segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
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Ciro ironiza Rogério Marinho: “A reforma trabalhista é uma aberração. Votem nele”

Paulo Nascimento Fotos: Frankie Marcone
06 de dezembro de 2017 + Notícias
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Há mais de três décadas Ciro Gomes é agente ativo da política cearense e nacional. Mas nada é mais conhecida na sua trajetória do que a capacidade de não medir esforços para criticar, seja amigos, aliados históricos ou inimigos políticos locais e nacionais. Em mais de 1h30 de palestra na manhã desta quarta-feira (6), sobraram petardos verbais para todo lado: os ex-presidentes Lula e Dilma, Michel Temer, Gilmar Mendes, a banca financeira, Jair Bolsonaro e até o deputado potiguar Rogério Marinho.

A respeito do deputado tucano, o pré-candidato à presidência da República pelo PDT fez sérias críticas ao modelo da reforma trabalhista, projeto que esteve sob a batuta de Rogério Marinho no Congresso e está em vigor há pouco menos de um mês. Na primeira fila da plateia, o presidente da Fecomercio-RN, Marcelo Queiroz, um dos mais ardorosos defensores da reforma trabalhista no plano local.

– Essa reforma vai se revelar uma aberração. Já está se revelando, na verdade. O mundo do trabalho mudou e nossa legislação está anacrônica, mas nenhuma nação do mundo prospera introduzindo insegurança jurídica e insegurança econômica. Precisamos convocar um debate generoso com a população inteira ou essa legislação vai criar uma baderna. (…) Eu vi que isso foi feito por um deputado potiguar. Votem nele de novo.

Sobrou provocação até para a própria UNIFACEX, que recebeu o presidenciável em seu auditório do campus na Avenida Deodoro da Fonseca para a palestra. Apontando para o emblema da instituição privada, ele alertou para as informações veiculadas sobre a demissão de professores e imediata recontratação com salários baixos amparados pela nova legislação.

– Atenção pessoal! A universidade Estácio demitiu hoje 1,2 mil professores e os contratou de novo com base na nova legislação, com o salário caindo pela metade.

A diretora do campus, Ana Járvis, também foi rebatida por Ciro. Ainda antes do início da palestra, ela questionou sobre o preço do aluno de ensino superior, que seria quatro vezes mais caro no setor público do que no privado.

– Nós precisamos expandir o ensino público e gratuito. A responsabilidade pública é democratizar o ensino. Respondendo à mestra que nos recebe: sim, existem muitas ineficiências no serviço público, mas dizer que o aluno do setor público custa quatro vezes mais do que o da rede privada, está se fazendo uma falácia. Disparado o ensino público é melhor que o privado, por média. O que quer dizer que não haja exceções.

 

Reformas e o campo progressista

 Na visão do ex-ministro de Itamar Franco e Lula, o campo progressista não deve evitar falar em reforma, mas tomar as rédeas do debate e propor as mudanças devidas.

– Nós não devemos ter medo de falar em reforma. Precisamos sair dessa grande perplexidade ideológica e assumir o trabalho de reformar as instituições do país, que hoje não servem mais à população. Agora, há reformas e reformas. Temos que definir a qual senhor nós vamos servir. E é este é o meu antagonismo com esta geração de reformas que os golpistas estão impondo ao país”

Para Ciro, é necessário criar um novo desenho para um projeto de desenvolvimento do país, capitaneado pelo estado e aliado ao setor produtivo, reavivando o ideário desenvolvimentista encarnado nas figuras de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck.

– O Brasil não tem problema genético. Saímos do nada, na década de 1940, para nos transformarmos, em 30 anos, na 15ª economia industrial do planeta. Somos ‘case’ nos manuais de economia.

As saídas iniciais, segundo ele, seriam quatro complexos industriais, que puxariam a saúde, defesa, agronegócio e petróleo e gás.

– Na saúde, por exemplo, importamos bilhões de materiais com patente vencida, como bengala, cama, remédios. Isso é emprego gerado fora do país e compras para o serviço público que já estão postas. Com uma política de incentivo aos jovens empreendedores, com incubadoras de empresas, a gente resolve isso. Em defesa, nossas comunicações são feitas por satélites americanos. É uma aberração, depois até de espionarem nossa presidente. E a agricultura mais agressivamente competitiva do mundo importa 40% dos seus custos, sem justificativa plausível. Precisamos reverter isso.

Bolsonaro

Entre todos que levaram chicotadas da fala de Ciro Gomes ninguém “apanhou” mais do que o deputado federal Jair Bolsonaro.

– Ele está ouvindo o galo cantar e não sabe onde. A minha dúvida é se ele faz por malícia ou só de inexperiência mesmo. De onde é que liberar arma diminui violência? (…) O direito de andar armado é um grosseiro equívoco, em se tratando de segurança pública. É tarefa do Estado prover a paz. A ideia imbecil de armar fazendeiros para se proteger de invasão simplesmente vai fazer de cada fazenda do Brasil um lugar que o crime organizado vai buscar armas pesadas, porque as pessoas não são treinadas para isso. O MST tem que se manter dentro da lei por autoridade legal e não por violência individual.

As aspirações de Bolsonaro à Presidência da República como primeira experiência no Poder Executivo também foram alvo dos petardos do cearense.

– Se tu está mesmo com vontade, Jair Bolsonaro, o epicentro da esculhambação, da corrupção e da violência organizada no Brasil é o teu estado. Faz 26 anos que tu é deputado estadual e foi vereador mais quatro. O que tu andou fazendo quando o crime organizado se instalou nas favelas do teu estado? Teu governador (Sérgio Cabral) está condenado a 54 anos de cadeia. O presidente da Assembleia do teu estado (Jorge Picciani) está preso. Cinco desembargadores (conselheiros) do Tribunal de Contas estão presos. Cadê tua fala sobre esse assunto? Te alui (expressão comum entre os cearenses equivalente a um puxão de orelha em quem não toma atitude)

Recentemente, durante evento promovido pela revista “Veja”, Bolsonaro chegou a dizer que “policial que não mata não é policial” e defendeu que policiais envolvidos em autos de resistência – nomenclatura oficial para casos em registram-se mortes cometidas por agentes de segurança pública – nem devem ser investigados. O ex-governador do Ceará rebateu veementemente os posicionamentos.

– A propósito, Jair Bolsonaro – já que ele provocou -, os policiais no estrito cumprimento do dever legal ou na legítima defesa sua ou de terceiros são excluídos da criminalidade, mas não são excluídos da apuração. Porquê o estado democrático de direito tem que apurar se há crime ou não. Não comete crime quem exerce seu dever legal. Isso é mentira sua ou desinformação, que não estudou ou não quer estudar e está falando de assunto sério a golpe de frase feita. Presta atenção no serviço.

 

Gilmar Mendes

O Poder Judiciário não passou em branco na palestra de Ciro Gomes na Unifacex. Para o ex-governador, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes não vem agindo como se espera de um membro da Corte.

Acho que o ministro Gilmar Mendes tem agindo muito à margem da lei. Fala demais, reúne-se com quem não devia. E isso é muito ruim para quem faz parte da Corte a quem é concedida a última palavra. Não pode dar liminar impedindo a presidente de nomear ministro, totalmente hostil à Constituição. Com atitude de soltar bandido sem ter a atribuição para isso”.

 

Ministério Público

A crítica ao recato também recaiu para os procuradores da República e o projeto de 10 medidas de combate à corrupção.

As 10 medidas de combate à corrupção são fascismo puro. Presunção de inocência, ônus da prova a quem acusa, contraditório, liberdade até o trânsito em julgado. Tudo isso é pacificado no mundo. Produzir prova artificialmente sempre foi nulidade no mundo inteiro. Isso não quer dizer que não precisamos atualizar a legislação para enfrentar a corrupção. Mas não é por despotismo esclarecido, muito menos por garoto do Ministério Público que se acha a chibata moral da nação recebendo salário acima do teto.

 

ENTREVISTA / CIRO GOMES

 

Antes da palestra na UNIFACEX, o pré-candidato à Presidência da República Ciro Gomes (PDT) conversou com a agência Saiba Mais  sobre os projetos dele para o país. Confira:

 

O governo Temer fala que se tiver uma recuperação consistente na economia vai lançar candidato. Qual sua opinião?

Tomara! Esse governo é o beijo da morte. Não só pelo desastre econômico, mas pelo desastre moral.

 

O senhor fala bastante em resgatar o complexo industrial de petróleo e gás do país. Como trabalhar essa recuperação, diante do atual cenário nacional e internacional?

 Neste setor é relativamente simples. Eu tenho um compromisso, que vou reafirmar. Uma vez presidente, vou tomar de volta todos os blocos de petróleo entregue aos estrangeiros após o golpe e a revogação da lei de partilha. E esta lei que isentou R$ 1 trilhão para as petroleiras também será revogada. Isso só funciona com um governo muito forte junto ao povo, que estabeleça um sistema de inteligência e contra-inteligência para acompanhar isso em tempo real, passando isso para a consciência popular. Senão, vão matar o presidente, vão criar escândalos artificiais para derrubar o presidente, vão sabotar a economia. Isso é assim no mundo inteiro, desde o Mossadegh no Irã até as crises de hoje no Oriente Médio. A Venezuela também é petróleo.

 

E o debate da reforma da previdência, está no caminho correto?

Essa reforma da Previdência que está posta é uma aberração. Não há justificativa para que o trabalhador rural do semiárido nordestino tenha idade mínima igual ao intelectual que trabalha no ar condicionado. Nenhum lugar do mundo obriga professor a dar 49 anos de aula para ter aposentadoria integral. Temos que discutir, mas mexendo nos privilégios, na sonegação, nas isenções trilionárias.

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