OPINIÃO

Aclamação

No sábado passado, dia 16 de junho, numa festa bem bonita no Bar de Nazaré, foi “aclamada” a chapa “Medusas” para uma nova gestão da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências, a SAMBA.

Muita gente que mora em Natal desconhece totalmente a existência do Beco da Lama, que dirá a Samba. Criada em 1994 como esforço de um grupo de amig@s para dar visibilidade e viabilidade à existência daquela importante região do Centro Histórico, a pergunta que não quer calar é: conseguirá a Samba renovar-se realmente e manter-se viva, já que a última gestão (também “aclamada”, isto é, posta em vigor sem eleição direta dos “associad@s”) efetivamente pouco fez além de alugar aparelhagem de som para eventos diversos ?

Certamente, as meninas encabeçadas por Maria Gorette sabem o quanto há por se fazer. A primeira coisa diz respeito à regularização da documentação. Eu, de minha parte, sempre achei estranha a tentativa de “burocratizar a boemia”, acho que se alguém deseja fazer algo, vai lá e faz, sem necessariamente esperar o aval de instância alguma. Mas é claro que reconheço que a existência formal de um órgão com CNPJ facilita muito algumas realizações, como por exemplo a concorrência em editais públicos para projetos que revitalizem o Beco e adjacências.

Mas enquanto a regularização não acontece, penso que algumas medidas já poderiam ser tomadas. Não sou associada (penso como Groucho Marx: “não entro para clube que me aceita como sócio”), mas o Beco da Lama ocupa um cantinho especial na geografia dos meus afetos e por isso me permito a dar meus pitacos.

Uma medida bem simples, por exemplo, seria a de realizar um abaixo-assinado com trabalhadores, moradores e frequentadores do lugar exigindo a instalação de lixeiras, à maneira do que foi feito em Ponta Negra. Eu fico abismada como não se encontra uma única caixa coletora sequer por ali. Junto a isso, uma pequena campanha de conscientização de limpeza também caberia bem, já que é impressionante a quantidade de flagrantes de pessoas (independente do grau de escolaridade) jogando lixo na rua.

É o mínimo a se fazer, já que as sucessivas e diferentes (?!) gestões da Prefeitura continuam burramente indiferentes ao potencial econômico e cultural do Beco da Lama, num desrespeito tacanho e total à memória histórica daquele ponto da cidade. E, nesse sentido, uma segunda medida que creio importante seria a criação de um Memorial. As múltiplas estórias e histórias envolvendo personas e paisagens “becodalamenses” se reduzem à oralidade de alguns (ou registros de fotos no Instagram e no Facebook) e correm o risco de perder-se, já que nunca houve o esforço sério de criação de um equipamento físico em que estivessem reunidas todas essas “lembranças” (por meio de fotografias, crônicas, pinturas, objetos diversos etc.) valorizando o tempo passado e o tempo presente do lugar tanto para habitués quanto para possíveis turistas e visitantes. O memorial também seria uma ponte para mostrar e valorizar a produção dos inúmeros artistas que por ali transitam (pintores, desenhistas, poetas, escritores, fotógrafos, músicos, artesãos etc.).

Uma terceira e última medida que julgo importante seria a de dar fim a esse exclusivismo que o “Livro Sagrado da Samba” impõe. Além do anacronismo (tem gente que assinou esse livro quando da criação da Samba e que nem frequenta mais o lugar), acho que há uma espécie de seletividade de uns e exclusão de outros. Penso que, independentemente das assinaturas, medidas mais importantes poderiam ser tomadas por meio de assembleias gerais, amplas e irrestritas, em que tod@s presentes pudessem ter voz ativa e participar coletiva e democraticamente das decisões.

Enfim, existem mil maneiras de se preparar uma outra Samba, mais ativa, dinâmica e democrática: reativação de eventos já realizados (Prato do Mundo, MPBeco etc.), criação de uma publicação periódica informativa e literária (um jornal, uma revista, um zine, um blog, o que for). E tantas outras possibilidades.

Boto fé na nova gestão. Não porque seja composta somente por mulheres (sem sexismos, minha gente!), mas porque, como diria o poeta Belchior, “o novo sempre vem”. Tenhamos esperança e não deixemos a Samba morrer!

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1 Comment

  1. Muito bem pensada as sugestões trazidas na opinião de Cellina Muniz, pois daria mais visibilidade ao centro cultural que está cada vez mais decadente, em função do esquecimento pelo Poder Público do Beco da Lama e Adjacências. Seus pitacos são por demais necessários e atuais. Espero que a nova administração da SAMBA apoie as sugestões e as coloque em prática, urgentemente!

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