CAPA, DEMOCRACIA

“Procedimento” contra Lula leva 15 médicos às ruas de Natal durante expediente

Passeata contra Lula reuniu 15 médicos em Natal

Chico Buarque nem imagina, mas a voz dele foi a primeira a sair do alto falante do carro de som contratado pelo Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte, em Natal (RN), para o protesto de 53 minutos realizado terça-feira (3) por 15 doutores contra o julgamento do habeas corpus em favor do ex-presidente Lula. “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”, cantou um Chico audivelmente constrangido. O anestesiologista Geraldo Ferreira, presidente do Sinmed, interrompeu o compositor para dar o aviso: “A charanga vai atrás, as meninas seguram a faixa na frente e os médicos seguem no meio pra gente começar o procedimento”, afirmou ao microfone.

O procedimento, no dicionário de Geraldo Ferreira, era a manifestação convocada pelo SINMED contra a possibilidade do Supremo Tribunal Federal conceder o HC a Lula no julgamento que acontece nesta quarta-feira (4), evitando assim a prisão após condenação em segunda instância. Havia outra manifestação marcada pelo MBL para o mesmo horário ocorrendo em Petrópolis, bairro nobre da cidade, mas Ferreira minimizou a divergência: “Foi um conflito de horários apenas”, explicou na área externa da Associação Médica do RN onde apenas seis médicos o acompanhavam na concentração.

Em todo o país, as manifestações contra o ex-presidente Lula fracassaram. Do protesto pela avenida Hermes da Fonseca, uma das vias públicas mais movimentadas da capital potiguar, participaram 10 músicos de percussão contratados, 10 jovens contratados para segurar as bandeiras da Associação, 3 seguranças e 15 médicos.

Antes da charanga sair da sede da Associação, Chico Buarque ainda dividiu os vocais do carro de som com Milton Nascimento, que surgiu cantando Cálice, e com Caetano Veloso, cujo clássico Sem lenço, sem documento embalou os primeiros passos do procedimento (vulgo, manifestação). A passeata saiu da AMRN e seguiu até o Midway Mall. O percurso durou pouco mais de 50 minutos.

Dos 15 médicos, quatro vestiam uma camisa amarela do movimento Brasil 200, ação idealizada pelo empresário e pré-candidato à Presidência da República Flávio Rocha, e uma médica cardiologista estampava na camiseta os dizeres “Somos todos Moro”, uma alusão ao juiz Sérgio Moro, herói da operação da Lava-jato que condenou o ex-presidente Lula a 9 anos de prisão.

O procedimento (vulgo, manifestação) foi coordenado pelo anestesiologista Geraldo Ferreira, que em 2013 foi acusado de receber salário sem trabalhar no hospital Universitário Onofre Lopes. Ele nega as acusações de que tenha sido funcionário fantasma no Huol. “Isso foi coisa de gente maledicente”, disse.

 

Protesto dos médicos em Natal
Visão aérea da manifestação promovida por entidades médicas em Natal

Durante o trajeto, os médicos que se revezaram ao microfone falaram em Justiça, Brasil, povo brasileiro e tentaram confundir a população sobre o julgamento desta quarta-feira. Embora o Supremo vá julgar o HC ajuizado pela defesa do ex-presidente Lula, o discurso era de que “o STF vai liberar da prisão estupradores, ladrões e assassinos”, numa referência à mudanças nas regras para a prisão em segunda instância, que ninguém sabe quando entrará em pauta no Supremo.

Três carros buzinaram no percurso em favor da manifestação. Às margens da avenida, pedestres e usuários de transporte público observavam de longe. O músico Júlio Lima saía do médico, quando encontrou a manifestação pelo caminho e criticou o protesto:

– Essa é mais uma atitude imbecil da direita. Se mostrarem uma prova que condenem o Lula eu sou o primeiro a querer vê-lo na cadeia. Mas, não, o que a gente vê hoje é um Estado de exceção. Então é mais uma atitude imbecil.

