OPINIÃO

A fraternidade

A lição mais difícil que aprendi quando me lancei na aventura auspiciosa de saber mais sobre o feminismo foi a seguinte: homens não devem tentar dar aula de feminismo. Nunca. E muito embora saiba que nós homens adoramos nos amostrar, e que não vemos problema algum em roubar ideias uns dos outros para nos beneficiar, essa mania feia é bem nociva às mulheres.

É simples de entender, mas complicadíssimo de colocar em prática: nós homens sempre fomos estimulados a tomar a dianteira e assumir o discurso, e o efeito dessa mania de querer aparecer é devastador: mesmo que seja sem querer, e na maioria das vezes não é, a gente se apropria do discurso das mulheres, ofusca a participação delas no debate e rouba o mérito sem cerimônia. Todos os dias. Todos nós.

A primeira lição, portanto, é essa: saber se colocar no próprio lugar. Uma coisa tão simples de fazer (respeitar a fala do outro, sem interromper, sem tomar o discurso pra si, sem tentar brilhar mais que quem realmente entende do assunto) foi uma das tarefas mais árduas que já tentei empreender. Foi quando percebi: nossa, eu sou machista! E muito!

Fui criado numa família com estrutura matriarcal. Minha vó, minha mãe, minhas irmãs — elas sempre ditaram os rumos da família, elas sempre tomaram as decisões mais importantes, elas sempre dominaram. Os homens da família eram como espectadores deslumbrados diante de um espetáculo meticulosamente executado — muito em parte pelo comodismo de ter quem execute o que não queremos executar. Um balé intermitente de assembleias que discutiam o que era certo e errado na família. Sempre achei incrível. Sempre preferi que fosse assim. Sempre achei que era melhor que tudo fosse feito do jeito que elas queriam. Por isso sempre pensei que não era machista. Ledo engano.

O machismo é uma das estruturas de dominação mais sofisticadas e perniciosas que a Humanidade já conseguiu conceber. Só pra dar um exemplo, a própria palavra “Humanidade”, que serve para designar todo o conjunto de seres pertencentes a essa espécie, é uma das centenas de corruptelas da palavra “homem” — sem constrangimento algum, como se fosse algo absolutamente natural, nós excluímos as mulheres da Humanidade.

E não é muito diferente em outras línguas. Só pra citar as mais conhecidas: “menschheit” em alemão, “humanidad” em espanhol, “humanité” em francês, “umanità” em italiano. Muito embora já exista o neologismo “womankind”, muito usado por ativistas feministas, em inglês prevalece o “mankind”. Nem o latim escapou com seu “hominis”. E o esperanto, a língua artificial mais falada do mundo, chamou a Humanidade de “homaro” — não por acaso, o esperanto foi criado pelo Ludwik Lejzer Zamenhof. Um homem.

Lutar contra o machismo é uma construção, ainda que falem muito mais em desconstrução. Prefiro construir esse novo eu. Lentamente, com a paciência que sempre tive comigo, vou podando aparas invisíveis aos meus olhos treinados a enxergar apenas meu próprio umbigo. É uma tarefa hercúlea — e aqui estou eu usando uma palavra que deriva diretamente do ideal de macho viril dominador europeu. É complicado.

A estrutura do machismo é tão bem elaborada que nem precisa ser ensinada. É diferente do momento em que as mulheres estão. Enquanto teses, palestras, seminários, plenárias e textões queimam calhamaços de latim para explicar a elas o caro e imprescindível conceito de sororidade, nós homens já nascemos dentro do clubinho em que um apoia o outro independente do assunto. É a fraternidade, conceito no qual todos nós homens estamos tão inseridos que sequer notamos sua existência.

(A tal fraternidade virou até valor cristão, vejam vocês! Quem é mesmo que decide essas coisas da Igreja Católica, hein? Ah, sim, homens. Faz sentido.)

Quem nunca viu o amigo fazendo bobagem e ficou caladinho porque, né, poxa, somos amigos, devemos nos apoiar? Quem nunca mentiu por um camarada, ou escondeu segredos de um colega, ou amenizou uma situação só porque o vilão era do sexo masculino? A gente tá tão acostumado aos benefícios da fraternidade que tem até medo de enfrentá-la. Mesmo apoiando a causa feminista, e vibrando com cada vitória das mulheres, poucas vezes eu repreendi um amigo diante de um comentário machista. Somos imperfeitos, nós homens, e precisamos admitir. É o primeiro passo para a cura.

Por meio da sororidade, as mulheres vão descobrindo que são fortes — e isso é ótimo para todo mundo. A humanidade (na falta de uma palavra mais abrangente) como um todo se torna melhor quando uma importante camada desse arranjo social se descobre potente, invencível, realizadora.

Tudo que nós homens precisamos fazer é apoiar. Só isso. A gente não precisa sair bem na fita bancando o desconstruído, a gente não precisa sair por aí implorando por elogio, a gente não precisa tomar pra si o discurso que por séculos foi roubado delas. A gente não precisa fazer textão explicando como o feminismo é importante a fim de ganhar alguns likes e cultivar a imagem de homem à frente do seu tempo.

Mas eu fiz.

Porque sou homem. E se livrar desse machismo que se comporta como algo genético, mas é apenas construção social é uma das tarefas mais complicadas, edificantes e reveladoras que já empreendi.

Desculpem pelo texto, mulheres. E por tudo mais.

Artigo anteriorPróximo artigo
Patrício Júnior
Patrício Jr. é escritor, publicitário e jornalista. Escreve às quartas-feiras.

1 Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: