sexta-feira, 17 de novembro de 2017
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O desejo autoritário

Durval Muniz Fotos:
12 de novembro de 2017 OPINIÃO
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Na sexta-feira à tarde, uma faixa solicitando a intervenção militar no país, foi estendida na passarela entre o shopping Via Direta e o Natal shopping. Pedestres e carros, que por ali passavam, manifestavam seu apoio, com gritos, aplausos e acionamento de buzinas. Já em 2015, uma manifestação apoiando a intervenção militar e a candidatura de Jair Bolsonaro a presidência da República, reuniu, segundo o jornal Tribuna do Norte, cerca de 12 mil pessoas, que ocuparam uma faixa da Av. Salgado Filho, vestidos de verde e amarelo e portando faixas onde se podia ler: “SOS FAB e Exército Brasileiro”, “O Olavo tem razão”, “Menos Marx e mais mísseis”.

Sempre quando isso ocorre, ficamos nos perguntando perplexos, o que essas pessoas têm na cabeça? Ficamos nos indagando das razões que podem levar a alguém reivindicar a volta da ditadura? Sempre tentamos buscar razões para que alguém deseje ver na presidência da República alguém tão despreparado, incapaz de uma ideia original sobre qualquer assunto, alguém que apenas sabe repetir bordões cheios de preconceito e ódio, que apenas sabe repetir as frases de senso comum? Nos perguntamos, como alguém em sã consciência deseja um “país livre”, como dizia uma das faixas da manifestação, o entregando a alguém claramente autoritário, para quem a liberdade não tem o menor valor, muito menos a vida e a dignidade humanas, à medida que defende abertamente a ditadura militar e a prática da tortura, além de fazer apologia do estupro, ato pelo qual já foi condenado judicialmente, da homofobia e do racismo?

Talvez o grande equívoco disso tudo é achar que está na cabeça, na razão, na consciência a resposta para nossas perguntas, para nossa perplexidade. Quando das manifestações a favor do impeachment, era comum que repórteres dos vários meios de comunicação, notadamente dos blogs e sites alternativos, interrogassem as pessoas sobre os motivos de estarem ali. Diante das respostas, a nossa perplexidade aumentava ainda mais, pois muitas das explicações nos pareciam surreais. Defendia-se a volta dos militares dizendo que se vivia uma “ditadura petista”; reivindicava-se liberdade e, ao mesmo tempo, Bolsonaro e intervenção militar; gritava-se contra a corrupção e, ao mesmo tempo, agradeciam a Eduardo Cunha por encaminhar a destituição da presidente; viam o comunismo se espalhando por todo lado, o bolivarianismo em cada esquina. Discursos raivosos e inflamados desenhavam um país que ninguém conseguia ver. Até uma bandeira do Japão foi transformada no projeto de bandeira brasileira acalentada pelos petistas. A bandeira do Brasil ia ser pintada de vermelho, os médicos cubanos faziam parte de um plano de invasão comunista. A teratologia tomava conta do país. Onde estava a racionalidade, a consciência, a inteligência nisso tudo?

Vimos colegas da universidade, para quem se considera que o uso da razão é obrigatório, pessoas informadas, bem formadas, pretensamente conscientes, usarem os argumentos mais esdrúxulos para apoiarem o impeachment. Colegas que costumam escrever, dar aulas, proferir palestras em busca da conscientização da população sobre questões de direitos humanos, gênero, sexualidade, relações raciais, problemas educacionais se tornaram eleitores de Marina e Aécio Neves (no que tinham todo direito), mas brandindo um discurso que procurava negar todos os avanços pelos quais o país passara, nos últimos anos, inclusive fingindo não ver as profundas mudanças ocorridas no ensino superior, nas universidades, no campo da educação. Lideranças históricas dos movimentos sociais de minorias a fazer um discurso de ódio e preconceito contra a candidata a presidente da República, numa retórica muito próxima a da direita. Ao invés de vermos críticas bem fundadas aos vários erros das gestões petistas, com a apresentação de alternativas ou saídas à esquerda, vimos essas pessoas aderirem a candidaturas de direita, sabidamente conservadoras, reacionárias, elitistas, corruptas, que jamais foram vistas defendendo os mesmos valores e as mesmas pautas dessas pessoas. Como explicar essas atitudes só levando em conta a racionalidade?

