sexta-feira, 17 de novembro de 2017
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Jornalista revive em livro a infância infinita do estádio das multidões

Rafael Duarte Fotos: Acervo pessoal e VlademirAlexadnre
09 de novembro de 2017 CULTURA
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No finalzinho da tarde de 25 de novembro de 2011, o jornalista Rubens Lemos Filho voltava de uma agência bancária instalada no Centro Administrativo do Governo do Estado quando decidiu parar o carro e registrar, com o aparelho celular, uma imagem que lhe provocava mais tristeza que a derrota mais dolorosa do seu time do coração. Em meio a escombros de pedras, concreto, ferros retorcidos e terra, ainda estavam de pé os dois últimos lances de arquibancada de um estádio inaugurado em 1972 e que fora derrubado com golpes de arrogância, prepotência, deslumbramento e má-fé em nome de um falso progresso que até hoje o Rio Grande do Norte espera.

O registro, em preto e branco, encerra as 472 páginas de “Memórias póstumas do estádio assassinado: craques, jogos e saudades do Machadão”, livro-reportagem assinado pelo jornalista que conta histórias da cidade tendo o estádio João Cláudio de Vasconcelos Machado como uma espécie de ponto convergente, uma referência, um imenso personagem. Editado pelo jornalista Adriano de Sousa, o livro sai pela Oito editora. O lançamento acontece nesta quinta-feira (9), a partir das 19h, na AABB, no Tirol.

Apesar do livro jogar luz sobre fatos históricos da política, do cotidiano e do futebol relacionados com a cidade onde nasceram tanto o Machadão como o autor do livro, é impossível não falar dos impactos da perda, da morte. Até porque de concreto mesmo, na verdade, os estádios de futebol só guardam a estrutura. Lá dentro, especialmente em dia de jogo, nada escapa à emoção.

– Para toda derrota tem revanche, mas para a morte não tem jeito. Derrota a gente se recupera, mas isso aqui (Machadão) não tem mais volta. Dói todo dia. Pode achar exagero, mas dói todo dia. Pelo que eu vi, pelo que foi feito, pelo cinismo, pela arrogância, pela prepotência, pela submissão… vamos esperar que as pessoas que fizeram tanta aparição na mídia na época reapareçam agora por vias tortas ou não. Mas o brinquedo que elas me tomaram bateu duro na minha alma.

 

Jornalista contextualiza memórias do estádio com fatos marcantes da vida da cidade nas décadas de 70 e 80

 

A primeira vez que o pequeno Rubens Lemos Filho entrou no Machadão foi como mascote do ABC num clássico contra o maior rival, o América. Haviam mais de 40 mil pessoas amontadas na arquibancada, na geral e nas cadeiras. Até os 12 anos, o percurso em direção ao Poema de Concreto, como fora batizado o estádio, era sempre realizado na companhia do pai, o também jornalista Rubens Lemos, referência para o filho e para milhares de ouvintes da rádio Cabugi que o ouviam comentar os jogos das tardes de domingo.

– Me lembro de cada tarde, de cada quarta-feira que eu vi. Eu chamo o Machadão de a “infância infinita da minha vida”. Ficava com meu pai sentado na arquibancada ou na cabine onde ele comentava os jogos. A partir dos 13 anos eu ia de ônibus. Chega às 12h45, tomava muito din din e dadá, um suco bem fuleiro que vinha no plástico. O Machadão era meu confidente, meu amigo, meu irmão, meu pai.

Por convicção e coerência, o jornalista nunca pisou na Arena das Dunas nem em qualquer outro estádio higienizado construído para sediar a Copa de 2014.

Se há alguma coisa que me causa náusea e nenhum interesse em tocar no assunto é a arena. É a inversão do que eu vivi. É tudo, menos futebol. Diziam na época que era um bom negócio. Mas bom negócio para quem ?

Vale a máxima do “é comparando que se entende”. No final do livro, Rubens Lemos revela os dez maiores públicos do Machadão e da Arena das Dunas. E pede que o leitor tire as próprias conclusões. Em nenhum dos jogos, o público da Arena supera o antigo estádio de Lagoa Nova.

O Machadão foi demolido em 2011 para dar lugar ao estádio Arena das Dunas, construído via financiamento do BNDES a partir de um modelo suspeito de Parceria Público Privado (PPP). Pelas regras do jogo a concessionária OAS passou a ter o direito de explorar o estádio por 22 anos. Mensalmente, o Governo do Estado paga R$ 11,6 milhões à empresa pela manutenção do estádio. Ao final do período de concessão, nas cifras de hoje, o desembolso aproximado de dinheiro público será de R$ 1,2 bilhão.

 

Berg, do ABC, dribla Ivan Silva e encara Joel Santana, o futuro Papai Joel (1979)

 

O livro

“Memórias póstumas do estádio assassinado” surgiu em 2016 a partir de uma provocação do amigo e jornalista Adriano de Sousa. Como Rubinho gostava de publicar fotos históricas e dados de jogos nas redes sociais, compilar tudo numa obra física parecia a ideia mais lógica, especialmente para quem já tinha escrito três livros sobre futebol. E tudo fazia ainda mais sentido sendo o personagem da vez alguém que fazia parte da memória afetiva do autor.

– Como eu estava passando por um momento delicado, sem emprego, algo que nunca tinha me acontecido, pensei que realmente isso me faria bem. Já tinha um bom arquivo, procurei outros pesquisadores, fui aos jornais, entrevistei muita gente e resolvi fazer uma cronologia em forma de reportagem. O livro não tem a preocupação de colocar uma nota rodapé, explico tudo no texto.

Com prefácio assinado pelo arquiteto do próprio Machadão, Moacyr Gomes da Costa, Rubinho parte de 1972, ano da inauguração do estádio, e segue narrando fatos históricos e acontecimentos ano a ano até 1989. É o reencontro do arquibaldo e do geraldino com histórias envolvendo Alberi, Danilo Menezes, Marinho Apolônio, Pelé, Zico, Falcão, Sócrates e outros craques que desfilaram no tapete verde do Poema de Concreto.

As décadas de 1990 e 2000 aparecem juntas no capítulo “O fim do poema de concreto”. O abecedista apaixonado também reconhece a importância do maior rival no capítulo “Vermelhou na série A e no Nordeste”. Ainda há um texto sobre o gol mais bonito, obviamente eleito pelo jornalista, além de uma homenagem aos profissionais que, através do rádio, ajudaram a transformar jogos em espetáculos.

 

 

 

Até 1972, futebol era um programa onde cabiam aproximadamente 7 mil pessoas, capacidade máxima do estádio Juvenal Lamartine, construído na década de 1920. A partir dali, a rivalidade entre ABC e América ganha outra dimensão. O maior público do Machadão, inclusive, é no chamado clássico-rei de 4 de julho de 1976, com 50.486 pagantes. O alvi-rubro venceu por 2 a 1.

– O Machadão potencializa a rivalidade entre ABC x América. As aves agourentas diziam que não ia ter gente suficiente. Mas aí começou a ter jogos com 30 mil, 40 mil, 50 mil pessoas.

Lições ? Sim, há muitas delas. Em plena ditadura, Machadão parecia uma ilha de democracia. Derrubar o poema de concreto, na prática, foi a demolição de uma viga fundamental do país.

– A principal lição do Machadão, para mim, é de que há espaço para todo mundo. No Machadão, cabia do plebeu ao nobre. Todo mundo tinha lugar no Machadão, era um espaço democrático.

 

 

O TIME DE RUBINHO

Ao final da entrevista, a agência Saiba Mais pediu a Rubens Lemos Filho uma lista rápida dos 11 maiores jogadores que desfilaram no Machadão. Eis a lista:

  1. Alberi
  2. Danilo Menezes
  3. Marinho Apolônio
  4. Souza
  5. Moura
  6. Sergio Alves
  7. Dedé de Dora
  8. Silva
  9. Reinaldo
  10. Scala
  11. Alexandre Mineiro
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Sobre o Autor

Jornalista e autor da biografia “O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre”