CAPA, CULTURA

Boi de Prata: Seridó foi palco da primeira revolução popular no cinema nordestino

A primeira vez que o Seridó foi ao cinema, a revolução popular finalmente aconteceu no Nordeste brasileiro. Ao contrário das produções realizadas até então, especialmente na primeira fase do Cinema Novo, foi no chão de terra batida do sertão seridoense a primeira vez em que o oprimido mata o opressor e vence a batalha maniqueísta do capitalismo.

Esse é apenas um dos fatos históricos que marcam o longa-metragem Boi de Prata (1978), do caicoense Carlos Augusto Ribeiro Júnior, produção cinematográfica que entrou para a galeria dos filmes cult do cinema nacional.

A representação da região do Seridó no cinema com suas nuances foi tema da dissertação de mestrado da historiadora Flávia Assaf. O trabalho deu origem ao livro Boi de Prata: a estreia do sertão do Seridó no cinema terceiro-mundista brasileiro.

O lançamento do livro ocorre neste domingo (10), a partir das 16h30, logo após bate-papo sobre o filme com a autora Flávia Assaf e o cineasta Augusto Lula, dentro da programação do festival Goiamum Audiovisual. O evento conta ainda com a exibição do documentário Devorando o Boi de Prata, de Márcia Losh, Jean Johan e Raquel Dié, além da exibição do longa em sessão especial, às 18h30.

Na dissertação, a historiadora destaca a representação espacial do Seridó a partir do filme:

– Como você modifica o espaço pela agricultura, modifica pela cultura também. “Bahia, terra da alegria”, “Nordeste, terra de cabra macho”, percebe ? São concepções que derivam de disputas. O filme é uma representação espacial do Seridó. O filme fala sobre duas lutas. Do índio contra o colonizador branco, e a luta do povo colonizado contra o colonizador. A disputa de poder está na base dessa espacialização: Sertão/Seridó, Nordeste/Brasil. A paisagem geralmente trabalha para os poderosos, mas aqui ela trabalha para a comunidade.

A historiadora explica que o ativista de Martinica Frantz Omar Fanon teve uma importância fundamental para o cinema novo e consequentemente para o cinema de Ribeiro Júnior. Segundo Assaf, é Fanon quem acentua o debate da descolonização no país ao tratar da luta contra a dominação colonial imposta aos países subdesenvolvidos sob a forma da exploração econômica e da aniquilação dos modos de vida tradicionais.

O livro “Os Condenados da Terra” teve ampla repercussão no meio intelectual brasileiro, com efeitos na obra cinematográfica de Glauber Rocha e também nos escritos do pedagogo Paulo Freire.

– Para Fanon, a alienação era a impossibilidade do homem colonizado de atuar como sujeito da própria história. E não bastava para o colonizado mudar sua visão de mundo para deixar de ser alienado, era preciso mudar o mundo. A luta pela descolonização e pela desalienação do ser colonizado o aproximava do ideário dos intelectuais do ISEB e dos movimentos culturais que nasceram em decorrência das elaborações intelectuais isebianas.

 

 

Um dos nomes da segunda geração do cinema novo, Augusto Ribeiro Júnior também bebe na fonte de Fanon quando cria a história de uma sociedade tradicional que está prestes a ter seu modo de vida totalmente alterado pela introdução da atividade extrativista mineradora que somente atenderia aos interesses do representante dos países ricos.

Para chegar ao seu objetivo, Elói, representante do país colonizador, não hesitará em usar a força. A luta desigual entre o pequeno proprietário e o rico empresário ocorre sem que haja nenhum tipo de intervenção do Estado e nem de suas instituições, mostrando que o explorado no sistema colonial está sujeito à máquina do colonialismo e somente o enfrentamento poderá barrá-lo.

Flávia Assaf destaca a questão maniqueísta presente em Boi de Prata e ressalta que foi a primeira vez que num filme retratando o Nordeste brasileiro o colonizado derrota seu opressor.

– Queria entender de onde vinha aquele final em que o sertanejo vence, e me bati com o Fanon. No filme, a questão maniqueísta é clara, há a divisão entre os bons e os maus. Os brancos são os proprietários de terra e a turma de não brancos, que inclui o índio, o negro, o caboclo, os ciganos, são todos os párias da sociedade. Uns bebem uísque e cheiram pó, e outros tomam vinho da jurema para transcender. O filme também expõe a violência do colonizador com o colonizado. E é a primeira vez que a imagem da revolução foi feita quando se trata do Nordeste. Do ciclo do cinema novo, é a primeira vez que a imagem da revolução é plasmada.

