quinta-feira, 18 de Janeiro de 2018
Saiba Mais

Perspectiva 2018

Leilane Assunção Fotos:
11 de Janeiro de 2018 OPINIÃO
Zoom in Regular Zoom out

Já que semana passada fiz a “retrospectiva 2017”, nada mais apropriado senão seguir essa tendência apresentando essa semana uma “perspectiva 2018”. Me recordo que na última semana do ano o banco Santander pós no ar, no intervalo do horário nobre da Globo, um programa onde faziam uma perspectiva 2018 pra lá de otimista e eu fiquei assistindo aqui e me lembrando que na campanha da reeleição de Dilma, em 2014, esse mesmo banco mandou e-mails para os clientes com renda acima de dez mil lhes informando que a vitória da petista não interessava aos negócios do banco e de seus ricos correntistas.

O escândalo na época levou a demissões e não foi o suficiente para derrotar a candidatura de centro esquerda capitaneada pela governante que mais fortaleceu os bancos públicos  frente os privados na história do Brasil: Dilma Rousseff. Em 2011, seu primeiro ano do primeiro governo, ainda “surfando” no bom  momento econômico que o país vivia como legado de Lula, Dilma ousou baixar os juros, (mas do que havia feito o próprio Lula) e ampliou os empréstimos pequenos, para pessoas de baixa renda, nunca escala que produziu uma expansão do capital dos bancos públicos frente aos privados da ordem de “um Bradesco” para usar linguagem dos financistas. Era a primeira vez na história do país que, juntos, os bancos públicos controlavam  mais de 51% do mercado financeiro brasileiro.

Tal situação não poderia continuar, o Brasil sempre foi o paraíso dos bancos privados (e nunca deixou de ser totalmente visto que o gesto da Dilma foi muito mais de fortalecimento dos  bancos públicos do que de atacar e prejudicar os bancos privados). O país conhecido, mundo afora, por ostentar as mais altas taxas de juro do mundo, começava a assistir sua queda a menos de dois dígitos em muito tempo.

Para o Santander, e os bancos privados em geral, restou patrocinar ofensivas de marketing, digital ou televisivo, por mais sútil ou escrachado que fosse, no sentido de fortalecer qualquer movimento político que conduzisse o país de volta aos rumos do neoliberalismo obsoleto dos anos 90, época a qual teve como grande marco o fato de o Brasil ser um país absolutamente subordinado ao FMI, ao sistema financeiro internacional. Então, como o governo golpista tem anunciado vários pacotes de maldades ao povo, e bondades os bancos, petroleiras, fazendeiros que escravizam e toda sorte de gangsters  que que são contra os interesses do povo, não é a toa que o Santander acha que agora sim estamos nos trilhos e que as perspectivas para 2018 são ótimas.

2018 deve seguir o roteiro de 2017 no que diz respeito a agenda de perda de direitos dos trabalhadores e dos movimentos sociais, da crescente moralização fundamentalista da política com a criminalização crescente das pautas libertárias dos movimentos LGBT ,de mulheres e de pessoas que usam drogas especialmente. 2018, que se abre com a tão celebrada pela mídia golpista menor taxa de inflação desde 1998, não deve ser diferente de 2017 também nessas questões. Somos quase que tentados a pensar em dados manipulados, pois num ano que se bateu recorde nos aumentos de gasolina, gás e luz, se chegar no Ano Novo e se dizer ao povo, fiquem felizes, a inflação é a menor em 20 anos.

Não adianta nada para o povão, a arraia miúda da população que subsiste com pouco, se os preços dos alimentos caíram 1,85%. Essas pessoas não estão podendo sequer consumir. Quem se beneficia com essa baixa da inflação nesse momento são os ricos, que nunca param de consumir, a questão é se vão consumir mais barato ou mais caro. Enquanto que para os pobres o dilema hoje e ter condições de consumir alguma coisa. Por isso que não me animo nem me iludo com essa inflação mais baixa da história recente do pais, ela pra mim é mais sinônimo da recessão, que da recuperação.

Apesar disso estou com minha cara Laíssa que esse semana em sua coluna nos alentou com as palavras do poeta Cazuza ao parafrasear, em relação a suposta sensação de que as esquerdas brasileiras estão alquebradas ou vencidas “Mas se você achar que estou derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados, pois o tempo, não para”.

