OPINIÃO

O dia em que Danilo Menezes virou João

Apreciava demais chegar à Fenat, antiga, e me reunir com a turma para falar de futebol. Claro, no centro, ele, Danilo Menezes.

Danilo dispensa apresentação, mas pode ser que tenha alguém desavisado. Danilo Menezes é uruguaio, nascido na fronteira, na cidade de Rivera, passando uma rua é Livramento no Rio Grande do Sul.

O nosso gringo chegou em Natal no ano de 1972, e salvo algumas saídas para o Botafogo da Paraíba, fincou raízes por aqui.

Na sua carreira gloriosa vestiu a camisa do Nacional de Montevidéu, na época uma das melhores da América do Sul, foi seleção uruguaia, disputou jogos nas Eliminatórias para a Copa de 1966.

Portanto, Danilo, nosso ídolo, ex-atleta querido de todas as torcidas, funcionários público, hoje aposentado, da SEL – Secretaria de Esporte e Lazer.

Faz uma falta danada.

Nas nossas visitas quase diárias como repórter e amigo, se ele não estivesse, com Fabíola, de preferência, nem tinha graça ficar na fundação, à época ainda não era secretaria.

Tomávamos café no barzinho de Genival, nos sentávamos e tome falar de futebol, da vida alheia, do presente e do passado.

Danilo, com suas décadas e décadas de vida tinha coisa demais para nos contar.

Certa vez, entre sorrisos e saudades, ele narrou para mim, para a gente, o dia em que Garrincha fez dele mais um “João”.

João, todos sabem, era o apelido que Mané colocava nos seus marcadores. Essa história, fantástica, hilária, aconteceu quando Menezes defendia o Vasco da Gama.

Ele começa a narrativa:

-Foi o meu primeiro jogo pelo Vasco contra o Botafogo. Os caras falavam demais do Mané. Diziam maravilhas, mas eu havia chegado há pouco, nem tinha visto direito o “hôme” em ação. Mas pensava comigo: “não deve ser grande coisa”. Fomos para o campo, eu bem confiante, era a chance de começar a ganhar a confiança da torcida do Vasco, narra.

– Eu ia jogar nesse dia de ponta-esquerda, Oldair (aquele mesmo que depois jogaria no Atlético Mineiro) era o lateral, lateral mesmo. “Seu” Zezé (Moreira, técnico) pediu para eu fechar o espaço e voltar para ajudar Oldair. Ele me falou isso alegando ser uma partida contra o fenômeno, já conhecido como “O Anjo das Pernas Tortas”.  Eu não gostei muito, afinal eu era meia e não me sentia bem em jogar na ponta e nem muito menos marcar ninguém”, acrescenta nosso gringo

– Mas tudo bem. Tava precisando mostrar serviço. Entramos em campo e eu tive a curiosidade de olhar para o famoso Garrincha. Nunca tinha visto ele de perto.

– Olhei, olhei, e pensei comigo: “pô, o cara é um aleijado, anda todo torto, como é que os caras levam drible dele? Ele era de estatura mediana, sua perna direita, na altura do joelho envergava para dento, ficando em cima da perna esquerda. Essa, ao contrário, saía para o lado. Imaginei até que ele tivesse dificuldade para andar. Se eu soubesse…

-Oldair chegou perto de mim e apontou para Mané dizendo: o cara é esse, cuidado com ele é arisco e ligeiro demais.

E Acrescentou:  Não esqueça! Você faz o primeiro combate e eu chego depois para roubar a bola.

– E ele falava com cara de assustado, na minha imaginação não entendia tanto temor a um jogador” – disse o Gringo já rindo. Nessa altura, no barzinho-lanchonete de Genival já havia uma platéia escutando a narrativa.

Danilo continua a contar. – Concordei. Ainda me alegrei, nem sei porquê: vou me consagrar hoje, pensei aquecendo animado. Ah! se eu soubesse…

-E o jogo começa. Bola pra qui, bola pra lá, nada. Ele lá no canto direito. Estranhei, ele nem pedia a bola. Cheguei a conclusão que ia ser mesmo moleza.

-Nunca estive tão enganado em minha vida.

-Pois bem, na primeira bola que deram pra ele eu fiz cara feia, cheguei pesado, ligeiro, vupt! Nem vi o vulto do cara.

-Ele passou por mim e Oldair de uma vez só. Deu mais um drible desmoralizante em Fontana, o coitado deu “carrinho” no vento. O desgraçado cruzou na medida para Amarildo fazer 1 a 0.

-Fiquei pensando comigo: como diabo ele fez isso. Nem bem a gente chegou e ele já estava com uma dianteira de mais de dois metros distantes..

– Pois é, eu e Oldair levando bronca de “seu” Zezé e a torcida delirando feliz no Maraca e tome vaia na gente. Eu fui inchando, me dando uma raiva…

E o jogo seguiu. Fiquei p. da vida, claro. Olhei para Oldair e combinei as ações para a próxima jogada que ele viesse.

-Na outra a gente pega, deixa ele se alegrar, eu vou dar o primeiro combate, chego na frente, como quem não quer nada, e na hora que eu chegar junto nele você chega logo depois, para não ter como ele escapar. Se ele passar por mim vai trombar em você, falei confiante.

– Oldair concordou.

– E lá vem ele, balançou uma vez, duas, passou por cima da bola, voltou, repetiu a firula e preparou o bote. Tinha certeza que ele ia partir com tudo naquele momento. Chegara a hora de minha vingança. Fechei os olhos e me joguei em cima dele, com tudo, pernas, braças e tronco…

-Caiu aquele bolo, nós dois rolando, eu gritei irritado: “te peguei aleijado filha da puta, vai fazer gracinha com outro”.  Mas estranhei as risadas e as vaias da torcida…

Quando abri os olhos, menino! Eu estava no chão agarrado com Oldair, a gente caiu junto, ele driblou nós dois e já estava cruzando de novo da linha de fundo.

Perdi a paciência. Olhei com raiva para Oldair e disse: tu cuida dele sozinho, pois você é o lateral, eu é que não vou mais aí.

-E não fui mesmo. Perdemos, acho que de 3 a 1.

Foi assim, o dia em que Danilo Menezes se tornou mais um “João”, mais um infeliz que tentou marcar o maior artista do drible que o futebol do mundo já produziu.

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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