Flávia Assaf cita filmes como Os Fuzis (Ruy Guerra), O Pagador de Promessas (Dias Gomes) e até O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha, como exemplos de produções onde o oprimido era sempre derrotado.

– São vários filmes que o povo não ganha. Em Boi de Prata o cara mata e sai feliz e contente pela estrada. E é uma revolução que não avança, é uma revolução feita para que tudo permaneça como está, uma revolução da permanência.

 

Boi de Prata: marco da regionalização do cinema nacional

Boi de Prata também representa um marco para a política de regionalização da produção cinematográfica brasileira. Ao lado de “O Bandido Antônio Dó”, de Paulo Leite Soares (MG), o longa-metragem potiguar é da primeira leva de filmes financiados pela empresa Embrafilmes fora do eixo Rio/São Paulo.

A pesquisadora relaciona o fato com a mudança de concepção da Embrafilmes, quando a empresa passa a ser dirigida pelos cineastas Roberto Farias e Nelson Pereira dos Santos. A dupla viaja para os Estados a fim de convencer os governadores a bancar a contrapartida dos filmes, soma equivalente a um terço do custo das produções.

No Rio Grande do Norte, a negociação feita com o secretario de Educação e Cultura João Faustino, na gestão do governador Tarcísio Maia. A ideia inicial, no entanto, era filmar a história de João Farrapo, que o diretor de teatro Meira Pires havia levado para transformado em espetáculo anos antes.

Nelson Pereira dos Santos chegou a adaptar o roteiro, mas entregou para seu assistente de direção, o jovem cineasta Carlos Augusto Ribeiro Júnior, que também abriu mão do trabalho para se dedicar a um projeto pessoal: Boi de Prata.

No contrato entre os governos federal e estadual, João Farrapo e Boi de Prata receberiam financiamento, mas apenas Ribeiro Júnior, que era do ramo, conseguiu viabilizar seu projeto.

– Quando os militares criam a Embrafilmes, queriam uma empresa que pensassem uma forma de distribuir as produções fora do país, mas a categoria queria uma empresa que investisse nas produções. Quando o Roberto Farias e o Nelson Pereira dos Santos assumem a Embrafilmes, a questão central é a regionalização da produção. Era um ponto de honra. E os dois começam a visitar os estados pessoalmente. O Augusto Ribeiro Júnior usou o mecanismo para o filme do Meira Pires, que era um diretor de teatro conhecido mas não era do cinema, e colocou o Boi de Prata também. Nelson Pereira era influente na Embrafilme, o avô do Augusto era proprietário de terra em Caicó.

A importância histórica de Boi de Prata vai além dos limites do Rio Grande do Norte, mas também representa um marco para o Estado. Aliás, Flávia Assaf põe fim a uma polêmica sobre a primeira produção genuinamente potiguar de filmes de longa-metragem.

Seis anos antes de Ribeiro Júnior dar vida ao Boi de Prata, outro potiguar usou o espaço geográfico do Rio Grande do Norte para filmar a história do cangaceiro Jesuíno Brilhante. No entanto, o diretor Willian Cobbett, natural de Carnaúba dos Dantas, trouxe toda a produção e elenco de fora. Por isso, a defesa de que Boi de Prata é de fato a primeira produção potiguar:

– Boi de Prata é o pontapé inicial da produção audiovisual no Estado, com elenco e produção aqui do Rio Grande do Norte. O Carlos Augusto Ribeiro Júnior foi buscar Mirabô para fazer a trilha sonoro, Lenício Queiroga, Amaro Lima, Núbia, trouxe dois atores da Bahia e a única pessoa de fora do Nordeste foi a Luiza Maranhão, musa do cinema novo, mas que faz só uma ponta. Jesuíno Brilhante não é uma produção local, Boi de Prata sim.

 

Augusto Ribeiro Júnior

O diretor Carlos Augusto Ribeiro Júnior nasceu em Caicó (RN) e mudou-se na adolescência para a Brasília, quando o pai foi transferido para o Banco do Brasil na recém-inaugurada capital federal. Lá, estou cinema na Universidade de Brasília (UnB), onde foi aluno de grandes cineastas, a exemplo de Nelson Pereira dos Santos, Vladmir Carvalho, Paulo Emílio, entre outros. Ribeiro Júnior é da segunda geração do movimento Cinema Novo. Boi de Prata foi o primeiro e único filme do cineasta, que morreu no período em que filmava “O Quinze”, clássico da escritora cearense Rachel de Queiroz.

 

 

Artigo anteriorPróximo artigo
Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: