sexta-feira, 17 de novembro de 2017
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É coisa de preto, a dona da senzala e como o Brasil ainda teima pra entender racismo

João Victor Leal Fotos:
11 de novembro de 2017 OPINIÃO
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No mês da consciência negra, voltou a emergir o debate sobre raça e ódio no país. Sempre quando acontece um caso público de racismo, junto dele vem uma onda inconfundível de condenação e revolta, mas também a percepção de que, passados 129 anos do fim da escravidão negra, ainda sobrevive em nossa fala um olhar violento sobre o corpo negro e sobre a nossa história.

Uma amiga de Brasília relatou no Twitter um caso que é, pra mim, o exemplo perfeito de como romantizamos o que foi a escravidão negra. Estava ela, mulher negra, na fila de um show, quando um homem, acreditando que estava fazendo um elogio, disse: “ você parece a dona da senzala, hein?”. O homem, mesmo com a insistência da explicação, não conseguiu entender a razão para ela ter ficado tão incomodada com o tal “elogio”, preferiu argumentar a longa lista de trabalhos em defesa dos direitos humanos que já tinha feito, a relação cordial que tinha com negros e como tudo aquilo era apenas uma falha de interpretação…dela, obviamente.

Um outro caso que sempre me vem à memória, quando penso na naturalização do racismo em nosso discurso, é o de um vídeo, do ano passado, onde um rapaz negro se posicionava contra a maioria de uma assembleia de estudantes que deliberou greve na UFRN. Nos comentários do vídeo, que ficou bem popular à época, muitos tentavam ridicularizar a posição polêmica do rapaz. “É o negro que se comporta como capitão do mato”, postou um, enquanto outro achava que fazia elogio ao comentar, recebendo muitos likes, que aquele era um “negro que se libertou das senzalas do comunismo.”

A violência simbólica desse tipo de discurso, que está longe de ser pouco comum, expõe o nosso desconhecimento sobre os 300 anos dessa que foi uma das maiores barbáries no nosso processo de formação enquanto nação. Não é incomum encontrar quem decidiu nomear como “senzala” seu negócio, ou alguém que, ao perceber alguns com uma opinião conservadora faz questão de cravar que aquele “é um negro de alma branca” ou, ainda, para intensificar as cores da nossa luta de classes, bradam que “a casa grande surta quando a senzala aprende a ler”.

Sempre me chamou atenção que todos somos certeiros em dizer que existe racismo estrutural no Brasil, mas ninguém é capaz de reivindicar a sua parte de responsabilidade na manutenção desse status, até mesmo, em aspectos que consideramos banais, como o discurso.

Ainda me incomoda muito como, na esquerda e na direita, a escravidão e seus contextos são usados tranquilamente em comparações, frases de efeito e para “lacrar” em discussões nas redes sociais. Como podemos entender a escravidão como barbárie se, pacificamente, usamos a barbárie como alegoria para “vencer” uma discussão?

Em um exercício de imaginação já pensou alguém chegar para uma mulher judia e dizer, em tom elogioso, “você parece dona do campo de concentração?”

Se é irrealizável, e com razão, esse tipo de comentário, então porque quando se trata de nossa herança negra as pessoas, simplesmente, não se constrangem ao transformar em elogio ou piada a violência imposta aos nossos ancestrais?

Nasci na periferia e lá aprendi a ler, de lá tenho as minhas melhores memórias, algumas difíceis também. Foi de lá que sai para ser um dos poucos negros na minha turma na faculdade. Tenho dimensão do quanto isso incomoda a tal elite que não aceita perder 1 cm do latifúndio de privilégio que sempre teve acesso, mas aquele sempre foi pra mim um lugar de resistência e felicidade, sendo assim não posso me considerar senzala. Senzala é o lugar da morte por exaustão, das feridas que sangravam depois do açoite, da miscigenação forçada, era o lugar da fome, da proibição de culto, era o cativeiro. A periferia que cresci, mesmo com seus problemas reais, nunca foi senzala. Se pudesse escolher diria que sempre foi quilombo, um lugar que teima existir apesar da brutalidade daqueles que querem seu extermínio. Talvez a verdade é que a casa grande surta quando o quilombo aprende a lutar.

O peso de tentar suavizar ou naturalizar aspectos brutais da escravidão negra é um reflexo de como ainda engatinhamos na construção de uma sociedade que entenda das particularidades da nossa construção racial. Enquanto negligenciarmos a parte negra da nossa história isso apenas se intensificará.

Permanece em nossa cabeça a imagem do negro que foi escravizado como um servo silencioso, subjugado, que não se revoltou, que apenas sucumbiu a escravidão. Isso porque ninguém nos contou nos livros de história sobre a quantidade de revolta, fuga e resistência negra à servidão forçada. Quando essa parte da história for contada, entenderemos a escravidão como um processo de resistência a uma violência crua. Não somos descendentes de escravos, somos descendentes de homens e mulheres que foram escravizados, mas que lutaram até o fim por liberdade.

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Sobre o Autor

Jornalista e militante de direitos humanos