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Carlos Eduardo Alves e o abraço no vazio

Quando entrevistei Carlos Eduardo Alves (PDT) em 28 de março, durante um café da manhã promovido pela STTU no restaurante Mangai, o então prefeito de Natal ainda fazia suspense sobre o desejo de governar o Rio Grande do Norte. No entanto, pela primeira vez, admitiu que disputaria o posto e foi categórico ao afirmar que a aliança dele visando a sucessão de Robinson Faria seria com a “direita”.

Embora, a partir dos anos 2000, Carlos Eduardo tivesse conquistado o apoio crítico do PT pelo menos até o 2º turno de 2012, muito em razão do Partido dos Trabalhadores ter priorizado as alianças que dariam sustentação à chegada de Lula à presidência da República, a notícia da “aliança com a direita” não chegou a causar tanta surpresa assim por conta do histórico político do candidato.

Carlos Eduardo nasceu no PMDB da família Alves, foi deputado estadual, secretário de Estado no governo Garibaldi Alves nos anos 1990 e aderiu ao PSB de Wilma quando foi conveniente assumir uma carreira-solo longe da oligarquia que o projetou para a política. A partir daí começou uma luta consciente e em vão para se afastar do DNA da família ao ponto de apagar o sobrenome da assinatura do próprio registro político.

Menos de uma década depois, Carlos Eduardo trocou o PSB pelo PDT quando o poder de Wilma no Partido já estava em franca decadência e voltou para os braços da família em 2014, ao apoiar o primo Henrique Alves para o Governo do Estado contra Robinson Faria, mesmo que dois anos antes o próprio Henrique e o primo Garibaldi estivessem no palanque de Hermano Moraes, adversário de Alves no 2º turno de 2012, na eleição municipal.

Nesse mesmo ano, antes do pleito, escrevi um perfil de Carlos Eduardo para a finada revista Palumbo. A entrevista foi no restaurante Camarões, escolhido pelo então candidato à sucessão de Micarla de Sousa, ex-vice do próprio Alves. À certa altura, perguntei onde o candidato que já havia administrado Natal por dois mandatos queria chegar. Ele respondeu com uma pergunta retórica:

– Qual político não deseja governar seu Estado ?

Dois anos antes, em 2010, Carlos Eduardo Alves saía de uma primeira tentativa frustrada para o Executivo estadual. Wilma de Faria deixara o Governo em março para tentar o Senado e decidiu apoiar o vice Iberê Ferreira de Souza para sua sucessão. Na oposição, vinha pedindo passagem a senadora conservadora Rosalba Ciarlini (DEM), naquele tempo ainda bastante popular em Mossoró, cidade que administra atualmente.

Sem palanque na situação, na oposição e conhecido apenas em Natal, Carlos Eduardo tentou construir uma terceira via. Sem dinheiro e desconhecido, sucumbiu numa melancólica 3º posição, bem distante de Rosalba, que venceu a parada no 1º turno.

Oito anos depois, Carlos Eduardo Alves chega ao 2º turno da disputa para o Governo como o último representante alquebrado de uma família em frangalhos.

Henrique Alves, o primo que coordena a campanha dele nos bastidores, passou 10 meses preso, está sob a condição de liberdade vigiada, já foi condenado e ainda responde a mais 6 inquéritos pelos crimes de corrupção ativa, passiva, lavagem de dinheiro, tráfico de influência, entre outras ilegalidades.

Garibaldi Alves, soldado de Michel Temer durante o governo mais impopular da história da República, levou uma surra de votos e terminou atrás até de Geraldo Melo, que estava em casa, quase aposentado, até que resolveram incluir o nome dele numa pesquisa eleitoral para o Governo do Estado e apareceu à frente do governador Robinson Faria.

O único suspiro da família foi Walter Alves, reeleito deputado federal, mas com uma votação menor do que a que conquistou em 2014.

No 1º turno, para interiorizar seu nome, Carlos Eduardo se agarrou em três muletas quebradas. Além de Garibaldi Alves, José Agripino Maia (DEM) foi impiedosamente derrotado pelas urnas mesmo depois de trocar o Senado pela Câmara Federal. A tentativa de atrair o eleitor evangélico com a chegada de Antônio Jácome na chapa também se mostrou frustrada tanto para Alves como para o próprio Jácome, tragado no redemoinho da chapa das oligarquias.

Ciente da rejeição das famílias tradicionais pelo eleitorado potiguar, Carlos Eduardo Alves enxerga um único bote no mar revolto do 2º turno: o candidato da extrema-direita, favorável à tortura, disseminador do ódio e do fascismo Jair Bolsonaro (PSL).

Ainda que o ex-prefeito de Natal tenha declarado que faria aliança com a “direita”, não deixa de causar surpresa, a não ser novamente pela sobrevivência e conveniência política, uma guinada à extrema-direita de um candidato que, mal ou bem, sempre se posicionou e defendeu as instituições democráticas.

É fato que Carlos Eduardo nunca, jamais e em tempo algum foi um candidato identificado com esquerda. Longe da ousadia, esteve à frente de gestões conservadoras e protocolares. Alves namorou o centro quando o centro foi útil. Um oportunismo que está presente no próprio registro de identidade do candidato.

Ao batizar o filho de Carlos Eduardo, o jornalista e ex-prefeito de Natal e de Parnamirim Agnelo Alves homenageou dois políticos da primeira metade de século 20.

O Carlos vem do jornalista e ex-governador do Estado da Guanabara Carlos Lacerda, que passou à história como um orador brilhante, ex- comunista, golpista e que mais tarde seria traído, cassado e preso pelos mesmos militares que apoiou no golpe de 1964.

Já o Eduardo vem do brigadeiro Eduardo Gomes, da conservadora UDN, derrotado em duas eleições para presidência da República: a primeira para Eurico Gaspar Dutra (1945) e a segunda para Getúlio Vargas (1950).

No perfil de Carlos Eduardo publicado pela revista Palumbo em 2012, pergunto a ele sobre alguma lembrança antiga do pai, Agnelo Alves.

O então candidato à prefeito citou um reencontro emocionante que ambos tiveram quando Agnelo deixou a cadeia, em 1969.

Nas lembranças do passado, Carlos Eduardo disse que recebera o pai em casa com um abraço forte. Não teve foto, imagem, só o registro da mãe.

Agnelo havia sido preso pelos militares acusado de “plantar” duas notas de rodapé no jornal Tribuna do Norte contra o governo militar.

Não bastou a censura. Agnelo Alves teve os direitos políticos cassados quatro anos antes, quando era prefeito de Natal, e foi preso no episódio das notas publicadas no jornal.

É com esse passado que Carlos Eduardo Alves fará aliança agora, caso oficialize o apoio ao candidato da extrema-direita.

Jair Bolsonaro é a sensação de vazio se aquele abraço nunca tivesse acontecido.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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