sábado, 17 de Fevereiro de 2018
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“As Kengas são conectadas com o mundo, mas nossa bandeira é o carnaval”

Rafael Duarte Fotos:
Ilustração: Gabriel Novaes
11 de Fevereiro de 2018 CULTURA
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O desfile das Kengas é a festa mais democrática e popular do carnaval de rua natalense. Há 35 anos é assim. Já são três gerações rindo, gritando e se emocionando com as Kengas. Pela passarela instalada no coração do Centro Histórico, sob o comando de Jarita Night Day e Shakira, as duas mestras de cerimônia, o público vai ao delírio, torce, vaia, xinga e aplaude efusivamente as drag queens que, como bem lembra Lula Belmont, já foram chamadas de transformistas nos anos 1980, no começo desta história.

Em 2018, ligado ao debate de gênero pautado na sociedade contemporânea, o desfile das Kengas teve como tema “Transforme-se”. O evento contou com a as presenças da potiguar Dani Cruz e da cantora carioca Sandrá de Sá, além da participação especial de Renata Arruda.

Nesta entrevista especial, o produtor cultural e fundador do desfile das Kengas Lula Belmont conta como tudo começou e o que faz das Kengas tão queridas pelo público numa sociedade tão preconceituosa e conservadora como atual.

 

Como nasce a ideia do desfile das Kengas ? 

As Kengas surgiram em 1983, época em que a banda Gália deu uma reascendida no carnaval de Natal. Tínhamos um grupo de amigos que sempre partia para os carnavais de fora, Salvador, Olinda, mas nesse ano resolvemos ficar em Natal para o carnaval. Essa é a época da palavra resgate…

 

Como assim ?

Acho um absurdo. Ninguém resgata nada. A população é que faz a festa, volta a frequentar, mas nunca vai ser do jeito que você queria que fosse. Acho engraçado porque a Ribeira tem a cara disso. E está aí, tem mais de 40 anos e ninguém resgata nada. Ela acontece de alguma forma, lógico que a infraestrutura é importantíssima, sem apoio não se faz. Mas a gente resolveu ficar em Natal para engrossar o caldo do carnaval e, na época, eu tinha uma boate chamada Brodway na rua Felipe Camarão e (o jornalista) Marcos Sá deu a ideia de batizar o bloco de Kengas.

 

Então nesse ano vocês estavam decididos a ficar em Natal para lançar um bloco…

Era para lançar o bloco e encorpar o carnaval junto com banda Gália, porque eles faziam o desfile na sexta-feira e depois partiam para brincar o carnaval fora de Natal. Era esse mesmo modelo que existe hoje: as pessoas fazem as prévias e depois vão embora. E lançamos em 1983, com sucesso.

 

E o nome ?

Marcos Sá sugeriu por causa do duplo sentido. Natal tem uma tradição muito forte com o côco (quenga significa cuia e tem na região Nordeste uma relação com o côco) e também tem a quenga rampeira, prostituta, aquela coisa toda. Ele sugeriu e acatamos.

Em 1983  já aconteceu nos moldes como ocorre hoje, com desfile, premiação…

No chão, desfile mesmo. Tinha uma charanga com oito músicos tocando percussão, samba, e fizemos aberto, na rua Felipe Camarão, na Cidade Alta. Deu umas 300 pessoas. Rodamos o chapéu, mas deu muito pouco para pagar a charanga e houve a escolha da primeira Kenga. Abriu-se um corredor polonês no chão mesmo e as kengas desfilaram.

 

As pessoas já iam fantasiadas, já havia a figura da Drag Queen ou isso é mais recente ?

Na época, a gente chamava de transformista mesmo, drag queen é uma expressão dos anos 1990 (risos). A questão era o homem se vestir de mulher, pegava a roupa da mãe em casa mesmo.

 

Quem foi a primeira kenga eleita ?

 Deu empate entre Luciano Morais e Joe Maravilha. Luciano hoje é professor da universidade de Mato Grosso do Sul e a Joe trabalha com arte, mas não sei por onda anda. Conseguimos pagar as despesas em 1983 e, no ano seguinte, já viemos para a rua Vigário Bartolomeu, onde abri a boate Vice-versa e houve o estouro.

 

Como era o carnaval na primeira metade dos anos 1980 ?

 Era o final dos assaltos no carnaval, quando grupos de papangus entravam nas casas e os proprietários davam comida e bebida. Nessa época tinha a banda Gália e foram surgindo outros blocos menores, como a Ponta Negra, o Puxa-saco, nesse tempo os blocos de elite foram para a beira da praia, foi quando surgiu o carnaval de veraneio em Pirangi… a Redinha já tinha um carnaval forte e aqui em Natal, não. Quando Garibaldi foi prefeito vieram Moraes Moreira, Baby Consuelo, alguns trios. As bandas saíam sempre da praça das Flores e desciam para a praia dos Artistas. E as Kengas sempre desfilaram no Centro Histórico.

 

Você ia dizendo que no segundo ano o desfile das Kengas foi um sucesso…

 Se em 1983 deu 300 pessoas, em 1984 já foram mais de mil pessoas. O motel Taiti entrou em parceria com a gente, encheu a cidade de faixas engraçadas, dizendo que as Kengas iam invadir a Assembleia, o Centro de Turismo, nessa linha. Eram frases de duplo sentido. E ainda havia aquela coisa das Kengas terem nascido numa época de grande efervescência política, como o movimento pelas Diretas já ! e também junto com o nascimento das bandas de rock.

 

Mas há alguma relação ?

 Historicamente sim, até porque algumas pessoas que frequentavam e faziam parte do grupo das Kengas também participavam de movimentos políticos.

 

Mas houve naquele início alguma mensagem política ?

 Sempre teve. Em 2018 nosso tema é Transforme-se diante do debate de gênero que há no país. Então sempre teve uma conotação política, social, educativa. No primeiro ano, em 1983, fizemos um trabalho de conscientização sobre a AIDS, da prevenção, do uso da camisinha…

 

A partir do boom no segundo ano do desfile o que muda no evento ?

 Em 1984 já não foi uma charanga, contratamos uma banda de frevo e, pela primeira vez, vendemos camisas. A partir daquele ano, com a aquela quantidade de gente, não dava mais para o desfile ser no chão, em 1985 já precisamos alugar um caminhão para fazer uma passarela em cima, alugamos um palco.

 

A prefeitura apoiou ?

 Só a partir do quinto ano. Era bem independente. A prefeitura entrava com segurança, limpeza urbana, mas pagar mesmo só depois de cinco anos, quando surgiu o baile das Kengas.

 

E o público nos primeiros anos era de transformistas ou já havia, como hoje, famílias participando ?

 O público das Kengas, desde o início, sempre atraiu todo mundo. Homens, mulheres. As famílias sempre chegaram junto. Pai, mãe, filhos, sobem no palco. São três gerações com o mesmo modelo, só a estrutura é diferente. E o mundo mudou também.

 

Como as Kengas acompanharam esse processo de transformação no mundo que vai de um debate forte sobre a existência da AIDS, em 1983, até esse debate também muito forte sobre a questão de gênero hoje ?

 O bloco das Kengas surgiu junto com movimentos sociais porque consegue misturar todas as classes sociais. As Kengas são uma brincadeira, e isso a gente não pode deixar de ressaltar porque primeiro de tudo é carnaval, mas ao mesmo tempo foi abrindo esse comportamento. Mas sempre teve esse forte envolvimento com a sociedade por juntar todas as classes, de A a E, daí o caráter popular do desfile das Kengas. E todo mundo se respeita. Tanto que ao longo desses 35 anos não houve nenhuma briga de violência ou preconceito. Obviamente houve briguinhas de empurra, mas nenhuma com conotação de desrespeito, intolerância.

 

E isso te surpreende, levando em conta uma sociedade que tem se mostrado cada vez mais conservadora ?

 Eu acho ótimo, isso. Vale mais a brincadeira. Quando se fala na questão do gênero, esse debate acontece no mundo todo. As pessoas querem ser o que elas são. Às vezes perguntam: “mas o desfile das Kengas é gay” ? Também. É gay, é hétero, é o que as pessoas quiserem. Porque tem gays que se vestem de mulher, tem héteros que se vestem de mulher, tem tudo.

 

Você acredita que as Kengas contribuíram para que as pessoas se aceitassem mais como elas são ?

Acho que essa coisa de aceitação é algo muito pessoal. Acho que o comportamento humano de hoje bem pior que o dos anos 80. Antigamente a gente brigava por uma abertura e de repente você vê uma questão religiosa e cada vez mais surgindo subgrupos. A visão do mundo hoje surgem desses subgrupos.

 

Mas te surpreende a aceitação das famílias ?

Mas não tem o que achar ou dizer. A vida é aquilo, cada um se respeita. Tanto faz você ser católico, evangélico, espírita… tem o respeito como a própria família. A família de hoje é totalmente diferente da família dos anos 80. E o Desfile das Kengas acompanhou isso. A partir até da aceitação da própria família. Nos anos 1960, as famílias fugiam da homossexualidade, colocavam os filhos para estudar nos grandes centros. Hoje você não sente mais isso, suas vidas profissionais acontecem.

 

O que mais lhe marcou nos 35 anos das Kengas ?

Até hoje acho que foi a festa de 15 anos porque aquilo se tornou uma festa de debutante muito engraçada. Mandamos fazer um bolo gigante, com calda para ser distribuído e tinha valsa de 18h, fogos… fizemos uma festa de debutante mesmo. O engraçado é que tinha um navio no porto cheio de gringos que apareceram todos vestidos de marinheiros e caíram na farra, dançaram valsa, parecia uma coisa combinada. Em termos visuais, os 15 anos foram completos. Teve outra passagem interessante. Uma vez, houve uma convocação ou posse de deputados na Assembleia Legislativa em que os parlamentares, de terno e gravata, passaram no meio do desfile e as Kengas pegavam neles, abraçavam… ficou muito engraçado também.

 

E o baile, como nasce ?

Você sabe que quando as pessoas se juntam para fazer qualquer produção é natural que queiram tirar a parte delas também, né ? Então foi formada uma equipe e pensamos o baile. Eu, Horto, José Antônio, Rogério Leite, Fernando Leite… e criamos o baile das Kengas, que acontecia 15 dias antes do carnaval. Na verdade entramos no modelo das prévias, mas diferentemente do povo que vai embora no carnaval a gente fica. Então nasce para profissionalizar, pagar a equipe, pagar a orquestra, dar prêmio para as Kengas…

 

Jarita e Shakira já começam como locutoras oficiais das Kengas ?

No início era bem mais formal, com um locutor mais formal. Havia brincadeira, mas formal. O professor Levi foi o locutor nos três primeiros anos, depois decidimos chamar o pessoal do teatro, pra trabalhar um texto. Jarita venceu um ano e dois anos depois vira apresentadora. Criou-se o texto da separação de bairros. Uma era alinhada, a outra labrojeira. Havia a disputa entre bairros, pensando na melhoria. Felipe Camarão, Petropólis…. quem saca percebe que por trás há essa questão social. Aí veio a Shakira e hoje elas fazem essa mistura. As duas são pobres, mas uma se acha rica e a outra sabe que é pobre.

 

E como eram os bailes no início ?

Fizemos no Centro de Turismo, uma semana depois do baile da Cidade, realizado pela banda Gália.

 

Havia alguma rivalidade entre vocês e a Banda Gália ?

Não porque a gente saía na banda Gália como Kengas. O núcleo que fundou o desfile das Kengas já desfilava na Gália.

 

E como foi o primeiro baile ?

Um estouro. Colocamos 1.500 ingressos à venda e se esgotaram muito rápido, ficou uma multidão do lado de fora, foi preciso fechar o portão. Chamamos a Tânia Alves para ser a primeira madrinha, ela fazia uma personagem que era uma kenga na novela Roque Santeiro. A madrinha local foi a Kinha Costa, uma atriz, mulher de vanguarda. Foi uma loucura, parou a cidade. Ficamos cinco anos no Centro de Turismo. Depois fizemos 10 anos no América e como o América teve problemas, mudamos.

 

Os bailes de certa forma retratam o comportamento de uma sociedade. Foi assim com o baile das Kengas também ?

O comportamento mudou muito. A questão de horário, por exemplo. Hoje as festas duram no máximo até duas horas da manhã. Antigamente as pessoas amanheciam o dia. Hoje as pessoas querem festa na matinê e eu não visualizo um baile como uma matinê. E tentamos em alguns locais: Ribeira, Pinacoteca, Vogue…. e na vogue, um espaço LGBT não funcionou. A gente pensava que desse para agregar o público que já tinha lá, com o jovem se envolvendo…. não queremos só as pessoas que estavam há 35 anos, não é um resgate de nada.

 

O domingo de carnaval está ligado diretamente ao Desfile das Kengas. O que faz uma festa virar tradição numa cidade ?

 Acho que é a permanência. Perdemos o baile porque houve uma mudança de local. As escolas de samba de Natal sempre deram certo quando aconteciam na avenida Deodoro da Fonseca. Até no Machadão já aconteceu. Foi para o Alecrim, desceu para as Rocas… imagine colocar a festa dos Santos Reis em outro local ? Tradição está ligada ao espaço. Quando eu falo de resgate, se não há permanência… a Ribeira é um bom exemplo. Não se resgata algo onde não há moradia, gente. As pessoas são muito saudosistas.

 

Qual é a bandeira das Kengas ?

O carnaval. É importante deixar claro que as Kengas são conectadas com o que acontece no mundo, mas a nossa bandeira é o carnaval.

 

Das polêmicas o Desfile das Kengas, a que mais repercutiu foi uma declaração da Baby do Brasil em 2015 dizendo que o homem foi feito para a mulher na hora de entregar o prêmio à kenga vencedora. Qual foi dimensão daquela declaração para vocês ?

Aquilo foi uma questão pessoal dela. O filho da Baby me disse que era a terceira vez que ela dava aqueles chiliques. Para as Kengas aquilo foi ótimo porque teve uma repercussão nacional naqueles sites de fofoca.

 

Alguma outra saia-justa ?

Houve um ano em que uma mulher ganhou o desfile das Kengas. A plateia veio abaixo, não queria porque ia quebrar a tradição. Tive que intervir para dizer que aqui a gente não tem sexo, tem pessoas que brincam o carnaval. Aí também a importância do tema deste ano ser Transforme-se.

 

Uma mulher vencer o desfile das Kengas é semelhante a um homem magro ganhar o título de Rei Momo ?

Acho que é a mesma coisa. Não pode ? Claro que pode. Se no regulamento não há impedimento, então pode. Para ser Kenga você não precisa ser homem nem mulher, só basta ser gente.

 

O que você ainda espera com o desfile das Kengas ?

Eu queria a junção do Centro Histórico com o restante da cidade. Acho importante essa coisa dos polos, mas para a prefeitura é Petrópolis e Ponta Negra, quando acho que o ideal seria o Centro Histórico, Petrópolis e Redinha. O Centro é como as Kengas, é de todo mundo e não é de ninguém.

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Sobre o Autor

Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"