CAPA, CULTURA

Audiovisual potiguar deixa Natal de BOCA aberta

O espaço físico já não existe, alguns nomes mudaram, mas a semente plantada há quatro anos segue germinando. O coletivo A.Bo.Ca Espaços de Teatro, projeto que nasceu da reunião de três grupos de teatro de Natal em 2014 e tinha sede no casarão nº 16 da rua Frei Miguelinho, na Ribeira, se adaptou aos novos tempos, mergulhou na cena audiovisual e passa a funcionar como uma produtora de filmes.

O novo núcleo executivo formado por Arlindo Bezerra, Rodrigo Sena, Wallace Yuri e Manoel Batista conta com vários colaboradores e já vem adiantando a burocracia para regularizar a empresa. A expectativa é de que em três meses sejam apresentados ao público os primeiros filmes (dois documentos e uma ficção) de curta-metragem produzidos já com o selo BOCA Audiovisual de qualidade.

O novo formato da BOCA é mais uma demonstração de força e resistência do segmento audiovisual na capital potiguar. Com apoio mínimo e sazonal do poder público local, a produção vem sendo custeada pelos próprios realizadores ou por meio de editais e prêmios conquistados fora do Estado.

Uma das estratégias adotadas pelo segmento foi justamente se unir em coletivos ou produtoras. Utilizando equipamentos próprios e firmando parcerias com produtoras de pequeno e médio porte, o Rio Grande do Norte vem exportando filmes de curta e média metragem.

Ainda assim, o ator, produtor e um dos idealizadores da BOCA Audiovisual Arlindo Bezerra explica que a pretensão não é ser um coletivo fechado, mas um meio de produção de fato:

– Não queremos ser um coletivo. Somos um grupo executivo com vários colaboradores. Queremos receber propostas e viabilizar projetos.

Ele explica que mesmo após o fechamento do espaço físico em abril, algumas iniciativas relacionadas a teatro, música e cinema continuaram acontecendo. Mas foi a partir da edição 2018 do Goiamum #Drops, ação do festival Goiamum Audiovisual, que o grupo decidiu oficializar a retomada focando numa área específica, através da BOCA.

– Deixou de existir o físico, mas continuamos existindo através de ações. A gente vinha desenvolvendo coisas ligadas às artes cênicas, à música, mas nosso foco já estava mesmo no audiovisual.

Após vencer a burocracia e abrir a BOCA Audiovisual, o grupo vai atrás de uma sede para reuniões e elaboração de projetos. Bezerra avisa ainda que em breve será divulgada uma chamada aberta para receber novos roteiros e projetos.

– Estamos formalizando a parte jurídica, processual, contábil. Temos buscado outras produtoras para fazer parcerias de co-produção, viabilizar editais específicos e algo que está sendo estudado, a depender da especificidade do edital.

Giovanna Araújo e Ênio Andrade são atores do teatro que abraçaram o audiovisual

Para Arlindo Bezerra, de certa forma a BOCA Audiovisual consolida o crescimento do mercado desse segmento na cidade para profissionais oriundos do teatro. A janela aberta fora do Rio Grande do Norte por produções na televisão, especialmente na Rede Globo, também tem relação com esse momento.

– É a consolidação que o audiovisual vem tendo e também mais espaço de exploração do nosso território. É mais um campo a ser desbravado. O audiovisual passou por um período tímido. E como há um crescimento de produções para o gênero ficção, houve essa abertura para as artes cênicas. Vivenciamos hoje esse processo de acolhimento, também pelo mercado televisivo. Como em política pública não crescemos quase nada, mas como visão geral de mercado (o audiovisual) tem crescido muito.

A própria carreira profissional de Arlindo mostra a expansão do audiovisual nos últimos anos:

– Hoje 20% dos projetos que participo é ligado ao teatro e 80% relacionado ao audiovisual.

Várias bocas

Até chegar ao novo modelo focado em audiovisual, a BOCA foi o espaço de ensaios e apresentação de espetáculos de grupos de teatro da capital, como Atores à Deriva, Bololô e Carmim. Com a saída do Carmim, o grupo Sociedade T abraçou o projeto. Com dificuldades para manter o espaço, a BOCA organizou um financiamento coletivo e conseguiu manter a sede por um ano. A crise econômica, no entanto, impediu a sequência da casa. Em que pese o teatro ter sido o carro-chefe da BOCA, o coletivo que administrava o espaço promoveu diversas ações voltadas para a música, artes cênicas, audiovisuais e pautou debates importantes ligados à comunidade LGBT, feminismo e descriminalização das drogas.

Primeiras produção serão lançadas em 3 meses

As três primeiras produções da BOCA audiovisual já estão a caminho. São dois documentários e um curta-metragem de ficção. O documentário Katu: a Tradicional Família Brasileira, selecionado pelo edital CineNatal, já foi rodado.

Calixto Passou Por Aqui (doc) e BOYCAM (fic) estão em fase de finalização.

Katu é a principal aposta da BOCA pela dimensão e viabilidade do projeto:

– Os trabalhos foram desenvolvidos de forma independente. Mas Katu ganhou uma dimensão maior e há a expectativa de que podemos investir num longa ou numa série. A perspectiva é que consigamos vender mesmo esses trabalhos.

Saiba Mais sobre os primeiros filmes de curta-metragem da BOCA Audiovisual:

KATU – A Família Tradicional Brasileira (DOC)

Direção e roteiro: Rodrigo Sena

Sinopse: Em 2007, os adolescentes do Katu, comunidade localizada no Rio Grande do Norte, foram entrevistados por um jornal local e realizaram uma pesquisa sobre as doenças indígenas de sua comunidade para uma reportagem especial sobre o Dia do Índio. Doze anos depois, uma equipe de documentaristas volta ao exercício em busca de protagonistas, de hoje em diante, para conhecer suas vidas pessoais, abordar seu cotidiano e visões de mundo. O ensaio fotográfico de Rodrigo Sena serve de dispositivo para revisitar essas personagens, para saber mais sobre sua identidade indígena 12 anos depois.

Calixto Passou por Aqui (DOC)

Direção e Roteiro: Wallace Yuri e Rodrigo Sena

Sinopse: Calixto é um filme de personagem com grande dimensão, apesar de ser um documento verídico e realista. A fascinante “Pousada de Deus” e o seu proprietário, Antônio Calixto, compõem o universo de um filme trágico que supera a ficção.

BOYCAM (FIC)

Direção: Arlindo Bezerra, Ernani Silveira e Rodrigo Sena

Sinopse: Boycam é Alexandre, 30 anos, profissional do sexo virtual, pai de Ana Laura, 7 anos. No filme existe um forte ligação fraterna e respeitosa entre Alexandre e Ana Laura. Em um canto do quarto há uma tela de computador, uma câmera e uma tela traseira, luzes. As pessoas podem ver BOYCAM online em tempo real, em um site adulto. Mas que se flexiona ao mesmo tempo que se usa uma sessão privada via webcam.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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