segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
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Vamos falar sobre suicídio???

Leilane Assunção Fotos:
07 de dezembro de 2017 OPINIÃO
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Em meio a todas as mazelas que atingem a humanidade nos dias de hoje – um tempo onde o fascismo voltou a moda e defender o direito a vida de todos se tornou uma bandeira somente das esquerdas, quando deveria ser de todos os humanos – existem alguns consensos que produziram a máxima de que a grande doença do século XX foi a depressão. O século XXI, perto do fim de sua segunda década não parece desconfirmar essa tendência. Qualquer análise dos números de afastamentos do trabalho em qualquer amostragem de qualquer categoria profissional que analisemos tenderá a nos mostrar que uma parte desproporcionalmente grande dos afastamentos se dá por doenças da mente, depressões, transtornos bipolares, síndrome do pânico e etc.

A depressão atinge indiscriminadamente seres humanos (e mesmo determinadas espécies de animais tais como primatas, elefantes, cetáceos e nossos cães e gatos domésticos além também de felinos e caninos selvagens dentre outros), somos seres sujeitos as depressões, algumas tão severas que podem minar a vontade de viver dos indivíduos ao ponto de, de fato, se produzirem óbitos, seja pela enfraquecimento do sistema imunológico causada pela tristeza aguda (hoje sabe-se o quanto o estado de espirito é fundamental na recuperação ou não dos indivíduos de doenças as mais variadas – a tão bela e conhecida lição do saudoso, que também sucumbiu a depressão e ao suicídio – Robin Willians com Patch Adams: “O amor é contagioso” era justamente essa). Seja mesmo pela ato deliberado de se tirar a própria vida, coisa que aparentemente é um distintivo, algo exclusivo da espécie humana, ou seja: se outros animais são capazes de se deprimir e ate vir a morrer devido a depressão, o ato deliberado de tirar a própria vida parece ser uma exclusividade nossa, dos humanos.

Apesar de, em tese, ser um estado de espirito ao qual todos estão sujeitos, independente do recorte de classe, etnia e gênero, hoje temos estudos que demonstram como, a mazela do suicídio, atinge de maneira desproporcionalmente alta, a população LGBT (especialmente a “T”) numa escala de ao menos 5 vezes mais que a população tida por socialmente hetero. Caso alguns infames projetos de lei, como o que visa autorizar terapias de supostas reversão de sexualidade ganhem folego de fato, a verdadeira epidemia de suicídios que atinge os LGBTS brasileiros tende a se agravar.

Allan Turing, criador do protótipo do primeiro computador da história, um dos mais proeminentes sábios do século XX foi levado ao suicídio (versão mais aceita da morte de Turing, existem especulações sobre se seu suicídio não poderia ter sido simulado disfarçando na verdade o que seria um homicídio, a queima de arquivo de um homossexual indesejado não somente pela questão de gênero, como por ser depositário de segredos de guerra). Isso para citar apenas um caso considerado famoso, conhecido na história, mas as centenas de milhares de histórias de LGBTS que cometem suicídio permanecem, na grande maioria, desconhecidas de nós. São pessoas invisibilizadas em morte tanto quanto o foram em vida, daí a importância de atentarmos para denunciar esse verdadeiro holocausto LGBT, uma vez que não só ostentamos os maiores índices de violência LGBTfóbica do mundo, como os que LGBTS que não são assassinados acabam sendo coagidos pelas imensas dificuldades da vida em sociedade pela condição de ser LGBT, a tirarem eles mesmo suas vidas.

Num recente caso, me choquei com a história da mulher trans cearense Kyara Barbosa que deu fim a própria vida com apenas 23 anos. Militante, ativista, Kyara alimentava um blog onde justamente denunciava como o suicídio tem dizimado a população LGBT não só brasileira como mundial. Os números são assustadores. De acordo com a ONG National Gay and Lesbian Task Force, 41% das pessoas trans já tentaram suicídio, contra 1,2% da população cisgênero. Uma pesquisa da Universidade de Columbia nos Estados Unidos informa que o índice de suicídio é 5 vezes mais frequente entre LGBTS.

Hoje mesmo, uma amiga minha, também mulher trans (umas das poucas que tenho notícia que jamais se prostituiu), me confessou que voltou a pensar em suicídio, porque hoje ela recebeu a notícia que estará desempregada a partir de 2018 e como a vida de trans já é muito dura tendo renda fixa imagina sem tê-la. Fiquei arrasada em saber disso, e de imediato tentei consolá-la de alguma maneira, levantar seu astral. Enfim: afirmei que daria a ela todo meu apoio, tudo que estivesse ao meu alcance, ao que, num impulso certamente condicionando pela energia do momento ela retrucou um tanto secamente: “Voce não pode me ajudar, porque não é apoio moral, psicológico, o que preciso, o que pode me salvar é um emprego, algo que garanta a continuidade da minha independência financeira”.

Foi duro pra mim ouvir isso, foi um tanto chocante eu diria e é por isso que agora compartilho tal relato com vocês, meus leitores nessa coluna, para que tentemos dar mais aos nossos amigos LGBTS que somente apoio, solidariedade. Precisamos nos engajar nas lutas dessas pessoas porque não são só delas. São lutas que dizem respeito à humanidade. Garantir o acesso ao trabalho, à empregabilidade, é condição básica para que tais pessoas possam garantir, minimamente, seu direito de existir. Alguns podem dizem que a problemática do acesso ao trabalho é geral devido a crise e etc, mas essas pessoas não tem acesso a literatura cientifica, aos números, que mostram que, para os LGBTS, especialmente para os trans, o acesso ao mercado de trabalho é vedado mesmo quando são donos dos melhores currículos, mesmo quando estão na ponta de lança de suas profissões, é algo muito além do que a mera escassez de vagas que atinge a todos em geral, é um tipo de exclusão que só atinge, de fato, quem está no lugar de gênero da transexualidade ou, no mínimo, do não binarismo de gênero. Sendo algo diferente até da tão alardeada, com muita justiça, desigualdade salarial entre homens e mulheres cis no mercado de trabalho.

Acho que se nós, professores de historia e sociologia especialmente, tivéssemos falado mais em sala de aula dos horrores da ditadura militar, das mazelas da escravidão, do que existe de essencialmente mal no fascismo, talvez hoje não tivéssemos o absurdo sociológico de uma juventude flertando, abraçada, com o fascismo. Quando foi que ser jovem deixou de ser sinônimo de estar antenado com os mais nobres ideais de liberdade, justiça social, diversidade e amor ao gênero humano???

Em seu clássico estudo sobre o suicídio, Durkheim identifica entre as variáveis que determinam tal ato o papel do nicho social primeiro do indivíduo, sua família, depois seu meio social ampliado, escola, trabalho, etc. Pois bem, todo LGBT já ouviu a máxima que agora vou repetir e que traduz a tragédia da vida da maioria dos LGBTS. “LGBT não tem família, família de LGBT é outro LGBT.” A história da vida da imensa maioria dos LGBTS que conheci ou li e ouvir falar são a de pessoas que foram maltratadas, exploradas, agredidas e no limite expulsas de seus lares pelos próprios familiares. Muitos depois de muito perseverar, conseguem um lugar ao sol no mercado de trabalho (especialmente gays homens brancos de classe media muito mais socialmente inseridos que as outras “letrinhas” do movimento) e ai passam a ser “arrimo de família” passam a sustentar parentes e aderentes, geralmente aqueles mesmo que outrora os agrediram e humilharam e que agora melhoram o trato devido a melhora da condição financeira do LGBT em questão. Sem família que os ame, sem escola (a imensa maioria das travestis e transexuais ou mesmo gays afeminados abandonam a escola por bullying os mais diversos), sem acesso ao mundo do trabalho restam os poucos amigos, geralmente outros LGBTS, que nos entendem, nos acolhem, nos ajudam.

Você LGBT que agora me lê? Consegue ver sua própria historia aqui? Por isso precisamos continuar a fortalecer nossas redes de apoio mutuo, comum, entre os LGBTS e especialmente os “S”, os simpatizantes. Simpatizem mais gente, não só com sentimento, mas com ações. Até o cristianismo em algum momento já afirmou que “a fé sem as obras nada seria”. Ou seja, não basta desejar o bem, tem que se fazer o bem, efetivamente, ao próximo. Nessa época do ano os suicídios aumentam, devido as festas de fim de ano que costumam produzir nostalgias de memorias contrastantes difíceis de suportar: o apharteid familiar presente com as lembranças das festas de natal da infância, quando na ausência da sexualidade e auto definição de gênero ainda era possível se sustentar as ilusões, agora perdidas, de pertencimento familiar.

Hannah Arendt muito bem nos chama atenção que compreender os fatos não significa negar neles “O chocante, o inaudito”. Afirma ela também que, por mais “atroz que seja tal realidade não nos cabe furtar-se dela, senão enfrentá-la”. Ou seja vamos parar de esperar o próximo suicídio de amigo LGBT que tenhamos, e vamos agir antes, pra não se chocar e chorar depois? Como eu posso agir se não sou dona dos empregos Leilane??? Poder-se-ia retrucar. Você pode se engajar, você pode lutar junto conosco. Se toda a sociedade se levantasse de uma vez contra a LGBTfobia ela teria que cessar, não restaria opção, mas enquanto acharmos que é uma luta que não é nossa, estaremos sendo cúmplices, indiretamente que seja, da epidemia de suicídios de LGBTS.

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Sobre o Autor

Historiadora e Militante LGBT