OPINIÃO

De boas intenções (de Esquerda) o Inferno (eleitoral) está cheio

A prisão de Lula acabou mostrando a força político-eleitoral que o ex-presidente ainda tem, já que ainda lidera todas as pesquisas de intenção de voto e continua com o nome na mídia, como um fantasma que assombra cotidianamente seus detratores e adversários.

Contudo, o encarceramento dele também mostrou que parte considerável das lideranças e militantes de Esquerda está tão centrada no que está fazendo quanto os zagueiros do Brasil na derrota de 7×1 para a Alemanha.

Claro que um fato como a prisão de Lula teria seu preço, em todos os prismas. E também é evidente que cada um tem o direito de ter sua opinião sobre a conjuntura nacional e sobre o que deve ser feito, não se pode desejar uma imposição “de cima para baixo” em um ambiente organicamente feito para o debate e o questionamento como as forças progressistas.

Contudo, como minha avó dizia, tudo que é demais, é muito. E talvez muita seja a falta de foco das forças esquerdistas neste instante.

Senão vejamos: com a prisão de Lula não era o momento de se discutir Planos B ou C. Uma vez Lula detido em Curitiba e a executiva nacional decidindo que a pré-candidatura dele estava mantida, o momento era de focar nisso. Mas imediatamente surgiram os apoiadores de Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo e ótimo nome, e matérias na mídia insinuando a força do ex-governador da Bahia Jacques Wagner.

Também quase imediatamente vieram à tona os amigos e amigas que, dando a candidatura de Lula como perdida, e sem verem nomes no PT – o que pode e deve ser discutido, claro – caíram de amores pelas pré-candidaturas Manuela D´ávila e Guilherme Boulos, este transformado – com justiça, diga-se – no novo queridinho dos progressistas e de parte dos “neutros” após a entrevista, digamos, lacradora, no programa Roda Viva, ambiente claramente hostil.

E houve quem tirasse candidatos da manga, sabe-se lá de qual manga, inclusive, como os muitos amigos que sugeriram o nome do governador do maranhão Flávio Dino para a presidência. Dino é excelente nome e ainda vai brilhar muito nacionalmente, mas a vibe dele do momento é enfrentar a mídia dos sarney e tentar a reeleição em seu Estado, onde é favorito, não tentar uma aventura nacional.

E, para finalizar, há o fator (ou a polêmica) Ciro Gomes. É de Esquerda, Centro ou de Direita? É progressista ou um coronel tradicional? É confiável ou não? Enfim, o número sem fim de debates envolvendo – sem chegar a lugar nenhum – o nome do destemperado ex-ministro e ex-governador, mostra bem como parte da Esquerda ainda não definiu o que pensar e como proceder.

Claro que debates são saudáveis. Mas, faltam cinco meses para a eleição, dois meses para começar a campanha. Unificar discursos não é sinal inequívoco de vitória, mas é um começo de alguma coisa.

Sem falar que a Esquerda não vem dando a atenção que devia para as eleições Legislativas, tão ou mais importantes que o pleito para presidente. Foi no Legislativo que Dilma Rousseff foi afastada e é lá que os direitos vem sendo sistematicamente tomados.

Esses deveriam ser os debates, não se Boulos é marxista ou não, ou se Ciro é oligarca. Quem já se aliou ao PMDB – e aí, sim, esse erro jamais deveria cometer novamente – não tem condições de “botar banca” para muita coisa.

Militância de Esquerda é cheia de paixão, e é bom que assim seja, mas há de se ter cuidado. De boas intenções, o inferno está cheio.

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