sábado, 17 de Fevereiro de 2018
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Banda Independente da Ribeira: 20 anos de folia, resistência e boêmia

Rafael Duarte Fotos: Acervo / Banda Independente da Ribeira
08 de Fevereiro de 2018 CULTURA
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Jovem, porém rodada. É carnaval e lá se vão 20 anos desde que o projeto de preservação histórica e arquitetônica Fachadas da Ribeira deu origem à banda mais identificada com a história da cidade do Natal. Independente, literária e, obviamente, etílica. A Banda Independente da Ribeira está pronta para desfilar mais uma vez revisitando seu passado profano de alegria, anarquia, esperança e de algumas mágoas. No Brasil de hoje, só há uma certeza: ninguém escapa da crise.

Após um ano de hiato em razão de consequências da morte inesperada de um dos fundadores do grupo, o arquiteto Marcelo Tinôco, a Banda da Independente volta às ruas da capital potiguar nesta quinta-feira (8) com um trajeto diferente. Pela primeira vez, o palco do desfile não será o bairro símbolo da agremiação. A concentração está marcada para 18h, em frente ao bar 294, na avenida Deodoro da Fonseca, em Petrópolis, e segue até o largo do Atheneu, onde a prefeitura de Natal fará a tradicional abertura oficial do carnaval com a entrega das chaves da cidade ao Rei Momo e à Rainha do Carnaval e show de Leão de Judá, Sueldo Soares e Carlinhos Brown.

O presidente da Banda Independente da Ribeira, o arquiteto Haroldo Maranhão, conta que a mudança de itinerário ocorreu por motivos financeiros. Sem tempo para captar recursos diante da aprovação do projeto na Lei Djalma Maranhão de incentivo à cultura no final de 2017, ele recorreu à prefeitura de Natal para adaptar o desfile. Maranhão explica que há pelo menos quatro anos as receitas da venda de camisas e o patrocínio do SESC não são suficientes para pagar a estrutura de banheiros, segurança e o cachê dos músicos.

O estopim ocorreu em 2017, quando o valor do patrocínio repassado pelo SESC ficou preso na conta do arquiteto Marcelo Tinôco, morto às vésperas do desfile. Sem verba, o desfile se tornou inviável. Contando os últimos prejuízos, que Haroldo já equacionou e espera zerar a dívida até o carnaval de 2019 a partir da solução do impasse com o SESC, venda de camisas e de novos patrocínios já previstos, o passivo ultrapassou as cifras de R$ 20 mil.

Outra alternativa encontrada para ajudar a equacionar as contas foi transformar a Banda Independente da Ribeira numa espécie de cooperativa. A partir de agora, os 20 instrumentistas que tocam na agremiação passarão a receber um percentual, caso haja lucro.

– Algumas pessoas cobram que a Banda saia, reclamam, mas precisam entender que alguém paga essa conta. Tivemos esse problema com o SESC, mas será resolvido. Sairemos esse ano porque a prefeitura chegou junto, apoiou, com isso mudamos o percurso. O bar 294 também nos deu 100 camisas que precisamos vender para reverter em dinheiro para os músicos. Estamos concluindo uma travessia e espero zerar essa dívida até o carnaval de 2019. Fiquei mal, algumas noites dormindo mal, cheguei a colocar minha casa à venda, mas essa fase está passando.

 Haroldo Maranhão também adianta que, diferente do que ocorreu este ano, os ensaios da Banda da Ribeira voltarão a ser gratuitos. A falta de recursos foi a justificativa para aceitar a proposta do Espaço Cultural Buraco da Catita, que bancou o cachê dos músicos e viabilizou os ensaios ao custo de R$ 10 por pessoa para o público.

– Embora a gente não tenha conseguido captar os recursos pela Lei Djalma Maranhão esse ano, dá para captar para o próximo em razão do tempo de validade do projeto. Vamos começar mais cedo e trabalhar para que a Banda saia como antes, com ensaios abertos, palco e volte a desfilar na Ribeira, comemorando o aniversário de 21 anos.

 

Memória

 O arquiteto Haroldo Maranhão acabara de concluir o projeto Fachadas da Ribeira, em 1999, voltado para a restauração arquitetônica do bairro, quando o amigo Leonardo Godoy lançou a ideia de fundar uma banda de carnaval para não deixar morrer a ideia de preservação da Ribeira. Mas tinha que ser uma banda diferente, com identidade. De um grupo de amigos, que incluía arquitetos, servidores públicos, jornalistas e empresários nasceu, também por sugestão de Godoy, o Grêmio Recreativo Lítero-Etílico Cultural e Esportivo Banda Independente da Ribeira.

 

Banda Independente da Ribeira passou a arrastar multidões descendo a ladeira da Cidade Alta até a rua Chile

 

A primeira assembleia regada à cerveja definiu Haroldo Maranhão como o general da Banda. Até aquele momento, o arquiteto nunca havia produzido sequer uma festa de criança e carnaval, para ele, era sinônimo de farra, paquera e diversão. O desafio foi aceito com uma única exigência consensual: a banda tinha que ser popular, ou seja, era proibido cobrar para desfilar.

Olhando pelo retrovisor da história, Maranhão classifica como “louco” o primeiro desfile da Banda. O estandarte foi feito à mão em um pedaço de cartolina com o nome da agremiação e o percurso faria inveja aos maratonistas da cidade. Já sob a batuta do maestro Neemias Lopes, a Banda se concentrou no bar das Bandeiras, subiu até a Cidade Alta e desceu pela Junqueira Ayres (hoje Avenida Câmara Cascudo) até voltar ao ponto de partida. Hoje, 20 anos depois, faltaria fôlego para a ala mais experiente da diretoria.

Durante o período, é inegável a contribuição da Banda da Ribeira para a cultura natalense. Além de Neemias Lopes, o público foi apresentado aos arranjos inéditos de maestros revelados pela Banda, a exemplo de Gilberto Cabral e Antônio de Pádua. Atualmente, o quarto da linhagem é o maestro Gomes, músico desde a fundação da banda.

As camisas vendidas para ajudar a pagar os custos também valorizaram artistas plásticos da cidade, contratados para criar a estampa. Assis Marinho, Marcelus Bob, Afonso Martins, Ângela Almeida, Fábio Eduardo, Flávio Freitas, entre outros artistas deixaram suas respectivas marcas registradas na história da Banda.

– A figura do maestro de Banda ensaiando os blocos não existia em Natal, foi a Banda da Ribeira quem criou. Hoje várias bandas já fazem ensaios com seus maestros. Foi um movimento construído com muito sacrifício, mas de forma amadora porque ninguém pensava em ganhar dinheiro. Eu sou arquiteto, nunca fui produtor. Vendo ideias e não projetos culturais.

Sobre a grande marca da Banda Independente da Ribeira nessas duas décadas, Maranhão aponta a relação das pessoas com a cidade. Entre homenagens a personalidades que frequentaram o Centro Histórico, nas entrelinhas ele acredita que há uma celebração a Natal.

– Os ensaios e o próprio desfile passaram a ser ponto de encontro de pessoas, amigos que não se viam há muito tempo e que, pela época do ano, saíam de suas casas no veraneio para acompanhar a banda. A Ribeira passou a estar na mídia, a Rua Chile estava na mídia. Fizemos homenagens a Nazi, a Celso da Silveira, a Berilo Wanderley, a Zé Arei, passamos com a banda pela igreja do Galo, a antiga catedral, o Instituto Histórico Geográfico… a Banda da Ribeira sempre teve um olhar voltado para a história da cidade.

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Sobre o Autor

Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"