OPINIÃO

A política do escândalo

O filho do ex-presidente Lula é o dono da Friboi. Dona Marisa está viva, aguardando o marido fugir da prisão e se juntar a ela na Venezuela. Obama é o líder do estado islâmico e, de quebra, já foi comprovado que sua esposa, Michele, é um homem. A terra é plana e como todo mundo sabe, o Nazismo é de esquerda. É difícil imaginar que alguém que tenha o mínimo entendimento de mundo seja capaz de acreditar nesse tipo de bobagem que circula diariamente pela internet. Mesmo assim, temos de admitir: muita gente acredita, ou finge acreditar (o que é muito pior).

O que movimenta a circulação de notícias falsas e teses absurdas na rede é o potencial de escândalo que elas trazem. Como toda armadilha, como toda cilada que se preze, o escândalo acaba se tornando a isca para capturar o discurso público. Por isso não é difícil entender que um sujeito que não consegue apresentar uma proposta viável para o futuro do país (como o deputado Jair Bolsonaro) possa monopolizar as redes sociais com suas declarações absurdas: é a política do escândalo fazendo seu estrago no horizonte da eleição.

Na verdade, a política eleitoral não é um espaço para racionalidades. São os afetos, os desejos, as vontades, que determinam, na maioria das vezes, o discurso público. Mesmo que de forma inconsciente, o eleitor contemporâneo ainda segue a máxima de Tertuliano, teólogo cristão do século III que dizia: “creio, porque é absurdo”.

De fato, para a grande maioria do eleitorado a adesão ou a rejeição a um determinado candidato não se dá após uma demorada reflexão argumentativa acerca de conteúdos e propostas ou de uma apuração criteriosa dos fatos. As pulsões que moram dentro das caixinhas interiores de cada um, com suas neuras particulares, é que ditam a nossa fé no absurdo que queremos acreditar. Não importa quantos elementos possam ser postos diante de nós, ou quantas inconsistências argumentativas podem ser levantadas para nos convencer do contrário, aderimos porque acreditamos e acreditamos porque queremos acreditar.

É por isso que no campo das redes sociais não existe diálogo.

O diálogo implica uma suspensão provisória de nossa verdade particular. Exige um esforço erótico de linguagem que faz a minha verdade congelar por um momento, para que ela possa ser invadida pela verdade do outro. Dialogar implica em exercitar um tipo amoroso de abertura e transformação que só funciona em condições controladas de temperatura e pressão política e em um espaço onde a presença do outro carregue seu discurso.

Ora, se nem entre amantes, parentes ou amigos, o diálogo é uma moeda corrente, imagine para um cidadão acossado por fantasmas virtuais com um smart fone na mão passando o dia inteiro em uma bolha digital discutindo com robôs.

No calor louco da luta das time lines, na urgência dos desejos, na folia irracional da nossa retórica de redes sociais temos apenas a discussão e o “debate”. Formas de exercício do poder onde o objetivo é “fazer o outro dar o braço a torcer”, calar a boca do outro, tirar seus argumentos, agradar a plateia e fazer com que a audiência compre meu discurso me pagando o preço da minha performance com curtidas e comentários favoráveis.

A máxima fundamental do debate público atual subverte, sem nenhum pudor os ensinamentos de Voltaire. Hoje a regra geral é: “discordo absolutamente de você e não respeito de maneira nenhuma sua opinião, mas infelizmente a lei me impede de partir a sua cabeça com um tijolo”.

É por isso que faz muito pouco sentido perder tempo tentando convencer nossos interlocutores nas redes sociais e é melhor se render mesmo a brasileiríssima arte de vencer uma discussão argumentando com memes do que tentar mudar a opinião consolidada de alguém com a força da razão (Vou confessar a você, amigo velho que, para um professor de filosofia, escrever isso é quase como dar entrada no pedido de aposentadoria no INSS).

Como em uma grande maré de dejetos digitais, quando uma tempestade de bosta desaba sobre o horizonte do discurso político, contaminando qualquer possibilidade de discursão racional, a política do escândalo torna evidente o grande escândalo da política contemporânea: Não temos a mínima ideia para onde estamos indo, nem como vamos fazer para chegar lá, mas seguimos mesmo assim.

Apesar de tudo, para não terminar esse texto com um gosto de sabão na boca e manter alguma esperança, é bom lembrar que ainda há possibilidade de saltar fora das bolhas digitais e reocupar o espaço público. Mesmo que para isso tenhamos que voltar para o reino do tempo e do espaço; o misterioso e selvagem… mundo analógico.

Nas praças, nas ruas, esquinas, bares, teatros, auditórios e salas de aula, a reconquista do espaço público passa pelo abandando das ilusões digitais. Fugir da bolha e voltar a olhar as pessoas nos olhos talvez seja a grande tarefa política que a geração que nasceu dentro da Internet enfrentará. O sucesso ou fracasso dessa empreitada vai definir se a política do escândalo se consolidará ou não como o grande escândalo da política no século XXI.

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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