OPINIÃO

Médico e monstro: O comentarista de portal de internet e seu ódio sem fim

Toda vez que inventava de ler comentários dos internautas em matérias de portais jornalísticos (o fazia em especial com G1, Uol, Folha, Estadão e Catraca Livre) um pouco da minha fé da humanidade ia embora. Aos poucos, me policiei para não cair na tentação de ler os comentários. Faziam mal para a alma e à saúde.
 
Contudo, sendo um dos administradores da página do portal Potiguar Notícias no Facebook, sou obrigado a diariamente monitorar, ler e avaliar os comentários dos internautas, seguidores da página ou não, nos posts de matérias e vídeos. Por vezes, parece um show de horrores. Faz mal  para a alma e à saúde, mas, enfim, com canja de galinha, brócolis e a cerveja, que também sem a cachaça ninguém segura esse rojão, vou administrando a saúde. Física e mental.
 
A cada postagem envolvendo uma pessoa pública, geralmente políticos com mandatos ou que os tiveram, vem quase imediatamente um tsunami de comentários críticos. Mais que isto, estou sendo eufêmico: Comentários agressivos. Geralmente quando é homem, é ladrão, safado, corrupto. Ainda que não tenha sido alvo de investigação ou que jamais tenha sido objeto de matéria ligando seu nome à corrupção. Mas, para o comentarista, é ladrão safado que deve ser preso imediatamente.
 
Se for mulher, leva todos os adjetivos acima mencionados, mas, conjugados do feminino, e ainda os epítetos de puta, vagabunda e anta. Comentarista político de portal e de internet gosta de chamar mulher de vagabunda. Pode ser de Esquerda, de Direita, de Centro, nova, idosa, tanto faz. leva os adjetivos dados aos colegas masculinos e mais esses.
 
Por curiosidade mórbida e pesquisa antropológico-literária, selecionei a esmo alguns dos comentaristas mais frequentes e mais contundentes para pesquisar seus perfis nas redes. A moda daquele meme sobre o Globo Repórter, queria saber como eles vivem, de que se alimentam, com quem andam, o que fazem?
 
Nenhuma surpresa. Descontando os jovens que já pulam no primeiro comentário com a hastag #Bolsonaro2018. esses o perfil clichê jovens/brancos/classe média/héteros, boa parte é daquela parcela dos “cidadãos de bem”. Homens zelosos dos filhos e esposas, senhoras com aquele jeito cativante de vovós tipo Dona Benta. Quase todos e todas bons cristão, daqueles que postam frases edificantes da Bíblia ou tipo “Não julgue as pessoas, pois só quem pode julgar é Deus”.
 
É, isso na tineline delas. Nas páginas jornalísticas e nos portais chamam outros e outras de canalhas, antas, filhos da puta, vagabundas e que merecem morrer com câncer ou serem presas para o resto da vida.
 
Como todo mundo, me pergunto se as pessoas sempre foram assim. Ou se é um fenômeno recente que a aparente impunidade na internet deu voz.
 
Comentarista de internet parece um Dr. Jeckill e Mr Hyde, o médico e o monstro, do romance clássico de Robert Stevenson (não o capitão, também intrépido cidadão de bem das blitzen natalenses). 
 
De qualquer maneira ainda me é um mistério o que leva uma senhora que posta foto dos netos e de bolos de laranja postar às oito horas da manhã de um sábado comentário chamando um prefeito de “maior canalha que já passou por aqui e que merece ser cuspido” ou chamar uma senadora de “ladra safada que vai ter o que merece”. Freud talvez nem explique.
 
É muito ódio soltado de forma muito fácil. Claro que aprofundando o assunto e os estudos, e existem muito bons sobre o tema, posso compreender estes mecanismos. Por ora, é manter a saúde física e mental. Haja brócolis e cerveja. 

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