sábado, 17 de Fevereiro de 2018
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Um filminho bom e uma raiva bem grande

Alex de Souza Fotos:
06 de Fevereiro de 2018 OPINIÃO
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Domingão, a pedida é pegar um cineminha de leve, já que ninguém de aço inoxidável, à exceção do Colossus dos X-Men. E justamente para perder um pouco desse ranço nerd e dar um polimento numa injustificada fama de intelectual, fomos assistir a um Agnés Varda, em parceria com um fotógrafo e muralista francês, JR, chamado ‘Villages, Visages’.

O que primeiro chama a atenção no filme é Varda, um nome de peso da Nouvelle Vague e já com bons 88 anos na cacunda, produzir seu filme por meio de uma campanha de financiamento coletivo. A velhinha tá antenadíssima.

Villages, Visages é um faux documentário não-tão-faux-assim que acompanha Varda e JR num projeto de circular por vilarejos franceses numa caminhonete-estúdio, tirando fotografias das pessoas (daí o ‘visages’ do título), ampliando-as no veículo e colando-as pelos lugares.

Esta ideia bem simples rende bons frutos ao colocar as pessoas em contato com seus vizinhos, suas memórias, seus afetos e suas próprias histórias. Os personagens aparecem espontaneamente, quase por acidente, e vão nos cativando aos poucos: a jovem mãe cuja foto vira atração turística, a descendente de mineiros que se recusa a abandonar a casa para que o quarteirão seja demolido, o operário que enfrenta sua última jornada de trabalho antes da aposentadoria, as esposas dos estivadores, um amigo falecido da diretora.

O bom humor fica por conta do clima de é-documentário-mas-é-ensaiado adotado por Varda e JR. Essa estratégia permite ao filme construir para si um liame narrativo frouxo mas presente, que começa numa cisma com os óculos escuros do fotógrafo e termina numa participação mais ou menos especial de Jean Luc Godard. Aquele tipo de cinema que te faz sair da sala de exibição com um sorriso impresso na alma.

Até que você sai do Cine Bangüê (eles não abandonaram o trema por aqui) e fica puto, por lembrar que Natal poderia muito bem ter algo do tipo. Explico.

É que o Cine Bangüê é um cinema público existente aqui em João Pessoa.

Deixa eu repetir: O Cine Bangüê é um cinema público existente aqui em João Pessoa. Público. PÚBLICO. P-Ú-B-L-I-C-O. Ele fica dentro do Espaço Cultural José Lins do Rêgo, uma mega-estrutura localizada numa área central da cidade, que abriga, entre outros equipamentos, uma galeria de artes, um teatro, um planetário e um teatrinho de arena. Além de abrigar quase toda a estrutura burocrática da secretaria estadual de cultura.

No Bangüê, a programação segue o esquema filme nacional-cinema de arte-filmes clássicos. A verba tímida é multiplicada com um pouquinho de criatividade: são duas sessões por dia e, mais ou menos, uns cinco a seis filmes por mês, que ficam se revezando no decorrer da semana. Assim, você sempre pode se programar para assistir o que te interessa, de acordo com sua disponibilidade de horário. Ah, e o ingresso custa R$ 10, com direito a meia entrada para professores, estudantes e aposentados.

“Poxa, seria massa se Natal tivesse algo do tipo”, você deve pensar. Ora, meu amigo, Natal não tem sequer uma biblioteca. Deixa eu repetir: Natal não tem sequer uma biblioteca. BIBLIOTECA. B-I-B-L-I-O-T-E-C-A. Ah, e os dois únicos teatros públicos da cidade estão fechados há alguns anos. Por sinal, falando em criatividade com o dinheiro público tão escasso, tanto o Sandoval Wanderley, quanto o Alberto Maranhão têm diretores nomeados, quando qualquer mestre de obras poderia muito bem exercer essa função, por um precinho camarada.

Em vez de inveja dos franceses, fiquei foi com inveja dos paraibanos. Para você ver como a coisa tá russa.

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