em 2018, além do próprio Pimentel, o PSOL contava ecom outros dois puxadores de voto: o professor Robério Paulino, que ganhou notoriedade ao alcançar mais de 10% na votação n para o Governo do Estado em 2014, e Maurício Gurgel, ex-vereador de Natal que herda a cadeira de Sandro Pimentel a partir de 1º de janeiro de 2019. Juntos, Sandro, Robério e Maurício conquistaram 44.756 votos. O partido contava com a soma de todos os 30 candidatos para ultrapassar a marca dos 60 mil, o que nas contas do PSOL garantiria uma vaga.

Como vereador exercendo a metade do segundo mandato, Pimentel é uma das vozes de oposição mais estridentes a denunciar irregularidades nas gestões do ex-prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves  (PDT) e do atual Álvaro Dias (MDB).

Com uma campanha voltada para pautas que defende na Câmara Municipal de Natal pelo segundo mandato consecutivo, a exemplo da causa dos animais e da categoria dos trabalhadores informais e vigilantes, o deputado estadual eleito Sandro Pimentel acredita que seu trabalho ganhará uma projeção regional, a partir de agora:

– Meu trabalho como vereador já tem uma amplitude estadual. E agora, como deputado estadual, acredito que teremos uma projeção ainda maior, regional.

Ainda que a calculadora não tenha saído de perto durante o processo eleitoral, Pimentel reconhece que não esperava chegar perto dos 20 mil votos. Nas contas do Partido, a votação dele ficaria entre 12 mil e 15 mil votos. Os apoios superaram a expectativa, especialmente porque a campanha foi financiada com recursos próprios. Ele explica que como a verba do fundo eleitoral destinada ao PSOL do Rio Grande do Norte foi de aproximadamente R$ 300 mil, a executiva estadual do Partido decidiu que o dinheiro seria repassado integralmente para as campanhas majoritárias, pelas quais concorreram o professor Carlos Alberto como candidato ao Governo do Estado e os candidatos ao Senado Telma Gurgel e Laílson Almeida.

– Imagina uma candidatura passar de 19 mil sem ter um horário eleitoral, sem ter um real de fundo eleitoral, verba pública, sem ter prefeito ou ex-prefeito apoiando. Foi uma votação surpreendente diante dessas limitações.

A estrutura que o PSOL tinha no Estado, segundo Sandro Pimentel, foi usada para apoiar concorrentes dele. A sigla administra duas cidades no Brasil, ambas no Rio Grande do Norte: Jaçanã e Janduís, cujos prefeitos acabaram apoiando Robério Paulino e Salomão Gurgel, respectivamente.

O parlamentar credita a eleição ao trabalho em defesa das pautas dos animais e dos trabalhadores. Sandro Pimentel é, de fato, o único parlamentar do Rio Grande do Norte identificado para questões envolvendo animais.

– Fizemos nossa campanha em cima de três bandeiras: defesa dos animais, defesa dos trabalhadores, informais, terceirizados e vigilantes, além da transparência. O trabalho que desenvolvo prestando contas do meu mandato dentro dos ônibus de Natal me coloca em contato direto com o povo e o povo não está acostumado a ver o político dando a cara para bater. Às vezes subo no ônibus com medo sem saber qual vai ser a reação do público, mas sempre sou muito bem recebido, às vezes até aplaudido.

Sandro Pimentel já subiu em 186 ônibus para prestar contas à população sobre o mandato (foto: Catarina Santos)

A iniciativa de Pimentel em prestar contas diretamente à população dentro de ônibus foi copiada por um colega de partido de Pernambuco. O jornalista e vereador de Recife Ivan Moraes passou a fazer o mesmo exercício nos coletivos da capital pernambucana após conhecer a experiência potiguar.

Em quase seis anos de mandato, Sandro Pimentel já subiu em 186 ônibus de Natal. E espera repetir a experiência como deputado estadual:

– Vou continuar fazendo sim, vamos pegar uma linha intermunicipal. Quando a gente passa, não tem dinheiro que pague esse olho no olho. No dia da eleição, qual era a candidatura que não estava fazendo boca de urna ? Acho que só eu. Fui votar na minha sessão e depois voltei para casa, satisfeito esperando a hora da apuração.

A eleição de Sandro Pimentel no Rio Grande do Norte reflete o crescimento do PSOL nos legislativos. A bancada federal saiu de seis deputados para 10. O partido ainda não fez um levantamento oficial nas assembleias legislativa. O fato é que o parlamentar potiguar destaca que além de ser do PSOL, suas origens o credenciam para bater no peito e dizer que o povo elegeu um representante da classe trabalhadora:

– Minha eleição é de fato um marco para o PSOL em tão pouco tempo na Assembleia Legislativa. Mas é mais do que isso. É deputado do PSOL chega, filho de agricultor e que mora no bairro de Nossa Senhora de Apresentação. Um trabalhador que tira até hoje plantão noturno. Então (minha eleição) não é só uma simbologia, é a marca da bandeira da classe trabalhadora chegando na Assembleia Legislativa.

Sandro Pimentel é parte da renovação de um terço da ALRN a partir de 2019. Das 24 cadeiras, 9 serão ocupadas por políticos no primeiro mandato. A eleição do parlamentar do PSOL também coincide com a queda de representantes das famílias tradicionais do Estado que não tiveram o apoio dos eleitores. Para o deputado estadual eleito, a política está, de fato, mudando:

– Isso significa que o povo brasileiro e o povo nordestino que é tão criminalizado acordou. Não acordou na velocidade que eu gostaria que acordasse, mas está acordando. Essa velha casta, que de tão velha eu chamo de velha politica velha, precisa entender que acabou. O coronelismo está acabando. Hoje todo mundo tem um telefone na mão, assiste a televisão na capital e no interior. Pode ser o barraco caindo aos pedaços, mas tem uma antena em cima da casa, as pessoas abriram mais a visão de que o papel do político não pode representar apenas os próprios interesses dos políticos. A política tem que representar as pessoas

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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