CAPA, TRANSPARÊNCIA

Creche Kátia Garcia: a história de escombros e descaso da primeira obra da Copa em Natal

Creche Municipal Katia Nunes - Fotos: Ney Douglas / Novo Jornal

“Foi um sufoco”. É assim que Maria Rúcia de Oliveira, mãe de Clivison, define oito anos depois o impacto para sua família da demolição da creche estadual professora Kátia Fagundes Garcia, que marcou simbolicamente, em 18 de maio de 2010, o início das obras de construção do estádio Arena das Dunas, em Natal (RN).

É simbólico que a Educação tenha sido a primeira vítima de um estádio construído em meio a indícios de superfaturamento e pagamentos de propina a políticos que governam um dos estados mais pobres do Nordeste. Iniciada na gestão dos governos Wilma de Faria e Iberê Ferreira de Souza, a Arena das Dunas foi concluída na administração Rosalba Ciarlini, a um valor divulgado à época de R$ 400 milhões. A estimativa é de que, em 20 anos, o Governo do Estado pague à construtora OAS, responsável pela construção e manutenção do estádio, valores aproximados em R$ 1,2 bilhão.

O contexto em que a demolição da creche Kátia Garcia aconteceu é o retrato de um país que pouco valoriza a educação. Em 2010, o atraso para o início das obras da Copa ampliava os rumores de que Natal poderia ser excluída da lista das 12 subsedes do Mundial realizado em 2014, no Brasil. No dia em que os tratores passaram por cima da creche, uma comitiva da Fifa visitou a cidade para fiscalizar o cronograma de obras.

Sem nada para mostrar, o Governo do Estado ordenou a demolição da escolinha sob o pretexto de que, no local, fosse construído um pórtico de entrada para o Centro Administrativo do Estado, área que reúne as principais secretarias e órgãos do poder público estadual. A nova estrutura, porém, nunca foi erguida, embora uma empresa tenha sido contratada, por dispensa de licitação, para fazer o serviço por R$ 88 mil.

Terraplanagem da Creche no Centro Administrativo

A creche

A creche Kátia Garcia atendia 205 crianças com idade entre 2 e 5 anos, fora construída na década de 1990 para receber preferencialmente filhos de servidores públicos e ficava num prédio próprio do Governo dentro do Centro Administrativo do Estado.

Rúcia de Oliveira trabalha ainda hoje como copeira da controladoria geral do Estado, a poucos metros do local onde o filho estudava, espaço atualmente ocupado pela área externa de concreto do novo estádio. Para que a Arena das Dunas nascesse, o Governo autorizou as demolições da creche, do ginásio Humberto Nesi e do estádio João Cláudio de Vasconcelos Machado, popularmente conhecidos como Machadinho e Machadão, respectivamente.

Clivison, o filho de Rúcia, está com 12 anos de idade em 2018 e tinha apenas três quando começaram os rumores da demolição. Ninguém nunca explicou a Rúcia o motivo da obra. Ela soube apenas informalmente que a creche, até então sob a responsabilidade da secretaria de Estado do Trabalho Habitação e da Assistência Social (Sethas), passaria a ser administrada pela pasta da Educação da Prefeitura de Natal e funcionaria em um novo prédio, no bairro da Candelária.

Rúcia e as demais mães e pais que conseguiram matricular os filhos na creche tinham um carinho especial pela escolinha. Além da qualidade, o custo benefício de deixar as crias estudando a apenas alguns minutos de onde trabalhavam, valia ainda mais a pena:

– Gostava muito dela. Era limpinha, bem organizada, arejada, com ótimos professores. Tudo era bom, me ajudava muito porque eu vinha trabalhar e deixava ele lá. Eu ficava segura porque a creche era aqui dentro do Centro Administrativo, ele ficava bem perto de mim”, conta.

creche do centro administrativo.

Como nos contos fada, o que era doce acabou. Tudo mudou com a transferência das crianças para o novo prédio:

“Não gostei de lá, ele ficou pouco tempo, o prédio na verdade era apenas uma casa alugada, tudo era muito apertado, imprenssadinho, não tinha espaço para as crianças”, diz.

Por esse motivo, Rúcia retirou seu filho da creche pública e, após um hiato de algumas semanas sem aula em razão da necessidade de reformas emergenciais para que o novo prédio tivesse condições mínimas de receber as crianças, matriculou Clirquisson na escola SESC. E o que era gratuito, passou a ser pago:

“Ele perguntava muito pela escola, sentia falta das professoras, de tudo. Nós também sentíamos falta, mas ele se adaptou bem a nova escola e foi dando certo”, lembra.

Se foi ruim para quem estudava e estava de passagem pela creche, foi pior para quem trabalhava e viu as boas condições de trabalho sumirem em meio aos escombros da demolição. Em tom de indignação, a professora e assessora pedagógica da rede municipal de Natal Márcia Soares definiu em uma frase o episódio:

“Foi o primeiro prédio sacrificado para as obras do Arena das Dunas, não tinham que fazer isso, hoje não tem nada no lugar”, desabafou.

Demolição da creche deixou mais de 200 crianças sem aula

A demolição do prédio deixou de imediato mais de 200 crianças sem aula. A creche funcionava há mais de 20 anos no local e era administrada pela Organização Social Movimento de Integração e Orientação Social (Meios), sob responsabilidade da SETHAS, que nada soube informar sobre a antiga escolinha.

Nenhuma informação sobre a construção, funcionamento ou demolição da creche foi repassada pelos órgãos do Estado. Toda as pastas alegaram mudança do quadro de profissionais e os novos funcionários nada sabiam nem conseguiram acessar arquivos da época.

A agência Saiba Mais também tentou durante duas semanas contato com Fernando Fernandes, então Secretário extraordinário para Assuntos Relativos à Copa (Secopa), mas não obteve sucesso.

A instituição, que recebia prioritariamente filhos de servidores do Estado, era reconhecida por sua qualidade. A professora aposentada Miriam Dantas de Araújo cita “a excelente qualidade, além de ter uma ótima estrutura, bem equipada, bonita e preparada, tinha um bom projeto pedagógico, muito bem referenciado, tanto que era muito difícil conseguir vaga, existia uma grande demanda”, diz.

Terraplanagem da Creche do Machadão

A dificuldade para conseguir vaga pela fama de boa escola também foi lembrada por Cristina de Oliveira, mãe de ex-aluna matriculada num período anterior ao da demolição:

“De lá as crianças saíam todas lendo e escrevendo. Lembro que no último ano, as crianças saíam com um livrinho com histórias escritas por elas próprias. Quando minha filha estudava lá [entre os anos 90 e 2000], eram três professoras por turma, que tinha mais ou menos 20 alunos. Então as crianças eram muito bem assistidas. A escola era pequena, mas muito organizada, bem estruturada”, diz antes de destacar: “Fiquei muito triste e indignada quando soube da demolição, pois sabia que era uma boa escola, que ia fazer falta”, conta Cristina.

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