A cabelereira Graciele da Silva também não vê motivos para a prisão do ex-presidente:

– O Lula foi muito bom para o povo, eu não tenho muito o que reclamar dele, não. É injusto, tanto a perseguição como a manifestação.

 

As opiniões variaram entre o público. A merendeira de uma escola próxima, Mariema Souza, afirmou que se Lula tivesse feito coisa boa “estava numa boa”. E defendeu a prisão dele:

– Se fez coisa errada, tem que ir pra cadeia mesmo.

A chegada ao Midway Mall pegou de surpresa a população que aguardava os ônibus para voltar para casa depois de mais um dia de trabalho. Ao contrário do que acontece durante os protestos da esquerda, porém, ninguém foi chamado de vagabundo por participar da manifestação no horário de expediente.

Cardiologista que usava uma camiseta em homenagem ao juiz Sérgio Moro, Elizângela Rocha afirmou que não aguenta mais a impunidade no país:

– Vim para protestar. Em todos os protestos a favor do Brasil eu estou aqui. O Brasil é meu, eu não quero sair do Brasil, quero ficar aqui. Não aguento mais a impunidade, criminoso solto que fica recorrendo e recorrendo e nunca consegue a prisão dele. O Lula é o símbolo, tem que ser preso, mas isso vale para todos. O Moro é a própria Justiça. Se a Lava-jato tivesse alguma tendência já tinha desmoronado.

 Já o obstetra Fábio Batista, vestido com a camisa do movimento Brasil 200, afirmou que foi à manifestação para a “jogar os holofotes na decisão do Supremo” para que não saiam da prisão “Geddel Vieira Lima e aquele ex-presidente do Congresso”, disse se referindo a Eduardo Cunha. Questionado se o foco do protesto não era a prisão do ex-presidente Lula, ele voltou atrás. “É porque o Lula é mais famoso, tem fama e pode criar a jurisprudência”, afirmou o médico, que deu uma resposta curiosa para o fato de estar vestindo uma camisa do movimento Brasil 200. “Foi a camisa que encontrei na Associação Médica”, disse.

O presidente do Sindicato dos Médicos Geraldo Ferreira interveio na resposta do colega e afirmou que as entidades médicas distribuíram as camisas do movimento Brasil 200 quando Flávio Rocha não tinha se lançado candidato à presidência da República. “As camisas foram adquiridas antes pelas entidades médicas. Digo isso porque o correto era não usar já que o partido aqui é o partido do povo brasileiro”, justificou.

Ferreira disse que, apesar do pequeno número de médicos na manifestação, o protesto conseguiu passar o recado para a população.

– Num dia de semana, os médicos estão prestando seus serviços à população, mas nós como dirigentes temos obrigação de representá-los. Conseguimos mostrar à população que as instituições médicas estão unidas pelas categorias médicas para construir um país novo, progressista, diferente e isso passa pelo funcionamento da Justiça e pela condição de culpado de crimes, seja pela corrupção, latrocínio, estupro… a sociedade brasileira não tolera mais impunidade. Se o Supremo der um passo atrás será uma coisa profundamente negativa para o país”, disse.

Sobre a acusação repercutida nacionalmente em 2013 de que recebia sem trabalhar no hospital Universitário Onofre Lopes, Geraldo Ferreira afirmou que tudo foi esclarecido:

 – Aquilo na verdade nunca existiu, foram abertas sindicâncias e tudo aquilo foi enterrado porque foi apenas a maledicência de quem queria manchar quem tinha uma história digna. Continuo trabalhando lá na alta tecnologia, na parte de hemodinâmica, neurocirurgia, endoscopia, prestando meu serviço à população do Rio Grande do Norte e do Brasil.

Enquanto Ferreira encerrava o ato, uma garota passou de bicicleta e berrou “Fora, Temer” quase no ouvido do coordenador da manifestação. O procedimento contra Lula terminou no calçadão do Midway, com todos os 15 médicos e poucos simpatizantes, “em posição de respeito”, cantando o hino nacional.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"