OPINIÃO

Como nomear ? Eis a questão

Na semana passada, esteve presente em Natal um dos grandes estudiosos do livro e da leitura de quem sou fã, o historiador francês Roger Chartier. Frustrada por não poder ouvir sua palestra, viabilizada pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN, fui lamber minha dor revendo alguns de seus livros de que disponho e eis que, ao me deter na coletânea “Os desafios da escrita” (UNESP, 2002, tradução de Fulvia Moretto), caí novamente naquelas reflexões que me instigam já há tempos acerca de editorias, autorias, modalidades e modos de produção, circulação e leitura de textos.

Nos tempos atuais em que a polêmica da vez diz respeito às chamadas Fake News – e uma pergunta que tal polêmica pode levantar é: se tudo é discurso e o que há são versões, quer dizer então que não há distinção entre mentira e verdade? – reatualizo um elemento que decididamente não é recente e que talvez remonte mesmo à própria invenção do códex, no século III, quando os rolos de papiros deram vez às encadernações: o exercício de uma autoria por meio de pseudônimos.

A própria etimologia – “quase-nomes” – pode sugerir uma visão depreciativa sobre o fenômeno, a nos fazer cair no juízo de valor de “falso” e “ruim”, já levantada na discussão que fez Platão em diálogos como “Crátilo” e “Sofista” sobre a natureza dos nomes e proposições. Mas o que dizer de tantos e tantos casos que podemos registrar ao longo da história, exemplos de fina autoria dos quais cito apenas alguns: o príncipe parnasiano dos poetas Olavo Bilac que assinou seus textos mais satíricos como Bob ou Patrícia Galvão, a Pagu, que assinou muitos de seus textos como Mara? Sem falar, ainda, no caso célebre dos heterônimos de Fernando Pessoa, que chegou a assinar inclusive como Silvia. Aqui em Natal, temos também um exemplo que deu o que falar, quando o potiguar Nei Leandro de Castro deu voz a uma lírica de faceta feminina por meio de Nathália de Sousa no ótimo “Poemas Devassos e uma Canção de Amor”.

O que pensar dessas ocorrências tão recorrentes na história da escrita? Foram mobilizadas unicamente por má fé? Ou foram em busca, também, de um outro nome (refúgio-fuga) para viabilizar um outro modo de existência em seus escritos?

A noção de polifonia proposta por um estudioso da linguagem chamado Oswald Ducrot talvez nos ajude a compreender isso sem uma postura tão condenatória. Para Ducrot, os enunciados podem manifestar diferentes “vozes”, das quais é possível distinguir o sujeito empírico que produz o texto efetivamente (o autor), o nome que assina o texto (o locutor) e outras vozes que apareçam por ventura ao longo do texto, como personagens, informantes etc. (o enunciador). Essas tantas vozes não precisam ser necessariamente equivalentes, sobretudo as duas primeiras. A esse respeito, aliás, lembro-me de uma boa discussão que tive certa vez com o jornalista Eugênio Meio-Quilo (olha aí as nomeações…), que me calou quando atentou para o fato de que a relação editor-autor pode implicar, tranquilamente, uma relação de coautoria, embora apenas um dê assinatura ao texto.

O debate que se desdobra a partir daí, mais uma vez, é sobre a questão das identidades. Continuo acreditando que nossa pluralidade humana, inclusive esteticamente, não se reduz a um nome só. Já falei sobre isso em outro artigo e volto a insistir: embora num corpo único, pulsam em nós muitos eus. Daí as alcunhas, apelidos, pseudônimos e tantas outras formas pelas quais podemos rubricar e assinar nossa existência social e discursiva.

E que fique claro que de modo algum estou defendendo a existência de robôs que propagam notícias não-factuais, de perfis “inverdadeiros” de páginas nas redes sociais que existem com o único objetivo de derrubar e difamar um outro alguém. Quero, ao contrário, atentar para a necessidade de respeito à liberdade da diversidade, da forma que for e por mais difícil que seja admiti-la. A diversidade.

Eis assim o desfecho para este texto, meu consolo para aquela manhã em que não estive presente no auditório da Reitoria para ouvir Chartier. Numa ode ao Diverso, já que a vida é um livro em aberto, quem sabe se, num outro diferente dia que o Devir possa me trazer, não consigo então o autógrafo do estudioso dos livros?

 

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