quinta-feira, 18 de Janeiro de 2018
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No Brasil em delírio, falam sobre mérito enquanto menino desmaia de fome na escola

João Victor Leal Fotos:
18 de novembro de 2017 OPINIÃO
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Nos anos 80 e 90 eram muito populares, aqui no Nordeste, programas de TV que exploravam o estado de miséria do povo para garantir audiência. Com o intuito de ajudar quem tinha fome, esses apresentadores acabavam virando nomes expressivos da política local, e quando não venciam, conseguiam que seus indicados vencessem as eleições. Por décadas, o Brasil lidou com a miséria não como um combate a ser feito por políticas de estado, sim como um projeto para garantir poder aos que queriam ter acesso a ele.

Nas portas das casas, pedintes se revezavam. Nas ruas da periferia, carros de som circulavam com pessoas que não tinham o que comer e pediam ajuda. Os pobres, um pouco mais pobres, eram sempre mão de obra por um almoço ou jantar. Tudo isso era vivido como se fosse efeito das escolhas individuais de cada um, jogando para os famintos as responsabilidades de quem usava prato vazio como moeda eleitoral. Tratando a fome como algo natural, para que não percebessemos seu estado de anomalia.

Nas décadas seguintes, nos governos de centro-esquerda, vimos a fome diminuir drasticamente a partir das garantias de programas sociais de transferência de renda. Contudo, a manutenção de uma lógica de conciliação com setores parasitários da política e da economia, cobrou seu preço. Os plutocratas continuaram a garantir, como sempre, que a única coisa que não é atingida com cortes e congelamentos é a boa parte do orçamento que forma a renda de quem já tem muita renda sobrando.

Crianças buscando a escola para assegurar a primeira, talvez única, refeição do dia sempre foi uma indignidade presente na realidade brasileira. O que segue surreal é que a ordem de prioridade não é debater como um país com gigantesca produção agrícola, ainda consegue falhar na garantia da segurança alimentar de seus cidadãos.

No Brasil, preso numa espiral de biruta sem fim, o foco é legislar agressivamente contra os direitos reprodutivos das mulheres, contra a liberdade de ensino, contra os direitos civis de minorias, pela pauperização do trabalho. As milícias morais das redes sociais bradam contra corpos em museus, por uma escola sem ideias, mas ainda não chocam com um problema muito mais brasileiro, a escola sem merenda. O Brasil que se alimenta bem, não se importa muito com o Brasil que ainda passa fome.

Gritam pela redução da maioridade, enquanto aprovam o congelamento dos gastos em saúde e educação. Perseguem professor em escola, enquanto o trabalho intermitente é aprovado na reforma trabalhista. Gritam contra a arte, para que ninguém preste atenção no medíocre que ocupa o Planalto. Falam sobre proibir aborto, para no meio disso passar a reforma da previdência.

Desviar foco dos problemas urgentes do país para pautas morais ou para uma paranóia macarthista virou a camuflagem perfeita para essa geringonça liberal que defende um estado microscópico na economia, mas gigante no controle dos corpos e das pessoas. Onde tudo será conquistado por mérito, onde o único papel do estado é se eximir, até mesmo de garantir a nutrição de seus filhos mais novos. Se o menino de oito anos, que desmaiou de fome em uma escola de Brasília, não conseguir, talvez seja porque não se esforçou o bastante.

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Sobre o Autor

Jornalista e militante de direitos humanos