É possível que se pudessem, Temer e seus comparsas, congelassem o tempo agora: ficariam sempre em seus cargos, com suas infames imunidades, surfando no aumento de popularidade do governo (de risíveis 3%, para ridículos 6%) e na ausência de novas denúncias contra o próprio Temer (por que contra seus correligionários, é o tempo todo, o caso da Nova e impedida judicialmente de assumir Ministra do Trabalho processada pela Justiça do Trabalho é só o “escândalo da vez”). Que bom que isso não é possível, o tempo vai continuar a passar e em março desse ano em Salvador os movimentos sociais do Brasil e do mundo vão se reunir no Fórum Social mundial, ocasião onde estratégias de luta, encaminhamentos, diretrizes para enfrentar a ofensiva fundamentalista e fascista  serão propugnados.

Acima de tudo podemos fazer de 2018 o ano da reviravolta, da reversão do Golpe. É preciso, é urgente que o país dê a resposta nas urnas. E não adianta somente eleger um candidato ao executivo federal, é preciso fazer o que nunca fizemos nem por Lula e nem por Dilma, é preciso dar um congresso que não seja formado predominantemente por bandidos de todos os tipos, e sim de cidadãos exemplares, muitos deles com maravilhosas histórias de luta e representação politica, mas que são ignorados nas urnas devido a alienação financeira e consequentemente midiática de todo o processo.

É bem possível, diria que é absolutamente irreversível a condenação de Lula em segunda Instância, porque ela faz parte do roteiro do Golpe de 2016. Os golpistas sabem de sua fraqueza nas urnas e precisam nivelar a eleição por baixo, inviabilizando a candidatura do Lula, o único que lidera e ganhar em todos os cenários a eleição 2018 para a presidência. Então para não arriscar o projeto entreguista deles em longo prazo, é fundamental tirar Lula do páreo.

Não seria a primeira vez que algo assim aconteceria. Mais uma vez um mergulho em nossa história pode ser muito esclarecedor. No fim das contas estamos num país onde quase sempre o  mais caro princípio democrático não é respeitado: a soberania do povo, a soberana vontade do povo em decidir quem quer que lhe governe.

Quando a República foi proclamada, em 1889, mesmo a conquista do sufrágio universal masculino não traduziu a soberania do povo primeiro pela manutenção da assimetria de gênero com a continuidade da negação do voto as mulheres que perdurou até 1934, e também pelo fato conhecido que o sistema coronelista e seu famoso poder de coerção eleitoral a partir dos bem conhecidos currais eleitorais que favoreciam os chamados “voto de cabresto” jamais ter permitido que a vontade do povo pudesse ser ouvida naqueles anos da “República do Café com leite”.

Vargas deu o  Golpe de 1930, prometeu constituição e voto a todos na constituição de 1934 que ele mesmo revogou, impedindo as eleições de 1938 com o Golpe do Estado Novo em 1937. Curiosamente, apesar de seu autoritarismo, revolucionou as condições de vida do povo mais pobre do Brasil ao publicar a CLT em 1943, que tirou os trabalhadores brasileiros de uma situação de quase semiescravidão em pleno século XX, dai o apelido que ia marcar a vida do ex ditador: “Pai dos pobres.”

Dois anos depois, com a derrubada de Vargas do poder em 1945, a legislação eleitoral da época deixou o ex ditador inelegível. Foi ai que o inesperado para a imprensa golpista daquela época tanto quanto para a de hoje, aconteceu. Espontaneamente multidões começaram a brotar para defender o “Pai dos pobres”. Comícios de opositores de Vargas, que falavam mal de Getúlio, eram invadidos por simpatizantes do ex presidente, dando origem a um dos maiores movimentos populares de massa da história do Brasil: o Queremismo.

Queremismo, de querer. A frase de ordem desse movimento era “Queremos Getúlio.” Se desdobrava em outras máximas tais como “Eleição sem Getúlio é fraude”. A grande imprensa da época (inclusive a Globo, sempre ela) ojerizavam o desejo populacional, taxando o povo de ignorante, analfabeto, alienado e que vota com a barriga (quaisquer semelhanças com os discursos antipovo de hoje em dia não são mera coincidência) quando o grande empresário vota no candidato neoliberal não é alienação é defesa dos seus interesses mas quando o povo vota no candidato que mais fez por ele não é defesa consciente e política dos seus interesses e sim “alienação”. Sei, já vimos esse filme, literalmente inclusive visto que hoje a história do ex-presidente Vargas esta imortalizada pelo cinema nacional.

O historiador Jorge Ferreira, estudioso do período Vargas, chama atenção para o fato de que os documentos de época demonstram ostensivamente, que havia uma clara consciência das classe trabalhadora do país, de que haviam evoluído bastante em sua qualidade de vida graças aos direitos da legislação trabalhista (esta mesma praticamente revogada com a reforma trabalhista de Temer).

Quando os trabalhadores empoderados ameaçaram hegemonizar-se no poder no pais, em 1964, veio o Golpe militar. O Queremismo, apesar de ter originado um  movimento existente até hoje, o varguismo que tem semelhança com o Lulismo, mas guardam também diferenças, bem como ter gerado também, o hoje pelego,  partido da Ministra do Trabalho (PTB) que não assina carteira de trabalho, mas não conseguiu propugnar a candidatura de Vargas para as eleições daquele ano. Em 1984, o que talvez tenha sido o maior movimento de massa da história do país, as “Diretas já” também não conseguiu sua maior reivindicação, fazendo com que a transição democrática só se completasse com a Constituinte em 1988. Em 2016,  manifestações menores, como o são menores todos os  movimentos sociais de massa do século XXI substituídos em grande medida pela “militância digital”, também não conseguiram evitar o Golpe parlamentar-juridico-midiatico que perdura atualmente.

A conclusão e que estamos num país onde poucas vezes seus grandes movimentos de massa saem vitoriosos dos embates com a direita, com o fascismo. Em 2018, temos mais uma vez a chance de lutar e de vencer. Temos que não nos esquivar da luta cotidiana. O debate, a troca de ideias, a paciência (que eu mesma as vezes não tenho e espero que você meu leitor tenha) para no longo prazo, conviver e modificar visões de mundo direitosas, “coxinhescas”, para paradigmas mais libertários, fraternos, sem violências.

É o conversa com o porteiro, com o taxista, com as pessoas na fila do ônibus, do banco, do supermercado. Não o tempo todo, obvio pra não ficar um chato, mas sempre que possível, sempre que for oportuno, sempre que houver contexto. Vou ao IFRN de Currais Novos dar uma palestra sobre expansão e inclusão no sistema federal de ensino, como não reconhecer ali o trabalho maravilhoso da atual Senadora e pre candidata ao Governo do Estado Fatima Bezerra do PT? Onde antes era o deserto de possibilidades, fazendo com que as pessoas tivessem que migrar para a capital do estado para ter acesso à educação pública de qualidade, hoje é um sonho realizado para tantos: poder estudar, com qualidade, na sua própria cidade,  na sua região. E isso era pra ser política de estado, mas infelizmente não foi, foi política de governo, daquele governo derrubado pelo Golpe, então como é que nós, pensadores da história, sociologia e ciências humanas em geral, nas nossas analises da sociedade, não vamos apontar o dedo contra os políticos que tiram do povo e atentar para registrar, aqueles que, pontualmente que seja, fazem o bem pelo povo?

Claro que o faremos, esse é na realidade nosso trabalho. Então, para que se 2018 não possa ser tão bom, mas que as perspectivas para 2019 sejam melhores, é preciso lutar para poder votar em quem queremos mas mesmo que não seja possível, não esmorecer, e apoiar o novo candidato que possa representar a continuidade desses  valores e desse projeto, esse seria um plano B.

Pela primeira vez que eu me lembre, as perspectivas para o RN estão melhores do que para o Brasil, não para 2018 claro, mas, para 2019, basta que se eleja a comprovadamente competente Fátima para o governo do RN nas eleições desse ano e renovemos essa Câmara estadual mais suja que pau de galinheiro. No âmbito federal, o plano A continua a ser Lula, gostaria inclusive de usar o espaço para convidar meus leitores a assinarem o manifesto “Eleição sem Lula é fraude”. Mesmo que não sejamos  vitoriosos nessa Luta para manter Lula no pleito, e acho que não seremos porque é um jogo de cartas previamente marcadas essa encenação do judiciário, ainda iremos pra a eleição sim, com o plano B que seja, mas com a motivação de achar que a luta está longe de ser perdida. Perdemos uma grande batalha, que foi a deposição de Dilma, mas a guerra pelo futuro do Brasil, por 2018, 2019, 2020, 2021 e ainda mais, ainda está em aberto. Trabalhadores do Brasil e do mundo, uni-vos.

Comentários do Facebook

Gostou do Artigo? Compartilhe!

Sobre o Autor

Historiadora e Militante LGBT