OPINIÃO

O obscurantismo à espreita

Em 1966, François Truffaut levou aos cinemas uma sociedade distópica na qual os livros são proibidos e bombeiros são chamados a queimá-los, quando algum dedo-duro informa ao “sistema” que há exemplares escondidos clandestinamente. A história foi imaginada por Ray Bradbury em 1951, e seria apenas curiosa, uma distopia sobre a decadência da reflexão e a supremacia das telas, não fosse o advento da sociedade que se informa pelo Whatsapp e que rechaça o jornalismo e a leitura.

O bombeiro Montag, que no filme faz parte do esquadrão convocado a vasculhar livros escondidos e a queimá-los em praça pública – e não a apagar incêndios, vejam só – é o típico cidadão de bem, que acorda cedo todos os dias, trabalha e volta pra casa para encontrar a mulher à frente da televisão sob efeito de remédios controlados. Ele não questiona porque faz o que faz até o dia em que uma nova vizinha puxa assunto no trem que os leva para casa: “você gosta do que faz? Você é feliz?” Ele nem pensa ao responder: “é claro que sou feliz”.

A conversa com Clarisse, a vizinha, é o estopim para que Montag comece a se fazer perguntas. Primeiro ele se questiona sobre o torpor em que vive a mulher – a cena da troca de sangue pós-overdose contrapõe sua estupefação à naturalidade dos enfermeiros –  e depois começa a perceber os lapsos de memória do chefe. A cena em que o esquadrão descobre toda uma biblioteca clandestina é a chave: ao perceber que Montag titubeia, o chefe deixa faz uma teorização sobre o porquê de a literatura fazer mal: “ela provoca nas pessoas o desejo de destacar-se”.

Na sociedade em que vivem, o Estado controla os indivíduos de tal forma que para que a ordem seja mantida, ninguém pode ser diferente, sobressair-se. Esta é a ameaça. Quando Montag começa a roubar livros de suas missões, e a ler, entra numa ânsia de “recuperar todas as lembranças”, como ele mesmo diz, e vira noites a devorar páginas. Parece despertar de um sono profundo.

O caminho de Montag não tem volta. A liberdade de ler, pensar e questionar, depois de experimentada, não aceita o cerceamento. As memórias do bombeiro ficam mais claras e também a insatisfação com aquele estado de coisas. Ele passa mal ao descobrir que Clarisse foi detida. Deixou o torpor, voltou a ter sensibilidade, empatia, compaixão.

O caminho para o autoconhecimento da sociedade que se informa pelo Whatsapp e que rechaça o jornalismo e a leitura talvez seja esse: voltar a se questionar. Rever “Farenheit 451” pareceu-me o retrato do obscurantismo que pode se aprofundar. Preferiremos não ler, não conhecer o passado e não saber o que se passa com os nossos vizinhos, em nome de uma ordem vigiada? Ou preferiremos conhecer nosso passado, nossas memórias e ter empatia?

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