Há uma dimensão do social, do humano, que sempre foi negligenciada pelas esquerdas na hora de analisar os eventos e os comportamentos individuais e de grupos: o desejo. O desejo não é uma ficção, não é uma invenção dos psicanalistas e psicólogos: o desejo existe e é a principal força a mover tudo o que fazemos. No entanto, o desejo está longe de ser algo interno a cada um de nós, algo escondido, misterioso, algo que se alojaria em algum lugar de nós que não sabemos qual é. O desejo está longe de ser apenas desejo sexual, de se reduzir à sexualidade, de se esconder entre nossas pernas, de se alojar num inconsciente escondido no interior de nosso corpo ou de nossa alma. O desejo é imediatamente social, coletivo, pois ele nasce do encontro de nossos corpos, de nossos sentidos com o mundo, com os outros, com os objetos, sejam eles quais forem. O desejo não está em mim, não está no outro, está entre nós, está no meio, no encontro entre corpos, sejam eles humanos ou não. O desejo nasce quando somos afetados por alguma outra coisa do mundo, nem que seja imaginária, simbólica, imaterial. O desejo nasce com o afeto, com o toque que algum signo do mundo faz em nossos sentidos. Eu posso desejar aquelas belas pernas humanas que acabaram de passar por mim e me afetaram, como posso desejar a mercadoria que pisca para mim na vitrine do shopping. Eu posso desejar aquela comida que, através da narina, do cheiro, aguçou meu apetite, como posso desejar aquele livro que eu vi na estante da livraria.

O desejo é fluxo constante, ele não para de devir, de fluir, de nos aguilhoar, de nos cutucar, por isso ele mete medo, ele nos causa desassossego, ele nos causa insegurança. O desejo, no entanto, busca sempre conexão, agenciamento, busca sempre expressão. Como ele nasce de encontros, para que as conexões ocorram é preciso que os encontros sejam felizes, que o desejo que nasceu em um, também tenha nascido no outro (no caso das relações humanas). Desse encontro bem-sucedido nasce o amor, a felicidade, a fraternidade, a amizade, o companheirismo, a solidariedade. Quando o desejo não é correspondido ou não pode ser atendido (a mercadoria desejada não pode ser comprada, a meta não pode ser alcançada), quando os encontros não são felizes ou não se dão os bons encontros, surgirá a frustração, com ela podendo nascer o ressentimento, a raiva, o ódio, o desejo de vingança, a inveja, etc. O desejo quando consegue se conectar, quando consegue agenciar o seu objeto, ele se transforma em território existencial, em um lugar para habitar (se o meu desejo por um parceiro é correspondido posso construir o casal, o casamento, a convivência a dois como território para viver). Construído o território, nada garante que ele permanecerá existindo, que é eterno, pois o desejo não deixa de maquinar, de trabalhar: um novo encontro poderá fazer aquele território desabar, desmoronar, se desgastar (casados podemos ser afetados por outra pessoa e com isso o território matrimonial desabar), por isso o desejo é visto como caos, como perigo. O medo do desejo produz atitudes reativas, reacionárias, conservadoras, paranoides, fascistas.

O desejo para se expressar lança mão daquilo que dispomos e aprendemos no processo de socialização: as linguagens que conhecemos. Ele se utiliza de gestos, comportamentos, ações, palavras, signos, sinais para se manifestar, se fazer presente e presença. Quando o fluxo do desejo é acolhido, quando ele passa, ele se expressa através de dados recursos culturais, socialmente aprendidos (se meu desejo é acolhido pelo outro, sei disso porque ele me sinalizou com gestos, expressões faciais, com comportamentos, com palavras e ele fez isso porque eu também expressei adequadamente o que sentia utilizando dos mesmos recursos). Aprendemos a fazer rostos, gestos, posturas corporais, sinais, a dizer palavras, frases quando queremos fazer o nosso desejo chegar até o outro ou manifestá-lo. Por isso o desejo é, de saída, social e cultural, pois só se materializa, se expressa usando recursos cultural e socialmente aprendidos. Isso não significa que não possamos disfarçar os nossos desejos ou, pior, não saibamos direito o que desejamos. Como mostrou toda a obra de Freud, o desejo pode utilizar, para se expressar, das mais diferentes máscaras, ele pode simular, fantasiar, se deslocar para longe do que ele efetivamente quer.

Creio que só compreenderemos muito do que estamos vivendo, atualmente, na sociedade brasileira, se levarmos em conta, além das dimensões racionais, estruturais, macro-históricas, as dimensões subjetivas, micro-sociais, micro-políticas, ligadas ao funcionamento social e cultural dos desejos. William Reich apontou, ainda nos anos trinta, que era impossível entender a adesão de grande parte da população alemã ao nazismo, sem levar em conta as dimensões subjetivas, o funcionamento do desejo, o modo de produção de subjetividades, naquela sociedade, naquele momento histórico. Vivemos um momento de crise mundial do capitalismo e como bem tratou os filósofos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, o capitalismo não é apenas um modo de produção de mercadorias, uma dada relação social de trabalho e exploração, mas um modo de produção de subjetividades, produzindo e capturando os desejos; oferecendo modelos de sujeitos para serem consumidos, notadamente através da propaganda e da mídia; oferecendo uma carta de valores; colocando o dinheiro e a mercadoria, a coisa, o objeto, como o equivalente geral, aquilo que substitui qualquer coisa, que vale por tudo (troco o amor pela mercadoria; o sagrado vira mercadoria; a felicidade se compra a prestações; consumir é a realização; ter coisas, acumular é objetivo de vida; ser rico, ostentar, se apropriar de tudo e de todos é objetivo máximo); aquilo que deve estar no centro da vida e da existência das pessoas, oferecendo territórios vistos como de felicidade e sucesso.

Somos uma sociedade que historicamente foi constituída por desejos autoritários, ou seja, do exercício do poder sem limites e peias. Somos uma sociedade estruturalmente atravessada por desejos de viver sem obedecer aos limites da lei, da norma, do costume, da tradição, do hábito. Ou melhor ainda, temos como herança de nossa construção como sociedade, o funcionamento coletivo do desejo pautado por tradições, costumes e hábitos autoritários. Nossa sociedade se formou a partir do desejo de conquista e de domínio, de saque e de enriquecimento rápido. O outro aqui encontrado (os indígenas) nunca foi efetivamente considerado como um igual e sempre foi tratado a partir do desejo de subjugação, subordinação, conversão, manipulação, escravização. A empresa colonial foi marcada pelo total desrespeito pelo outro, pelo diferente, pelo diverso. As relações dos colonizadores com os negros aqui aportados à força, tratados como gado, vendidos como bestas, utilizados como meros instrumentos de trabalho, não foi menos discricionária. Mesmo as relações mais amenas, de maior proximidade entre senhores e escravos, aquelas atravessadas pelo paternalismo, nunca deixaram de reafirmar a superioridade de uns sobre os outros, de reafirmar a quase inexistência do outro como humano e como ser de direito, sendo, em extremo, considerado um mero objeto de uso. Os desejos que aí nasciam traziam a marca da dominação, da subjugação, da posse, da propriedade sobre o corpo do outro. Gilberto Freyre vai falar de desejos sadomasoquistas para caracterizar dadas relações entre senhores e escravos, o que é um absurdo, dado que os escravos eram submetidos a um desejo discricionário e autoritário, eles viviam uma situação da qual não podiam se safar e que muito menos a tinham desejado ou escolhido.

Há, portanto, na própria configuração da sociedade brasileira a prevalência, notadamente no seio das elites dirigentes, de desejos autoritários, desejos de poder discricionário, de poder sem limites, de subordinação incondicional do outro a uma vontade, a um desejo sem peias, um desejo de prevalência em toda e qualquer situação (poderíamos chamar esse desejo, como faz a psicanalista Suely Rolnik, de coronel-em-nós, desejamos coronéis e desejamos ser coronéis, em todo país, não só no Nordeste). Somos uma sociedade que amamos o poder sem restrições, que somos capazes de gozar coletivamente com o arbítrio, que somos capazes de tirar prazer da humilhação do outro (os programas policiais fazem enorme sucesso humilhando publicamente pobres e pretos, o bandido, o meliante), que projetamos nossos desejos nas figuras que encarnam o que julgamos ser a autoridade sem limites (daí o desejo por Bolsonaro, Collor, etc). Estamos, por isso, muito pouco preparados para criar uma sociedade efetivamente democrática. Nossas ações políticas, como de qualquer outro povo, são movidas mais por paixões, emoções e desejos, de que por razões ou ideias. A política é, por excelência, o campo de atuação dos desejos, pois o desejar significa desde o início fazer escolhas, e fazer escolhas é tomar posições e tomar posições é essencialmente fazer política. Aqui, no Brasil, o campo da política, como em outros campos, é atravessado por desejos autoritários, pelo desejo da inexistência do diverso, do diferente, que pode chegar a ser desejo de morte, de eliminação do outro.

Recentemente houve um conflito entre grupos de direita e de esquerda no Centro de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal de Pernambuco. Um professor identificado com as ideias de direita, resolveu exibir um filme-homenagem ao guru Olavo de Carvalho. Os grupos de direita, neonazistas, compareceram prontos para um conflito, até com soqueiras de metal nas mãos. Estudantes e militantes ligados a partidos e movimentos de esquerda resolveram fazer um evento paralelo, exibindo um filme sobre a Revolução Russa. Os neonazistas passaram a provocar, ocupando a parede onde seria exibido o filme. Após troca de empurrões os dois filmes foram finalmente projetados. No final, no entanto, houve um enfrentamento em que alguns saíram feridos. Os neonazistas trataram de se fazer de vítimas da intolerância comunista e conseguiram o que queriam: aparecer na mídia e ver seu discurso veiculado. Nos dias seguintes ao conflito, o prédio do CFCH se encheu de cartazes e em alguns banheiros foram feitas pichações que diziam: “Com nazi e fascistas só na porrada ou morte”, “Vamos esmagar os nazi-fascistas”. Fiquei a me perguntar quais dos dois lados seriam mais autoritários. Quem fez essas pichações e pendurou esses cartazes, embora se considerem de esquerda no plano racional, são movidos pelo mesmo desejo de morte, de vingança, de poder sem peia daqueles que combatem. São tão autoritários e fascistas em seus desejos quanto aqueles que, no plano da macropolítica, da racionalidade, da consciência se dizem de direita. A sociedade brasileira, sua democracia, sua cidadania, caminham muito mal quando a arte da política, da negociação, do diálogo, se vê substituída pela pura e simples eliminação do oponente, até com a morte.

Quando observamos as ações e reações políticas de dados colegas da universidade, sabemos que não são as motivações racionais, não são as razões que oferecem, não são as causas que dão a suas escolhas que efetivamente explicam o que fizeram e fazem. São motivações, muitas vezes consideradas, muito mais íntimas, privadas, individuais, muito mais pessoais que as levam e levaram a tomar dadas atitudes políticas. O ressentimento, nascido de desejos não realizados, nascido das frustrações de suas ambições, as simpatias e antipatias pessoais, os conflitos com colegas de Departamento, os maus encontros, os desejos bloqueados, que não passam, que não constituem territórios, a inveja, a raiva contra dadas pessoas e instituições, as vaidades feridas, os egos maltratados, dirigem muito mais as escolhas políticas do que qualquer racionalidade. O PT, Lula, Dilma se transformaram em bodes expiatórios de todas as frustrações individuais e coletivas, objetos de todos os ressentimentos, frustrações, desilusões, carências, desejos de poder e até de desejos de morte. O país que se dane, a coletividade que pague o pato, desde que seus desejos de vingança, de poder, de reação encontrem com quem se conectar. Fico pensando, agora que o governo golpista, fruto do golpe apoiado por essas pessoas, suspendeu os aumentos de salários dos docentes até 2020 e ameaça elevar a alíquota de desconto do INSS de 11 para 14%, ou seja, nos presenteando com uma inédita redução de salários, que argumentos estão maquinando para se explicar. Os eleitores de Aécio, que sabem agora (como já sabiam) quem ele é e o que ele pretendia, como sustentam racionalmente a sua opção.

A crise do capitalismo, aliada à grave crise política e de valores em que vivemos, amplia a sensação de insegurança, de medo do futuro. Nessas conjunturas, as mudanças, as transformações sociais tornam-se mais difíceis de suportar, de encarar. As pessoas amedrontadas tendem a desejar tudo aquilo ou aquele que pareça oferecer segurança certeza, manutenção do status quo. Nesses momentos, os desejos reativos, os desejos por territórios existenciais já conhecidos, por conservar o que se tem passam a prevalecer. Além dos desejos egoístas, aqueles que pretensamente protegem o ego, a pessoa, o sujeito, a subjetividade de qualquer processo de desterritorialização (ou seja, de perda do território existencial que habita), prevalecem os desejos autoritários, aqueles que querem barrar à força, nem que seja com o uso da força, qualquer transformação social ou pessoal que possa ocorrer (daí ressurgem o fantasma do comunismo, da revolução; ataca-se o que chamam de ideologia de gênero; o feminismo e o movimento homossexual se tornam inimigos; o status quo social e racial é defendido). Nessas circunstâncias, as pessoas facilmente aderem a soluções politicas e a líderes políticos que prometem combater na porrada ou na bala todos aqueles vistos como ameaças de dissolução da família, da sociedade, da nacionalidade, da fé, de qualquer território que elas consideram sagrado e seguro.

Quanto mais frágeis, desterritorializadas, perdidas, quanto mais fracassadas, frustradas, quanto mais feridas, traumatizadas, quanto mais carentes, inseguras, dependentes, estiverem as subjetividades, mais pavor sentirão do desejo e suas conexões infindas, sua abertura para o fora, para o devir, para possíveis incontroláveis, para o ilimitado, mais grudarão em territórios, identidades, imagens de si mesmo e dos outros reativos, conservadores, reacionários. Aquele que se deixa afetar pelo corpo semelhante, morrerá de medo desse desejo e se tornará homofóbico, aderirá ao discurso e práticas homofóbicas, a figuras homofóbicas, que também partilha desse mesmo pavor diante do desejo que o aguilhoa (poderá até matar com crueldade o outro que lhe infunde esse desejo para dele se livrar). Aquele que teme os devires femininos que lhe habita reagirão em pânico diante do feminismo, das mulheres. O desejo autoritário é um desejo que, se levado às últimas consequências, inviabiliza até mesmo a vida social, pois significa o desejo que o outro não exista como limite, como fronteira, como barreira a esse desejo de poder sem contestação e sem oposição. O desejo autoritário inviabiliza a cidadania pois rejeita o contraditório, a discussão, o debate, o direito do outro ser e fazer diferente. O desejo autoritário é no fundo celibatário, onanista, pois por sua violência põe a perder todo laço social, rompe qualquer conexão, fica falando sozinho, voltado e enrolado sobre si mesmo, fechado em seu próprio mundo azedo, amargo, ressentido, gozando com sua própria impotência. A pretexto de ter todo poder, de ter tudo, de se apropriar de tudo, reduz tudo e todos a nada, a ninguém e fica assim impotente. O desejo autoritário pode reduzir tudo a cinzas na busca de conter todo o fogo do desejo.

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Sobre o Autor

Historiador e Professor