OPINIÃO

“O Processo”: a história do impeachment de Dilma do jeito que vai entrar pra História

Como as futuras gerações entenderão o impeachment de Dilma Rousseff? Como os livros de História, uma vez livres do policiamento ideológico, registrarão aqueles dias caóticos? Quem foram os reais atores dessa trama? O que realmente aconteceu para que o impeachment fosse possível? E o que NÃO aconteceu para que ele fosse possível?

Talvez “O Processo” (Brasil/Alemanha, 2018) não responda a nenhuma dessas perguntas, mas joga luz numa certeza incômoda: a história que a mídia contou é bem diferente de como tudo aconteceu. E mesmo que você já saiba disso, mesmo que não seja mais ingênuo o suficiente para acreditar em tudo que assistiu pela TV, “O Processo” tem o efeito de um soco. Rever como o impeachment ocorreu no Senado Federal, mas dessa vez sem a interferência da raivosa narrativa dos acusadores, é revelador. E constrangedor.

Eu sabia que o novo documentário de Maria Augusta Ramos teria um forte impacto em mim. Desde que o Golpe 2016 começou a ser orquestrado, acompanhei todos os lances, reviravoltas e revelações dessa trama com a voracidade de quem maratona uma série. Assisti à votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara ao vivo, na íntegra, durante um longo domingo que parecia não ter fim. Torci, praguejei, chorei, lutei. É claro que “O Processo” seria impactante. Eu só não imaginava o quanto.

O começo do fim

Você já conhece a história, e talvez por isso “O Processo” não se detenha a explicações: tudo começa justamente naquele domingo de votação na Câmara, quando o pedido de impeachment foi aceito pelos deputados e encaminhado ao seu ato final: a votação no Senado. A cena inicial mostra a divisão de torcidas organizadas diante do Congresso Nacional, numa tomada aérea que nos deixa diminutos. Um lado verde e amarelo, o outro lado vermelho. A imagem do drone resume muito bem aqueles dias de divisão extrema para o qual a sociedade brasileira despertou. Dois Brasis se digladiavam a cada voto. Dois Brasis lutavam para permanecer existindo. Apenas um Brasil teve motivos para comemorar.

O olhar certeiro da diretora captura os momentos da votação na Câmara com uma crueza devastadora. Um a um, deputados vão jogando suas palavras no microfone da História, alguns até encarando diretamente a câmera em demonstrações de histrionismo que mesclam misoginia, conservadorismo e hipocrisia numa química indigesta. “Pela minha família, pela Igreja Católica, pelo comandante Ustra” — está tudo lá. São palavras eternizadas na memória e agora no cinema — nauseantes, irreversíveis e duramente reais. A ânsia de vômito se mistura à renovação da necessidade de lutar. Lágrimas descem sem aviso. E não tinham passado nem 5 minutos de projeção.

Quando o filme realmente começa, após o impactante prólogo, o estrago já foi feito. Afinal, impossível não se sentir envergonhado ao relembrar o festival de horrores que foi aquela votação na Câmara. Sob o comando do herói nacional do momento, o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, nosso Congresso Nacional destila a mediocridade que acabou por lançar a presidenta nos derradeiros momentos do seu segundo mandato. É um triste começo.

Esqueça “O mecanismo”, assista “O Processo”

Recontar esse momento histórico do Brasil não é tarefa fácil, e talvez por isso produtos como o filme “Polícia Federal — A lei é para todos” de Marcelo Antunez e a série “O Mecanismo” de José Padilha e Elena Soárez tenham naufragado tão lindamente em suas simplificações. O impeachment de Dilma só foi possível porque as mais diversas fatalidades estavam alinhadas — desde a presidência da Câmara nas mãos de Eduardo Cunha até a pré-disposição atávica da classe média brasileira em se alinhar ao autoritarismo. Ramos não tenta explicar as razões, e por isso se detém exclusivamente em esmiuçar o trâmite do processo dentro do Senado Federal.

É o Senado, portanto, que veremos — a Casa do Povo onde homens como Aécio Neves e Romero Jucá se dão tapas nas costas enquanto mulheres como Gleisi Hoffmann sofrem represálias à sua atuação política. O meu, o seu, o nosso Senado Federal.

Experiente em documentar a realidade sócio-política do Brasil, Ramos não perde tempo com explicações, montagens, vinhetas, flashbacks ou didáticas. Vamos direto ao ponto. Com a mesma pressa que se deu todo o processo de impeachment, a câmera acompanha os momentos decisivos do Golpe 2016.

É justamente esse o intuito de “O Processo”. Não foi feito para militar, nem para denunciar, nem mesmo para convencer ou doutrinar. O filme se detém a documentar todo o intricado, inimaginável e surreal processo jurídico-político que culminou na deposição de Dilma Rousseff, presidenta brasileira eleita em 2014 numa das eleições mais acirradas de todos os tempos. É, em certa medida, uma antítese do que foi a malfadada série da Netflix — e justamente por isso é tão bom.

O grande mérito do documentário é o tom neutro de suas imagens: a diretora interfere o mínimo possível nos acontecimentos — desde a ausência total de identificação dos personagens até o encadeamento de imagens que não formam, necessariamente, unidades dramáticas. Diante de tantos personagens icônicos, Ramos preferiu ser apenas uma voyeur. E isso é excelente.

Segundo a própria diretora, em debate conduzido após a pré-estreia, sua ideia era documentar toda a história com um ponto de vista que ainda não foi contado: o da defesa. A negativa dos envolvidos na acusação de serem documentados nos bastidores também fortaleceu a linha criativa da obra. Que seja sobre a defesa. Sabemos que horas e mais horas de cobertura televisiva foram dispensadas para explicar o que eram pedaladas, o que eram créditos suplementares e como tudo isso “jogou o Brasil na maior crise econômica de todos os tempos através das mãos de uma presidenta irresponsável” [sic]. Pouco se falou da defesa, não é mesmo? Pouquíssimo. Para a grande mídia, era como se nenhuma voz tivesse se levantado em socorro à presidenta Dilma. “O Processo” mostra que não foi bem assim.

Os bastidores de um lado ignorado pela grande mídia

Para expor todos os argumentos que tornam o processo de impeachment, aos olhos dos senadores petistas e da Advocacia-Geral da União, uma verdadeira farsa, a documentarista teve acesso ao gabinete da Senadora Gleisi Hoffmann e ao escritório do então advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo. E capturou preciosidades.

A senadora petista surge cordial com seus subordinados, educada com os adversários, experiente no trato com a imprensa, assertiva ao liderar os outros senadores do PT, e extremamente focada em defender o mandato de Dilma Rousseff. É a primeira parte do filme, quando ainda resta alguma esperança de salvar o mandato conquistado em 2014. Conforme o filme avança, porém, o cansaço vai tomando o lugar da determinação — até que o clima de derrota atinge seu ápice e Hoffmann protagoniza um momento de redenção inesperado: um mea-culpa diante de todos os senadores petistas ao afirmar que o partido se afastou dos movimentos sociais e flertou perigosamente com um conservadorismo que agora o condena.

Presença tão imponente quanto Gleisi Hoffmann, José Eduardo Cardozo está em sua melhor forma. Nos momentos em que lidera sua equipe de advogados, o filme quase se transforma num thriller jurídico. À leitura do parecer do senador tucano Antonio Anastasia sobre o impeachment, Cardoso faz do tom educado e da linguagem empolada o mais sofisticado excretor de ironia: credita à “paixão partidária” de Anastasia sua análise jurídica sem embasamentos, lamentando que a genialidade do senador e jurista tenha cedido lugar à conveniência.

Num contraste atordoante com a elegância e discrição de Gleisi Hoffmann, e também com a temperança e a maturidade de José Eduardo Cardozo, o documentário também nos mostra um pouco de Janaina Paschoal. Advogada que assinou o pedido de impeachment juntamente com os juristas Miguel Reale Jr e Hélio Bicudo, Paschoal ganhou um protagonismo inexplicável nos meses do processo. E ela sabe usar as atenções que estão voltadas para ela, vertendo sobre nós toda a imprevisibilidade e falta de coerência com a qual nos habituamos.

