sábado, 17 de Fevereiro de 2018
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Luzes de carnaval

Leilane Assunção Fotos:
08 de Fevereiro de 2018 OPINIÃO
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Alguém pode, urgente, avisar ao prefeito Carlos Eduardo que o pífio “natal em Natal” já acabou por favor? Gente, que absurdo é esse que já chegamos no carnaval e a cidade continua com a decoração de natal que sabemos tradicionalmente deveria ter sido retirada desde o dia de Reis? E meu espanto não é só meramente estético, afinal, se uma das propostas de uma gestão seja enfeitar uma cidade, que ao menos se faça isso de maneira temática, coerentemente com as datas, imagina deixar a decoração de São João até o natal por exemplo?  Não faz sentido evidentemente.

Na verdade, decorar uma cidade cuja prefeitura não paga os salários dos servidores em dia já é um abuso. Qualquer gestão, e em casa fazemos isso, sabe ou deveria saber muito bem que quando o dinheiro é curto deve-se eleger prioridades, então creio que entre pagar em dia os servidores e investir em decoração natalina ou qualquer que seja, deveria estar claro pra Carlos Eduardo qual seria o principal. Mas nosso prefeito está mais preocupado em escrever artigo pra por a culpa dos problemas da cidade (resultado direito da ingerência, incompetência desse senhor que ocupa o executivo municipal com apenas uma pausa de quatro anos desde 2002 – outra catástrofe para a cidade que foi o governo Micarla de 2009 até 2012), na crise nacional e no finado governo federal do PT. É um pulha mesmo esse homem, qualquer um que acompanha minimamente o executivo municipal natalense sabe muito bem que todas as obras, melhorias, investimentos feitos nessa cidade nos últimos anos foram repasses do governo federal, que o município apenas executa (e muito mal).

Outra coisa importante e que não pode ser esquecido, algo que ajuda muito a entender o porque de fazer decoração natalina ser prioridade numa cidade que não varre as ruas, não limpa canteiros (fazendo o natalense sentir saudades da cidade limpa, varrida, jardinada, cultivada pela saudosa guerreira Wilma) e investe numa fonte luminosa jamais ligada, feita pra enferrujar, num dos pontos mais centrais e vistos da Zona Sul da cidade, o viaduto de Ponta Negra. Lembremos as denúncias e escândalos de corrupção envolvendo as  empresas que são contratadas pelo município para entregar os precários e ridículos adornos de natal que vimos nos últimos tempos (ate que esse ano “melhorou”) pela nossa cidade.

Esse ano eles inovaram, e decidiram que nossa conta de luz tá muito barata de modo que não tem problema manter os enfeites luminosos de natal em pleno carnaval. Além do desperdício de dinheiro do contribuinte natalense, além da falta de logica e coerência da estética natalina perdurar carnaval adentro, questiono o próprio princípio colonizado e antiecológico de decoração natalina com luzes. Onera a conta de luz do município e só faz reproduzir uma logica e estética totalmente importadas e deslocadas das nossas características climáticas. Até quando, num lugar quente, pobre e cheio de necessidades como o nosso vai se ficar gastando dinheiro do cidadão pra imitar o hemisfério norte na sua cultura de neve e luzes no natal?

Ninguém nunca se perguntou o dano para a fotossíntese das plantas, das arvores, que se veem invadidas pelas luzes natalinas? Por que não decorar usando temas e motivos ecológicos e tropicais? Porque não buscar na cultura afro-indígena elementos decorativos biodegradáveis, recicláveis, sem luz, sem brilho, sem glitter também, por favor.

Hoje sabemos o dano que o glitter causa nos ecossistemas marinhos, e em tempos de carnaval que só vemos as pessoas querendo muito brilho, vale a pena se perguntar se o mar, a vida, o planeta, ainda terão seu natural brilho (no sentido de vitalidade) se não começarmos urgentemente e rever até hábitos considerados pequenos,  inocentes e insignificantes, quanto não usar glitter no carnaval, ou usar pouco e se usar não lavar, e sim retirar com toda a maquiagem antes do banho para o glitter não correr para o esgoto e depois rios e mares.

As vezes custamos a fazer associações ecológicas simples  mas que não parecem estar óbvias para a maioria. Tipo, pouca gente fez a conexão entre a atual epidemia de febre amarela no sudeste com o desastre ambiental do Rio Doce. Qual a relação Leilane? Toda, o cataclismo ambiental do rio, dizimou grande parte das populações de aves e anfíbios da região, favorecendo a multiplicação de quem? Mosquitos, privados de boa parte da população de seus predadores.

Esse tipo de notícia não lemos nem ouvimos na nossa grande imprensa, claro. Temer está próximo de perdoar todas as dívidas da Samarco, pois a lógica neoliberal do capitalismo internacional para países subalternos  como o Brasil voltou a ser depois do Golpe é:  eles (as multinacionais) ficam com o lucro, nós brasileiros ficamos com o dano ambiental e todas suas consequências. E olha que nem toquei no ponto da privatização do Aquífero Guarani nem da maior escalada de devastação que a Amazônia viu desde os terríveis anos 90 (década de maior devastação da floresta). Tá difícil  viver na Natal de Carlos Eduardo, no RN de Robinson Faria e no Brasil de Michel Temer

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Sobre o Autor

Historiadora e Militante LGBT