CAPA, CIDADANIA

Pobreza extrema cresceu quase 130% em Natal em 2017

Semana passada, o jornal Valor Econômico publicou uma reportagem onde revelou que em 2017 o número de pessoas em situação de pobreza extrema no Brasil havia crescido 11,2%, em relação ao ano anterior. Em 2016, os dados do IBGE apontavam para um contingente de 13,34 milhões de miseráveis no país, saltando para 14,83 milhões em 2017, um aumento de 1,8 milhão de pessoas.

A maior parte desse contingente de pobres no país residia na região Nordeste (8,16 milhões de pessoas). A região teve, entre 2016 e 2017, um crescimento de 800 mil pessoas em situação de pobreza extrema, aumento de 10,8%.

Ao ver os dados do jornal imediatamente me veio à mente um levantamento semelhante para o Rio Grande do Norte, fazendo uma abertura dos dados para a capital do estado e o interior potiguar.

Os números que encontramos na nossa tabulação se mostraram estarrecedores. O primeiro aspecto a se destacar é que a taxa de pobreza extrema no Rio Grande do Norte é significativamente maior que a média brasileira. Enquanto no Brasil, em 2017, essa taxa foi de 7,2%, no RN ela chegou a 11,3%, sendo 8,8% na capital e 12,2% no interior.

 

 

O segundo aspecto que chama a atenção é para o contingente. Eram quase 400 mil pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza, sendo 78 mil em Natal e 320 mil no interior. Entre 2016 e 2017 a população em situação de extrema pobreza no Rio Grande do Norte cresceu 18,2%, bem acima do crescimento do Brasil e do Nordeste. A população miserável do estado teve um aumento de 61 mil pessoas no período de apenas um ano.

 

 

Mas o mais surpreendente é que mais de 70% do aumento da pobreza ocorrido no Rio Grande do Norte se concentrou na sua capital. Natal teve o número de pessoas em situação de pobreza saltando de 34 mil, em 2016, para 78 mil, em 2017. Foi um crescimento de 127,2%. A título de comparação, o aumento no interior do Estado foi de apenas 5,9%.

Portanto, no Rio Grande do Norte, ocorreu um aumento da pobreza metropolitana. Foi entre a população que reside no principal centro urbano do Estado que a pobreza mais cresceu.

Como eu interpreto essa discrepância entre o crescimento da pobreza na capital e no interior? No meu entendimento, a economia do interior do Estado é mais dependente de remunerações e transferências públicas. Se pegarmos qualquer pequeno município do Rio Grande do Norte podemos perceber que quem responde pela movimentação monetária da economia local são os salários dos servidores públicos, as aposentadorias rurais, os Benefícios de Prestação Continuada (BPC) e o Bolsa família. O emprego e a renda privada nesses municípios têm um peso menor do que na economia da capital.

Nesse sentido, essas remunerações oriundas do setor público funcionaram como um colchão amortecedor que impediu que mais pessoas regredisse para o estado de pobreza.

Natal, por outro lado, possui uma economia mais dinâmica, onde o setor privado tem um peso maior no emprego e nos salários. A crise econômica afetou fortemente a oferta de trabalho em setores como a construção civil, o comércio e os serviços localizados na capital potiguar. A lenta recuperação da economia brasileira ao longo de 2017 foi insuficiente para gerar postos de trabalho de qualidade na principal economia urbana do estado. Como consequência, um contingente considerável de pessoas foi jogado para o desemprego ou para trabalhos formais de baixa qualidade e parca remuneração, forçando essas pessoas para baixo da linha de pobreza.

Nos últimos anos é até perceptível nas ruas da cidade de Natal o aumento do número de pedintes, artistas ou vendedores ambulantes nos semáforos, bares e praias. Essas pessoas dão rosto ao fenômeno do crescimento da pobreza extrema na “Cidade do Sol”.

 

*Aldemir Freire é economista e escreve às segundas-feiras para o portal da Agência Saiba Mais

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Aldemir Freire
Aldemir Freire é economista

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