As tentativas da mídia de esconder tão improvável personagem — que acabou por se tornar o rosto de um rito que se desequilibrava entre silogismos e achismos para justificar o injustificável — não deram muito certo. Janaína Paschoal parece gostar de roubar a cena, e isso fica bem evidente em dois momentos plenamente capturados no documentário:

1. seu choroso pedido de desculpas a Dilma, creditando sua atuação na acusação como uma sofrida tentativa de salvar o país;

2. o clássico embate com o senador petista Lindbergh Farias, quando este repercutiu a notícia de que o juiz que mandou prender o marido de Gleisi Hoffmann era orientando de Janaina Paschoal.

O episódio, inclusive, sucinta uma pergunta nunca respondida: por que Janaina Paschoal bradava suas verdades no Senado Federal como se tivesse a autoridade de um senador eleito? A dúvida cede lugar à incredulidade quando a mão erguida da advogada compara a Constituição Federal a uma Bíblia Sagrada. Serve para nos lembrar que nem sempre a melhor alternativa é rir pra não chorar.

É realmente uma pena que os membros da acusação não tenham autorizado a captação dos seus bastidores. Diante dos argumentos certeiros de Cardozo e da atuação minuciosamente articulada dos senadores petistas, é impossível não pensar o que o outro lado está tramando. O fato é que ao abrir suas entranhas para uma documentarista independente, a defesa de Dilma deixou claro que não tinha nada a esconder. Nem a temer. Este, por sinal, foi deliberadamente ignorado pela diretora e não aparece no filme. Nem uma sombrinha de sua capa esvoaçante. Segundo Ramos, o presidente mais impopular de todos os tempos era até então um personagem secundário. Um vice decorativo, por assim dizer.

Mas e Dilma? Ela não aparece???

Assisti a “O Processo” na pré-estreia nacional que aconteceu em Recife no dia 10 de maio de 2018. O palco para esta noite histórica foi o Cinema São Luiz, símbolo de resistência dos cinemas de rua que permanece vivo, operante e imponente no centro de Recife. Apinhado de uma plateia ávida por berrar “Fora Temer” e “Lula livre”, o Cinema São Luiz acabou sendo palco também do maior derramamento de lágrimas de Patrício Jr em linha reta da América Latina. Não resisti quando Dilma apareceu.

Sorridente, leve, perseverante. Dilma surge em poucos momentos da película, mas suas aparições cumprem belíssimas funções dramáticas. É uma montagem inteligente que reserva a personagem principal somente para momentos em que é preciso amplificar as sensações propostas. E tome lágrimas.

É importante deixar registrado aqui que a plateia reagiu ao filme o tempo todo. Com risadas, vaias, gritos de apoio e de rejeição. Numa breve aparição, o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL-RJ) foi tão vaiado que — felizmente — me impossibilitou de ouvir suas bravatas. Aécio também ganhou vaias, muito embora menos raivosas. Já o deputado Rogério Marinho (PSDB/RN), defensor do projeto Escola Sem Partido, despertou gargalhadas na plateia ao justificar seu voto a favor do impeachment como uma tentativa de acabar com “a doutrinação das nossas crianças em sala de aula” [sic]. Senti vergonha do meu Estado.

Em nenhum momento o documentário colhe depoimentos exclusivos. Tudo que vemos foi dito em público, mesmo que a plateia tenha sido mínima (como no caso das plenárias organizadas pelos senadores petistas). O voyeurismo de “O Processo” segue mesmo quando Dilma Rousseff adentra a tela. Meio de longe, entre as câmeras da imprensa, enxergamos a mulher que enfrentou toda a campanha de dizimação da sua reputação com altivez, serenidade e bom humor.

Numa entrevista coletiva a jornalistas internacionais, num claro esforço de denunciar o Golpe ao mundo, Dilma resume bem o sentimento de muitos brasileiros. Sorridente, ela diz que em 1964 não havia internet e por isso demorou mais de 20 anos para o povo acordar. “Mas agora tem”, ela afirma com um sorriso. É um recado de esperança para quem está prestes a vivenciar o pior momento da democracia brasileira desde a redemocratização. O filme está quase no fim. 54 milhões de votos jazem com o avançar da projeção.

Final infeliz

Rever toda a história do processo de impeachment de Dilma Rousseff não me trouxe nenhuma informação nova. Mas é uma história que merecia ser organizada numa timeline coerente. Num mundo em que um mesmo fato serve para gerar narrativas diversas, por vezes opostas, de tal maneira tão complexas que acabam por alterar o próprio fato que narram, “O Processo” evita a espetacularização da realidade e se detém a organizar o que nos foi contado de maneira fragmentada e tendenciosa (entre posts raivosos, matérias superficiais e análises políticas absolutamente viciadas). É doloroso perceber que tudo aquilo aconteceu ao vivo, diante de nossos olhos incrédulos, e pouco pudemos fazer para evitar. Mas é necessário re-enxergar nossos demônios. Mais que necessário.

O que ficou ao sair do Cinema São Luiz naquela noite de quinta foi a certeza de que o impeachment de Dilma Rousseff não teve apenas um culpado. Não foi Aécio. Não foi Janaina Paschoal. Não foram as pedaladas. Fomos todos nós que ignoramos o monstro do autoritarismo e confiamos demais na verossimilhança da vida.

Numa edição especial que já atualiza os fatos, “O Processo” foi lançado no Brasil com um amargo epílogo: manifestantes são violentamente reprimidos pela polícia nos jardins do Congresso Nacional quando protestavam contra a famigerada PEC do Teto de Gastos, que congelou investimentos em saúde e educação por 20 anos e foi uma das primeiras vitórias do Governo Temer. O filme volta inteligentemente para onde tudo começou, mas dessa vez não vemos mais os jardins do Congresso Nacional como um palco aberto a todas as manifestações democráticas, que se apresentou na imagem inicial do filme organizadamente dividido entre torcidas com pontos de vista opostos. Agora são bombas de gás lacrimogênio, tiros de borracha e cassetetes avermelhando a pele dos manifestantes que colorem a capital do Brasil enquanto o filme nos conta sobre a prisão de Lula. Fica evidente: o Brasil não é mais o Brasil. É como fechar um capítulo para abrir outro — é como se todos os dias um novo episódio do Golpe 2016 acontecesse ao vivo na GloboNews.

Dilma Rousseff foi deposta, Temer virou presidente da República, a crise econômica se agravou, a corrupção não deu nenhum sinal de que havia acabado, reformas arbitrárias retiraram direitos essenciais do povo e até agora nada de ilegal se comprovou contra a presidenta.

Ao mesmo tempo, praticamente todos os protagonistas da acusação têm contas a prestar à Justiça, desde a mala de dinheiro de Aécio Neves (que é um dos maiores flagrantes de corrupção já vistos na história do Brasil) até os nebulosos negócios de Temer (que o tornaram o primeiro presidente da República denunciado por corrupção no exercício do cargo).

Muito embora já saibamos de tudo isso (e continue sendo desagradabilíssimo relembrar), seguimos nossas vidas como se nada estivesse acontecendo. Continuamos transformando a política em memes, compartilhando notícias falsas nos grupos de família do Whatsapp, entorpecendo-nos com uma mídia que não admite que manipulou o povo em prol de seus próprios interesses e aceitando passivamente uma Justiça que insiste em criminalizar a esquerda enquanto usa habeas corpus e medidas protetivas para erigir corruptos flagrantes ao altar das divindades inatingíveis. Lembra quando senti vergonha ao rever a votação da Câmara? Era vergonha de nós mesmos.

 

 

 

BÔNUS:

Não custa nada relembrar como os parlamentares potiguares votaram no processo de impeachment de Dilma. Afinal, o Governo Temer não seria possível se a maioria do Congresso tivesse votado contra, não é mesmo?

 

Deputados:

Ÿ  Antônio Jácome (PTN): Sim

Ÿ  Beto Rosado (PP): Sim

Ÿ  Fábio Faria (PSD): Sim

Ÿ  Felipe Maia (DEM): Sim

Ÿ  Rafael Mota (PSB): Sim

Ÿ  Rogério Marinho (PSDB): Sim

Ÿ  Walter Alves (PMDB): Sim

Ÿ  Zenaide Maia (PR): Não

 

Senadores:

Ÿ  José Agripino Maia (DEM): Sim

Ÿ  Garibaldi Alves (MDB): Sim

Ÿ  Fátima Bezerra (PT): Não

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Patrício Júnior
Patrício Jr. é escritor, publicitário e jornalista. Escreve às quartas-feiras.

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