OPINIÃO

Quem com ferro fere…

É bíblico, um dos critérios preferidos dos coxinhas pra definir a credibilidade de algo, um dito popular dos mais difundidos, tido como sabedoria para a vida: “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Parece simples, no entanto, creio que a interpretação apropriada para tal máxima seria a ideia de que não devemos  ferir ninguém (com ou sem “ferro”) pois como que numa “lei do universo” em algum momento seremos nós mesmos atingidos pela prática que um dia ajudamos a disseminar.  

Uma das coisas que mais me assusta atualmente, é, toda vez que vejo alguém agredindo uma pessoa ou uma ideia de maneira absolutamente irracional, furiosa, sem respeito a nada nem ninguém, apenas tentando provar a superioridade de seu ponto de vista moral absolutamente pessoal, quando vou  no perfil do Facebook dessa pessoa e só que se vê são mensagens religiosas das mais sublimes, tipo “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”, ou “O senhor é meu pastor e nada me faltará” dentre outras máximas cristãs tão vazias quanto carteira de assalariado em fim de mês. 

Venho de família religiosa, evangélica, cresci em escola dominical, e me lembro de outros valores, de uma fé sincera por parte das pessoas, um desejo de melhorar o mundo que passa longe dessa patrulha moral sexual da vida dos outros. Sempre houve patrulha com os membros da comunidade, com os de fora não. A quem não era cristão contentavam-se em condenar suas condutas, mas não propagavam perseguição. 

Nos últimos 25 anos, o avanço dos evangélicos na sociedade brasileira tem produzido um fenômeno assustador, qual seja a conversão do fiel em “soldado de Cristo” (às vezes num sentido quase literal, com a formação das milícias cristãs cada vez mais em voga especialmente no Rio de Janeiro) especialmente no seio do chamado neopentecostalismo, que – estimulado por criminosos que se dizem homens de Deus, do quilate de Silas Malafaia, Marcos Feliciano dentre outros escroques, mas que na verdade usam seu lugar social para disseminar ódio e violência contra todas as pessoas portadoras de valores morais e religiosos diversos – tem produzido (mesmo que indiretamente, pois sancionam) a prática dos crimes de ódio contra as ditas minorias políticas, sexuais, religiosas e etc. 

Toda vez que um LGBT é assassinado por ser LGBT, as mãos de Malafaia, Feliciano e Bolsonaro ficam mais sujas de sangue, pois o assassino usou como motivação e legitimação de sua ação, mesmo que de maneira não consciente, uma fala que ele ouviu ou assistiu na mídia, onde homens terríveis como esses acima citados dizem que ser LGBT é coisa do demônio e que existe um projeto de poder dos LGBTS (pessoas mais preocupadas em sobreviver nessa sociedade de merda que vivemos) que irá instaurar uma suposta “ditadura gay”.  

Imagina só, eu tô tentando, como seria uma ditadura gay? Será que um hétero estaria em casa de boa e de repente seria enquadrado em uma “lei da diversidade gay” a partir da qual seria obrigado a praticar sexo homossexual contra sua vontade para atender desejos sádicos de poderosos gays donos do poder? 

Mal posso imaginar uma situação tão bizarra, visto que o que demandam os LGBTS e que os canalhas chamam de “privilégios gays”, longe de serem privilégios, são apenas direitos iguais, direitos ao casamento e à adoção de crianças, direito a ter acesso ao mercado de trabalho sem impedimentos morais por gênero, direito de existir, de não ser assassinado somente por ser o que se é: LGBT.  

Portanto, me explique meu leitor que eventualmente apoia esses discursos de ódio às vezes na convicção de estar defendendo os valores religiosos de sua formação, qual o privilégio de não ser assassinado somente por ser LGBT? Pois uma coisa é você ser assassinado por um latrocínio, por uma violência urbana qualquer, isso qualquer pessoa está sujeita. Mas a experiência de ser assassinado gratuitamente somente por ser LGBT é algo que desafio você, meu caro leitor, a entender e ter empatia. 

Então assim, por favor, você que não é LGBT mas que tem amigos, parentes que são, apelo a esses vínculos  afetivos e também à simples empatia, por uma questão de civilidade e respeito à dignidade humana, ao sagrado (esse sim sagrado) direito do ser humano de existir, para repensarem o voto não só no candidato nazista que já afirmou que o problema da “ditadura brasileira (1964-1985) é que ela torturou muito, mas matou pouco”, mas em todos esses candidatos neofacistas religiosos que pululam em nossa política, além dos candidatos militares que também ameaçam a laicidade da democracia inclusive porque em geral também partilham dos valores  morais retrógrados, criminosos já citados. E chamo esses valores de criminosos pois induzem violência que descamba na morte da nossa comunidade, LGBT – só para vocês terem noção, a expectativa de vida de travestis e transexuais no Brasil é de apenas 35 anos. Não deem seu voto a esses caras, você nem associa, mas são as políticas públicas que eles perpetram como legisladores, como líderes religiosos e públicos que são, que tem ajudado a produzir o genocídio da população LGBT brasileira. 

Pense nisso ao votar, como você diz amar seus amigos e parentes LGBTS se quer dar poder a alguéns que querem nos destruir como seres humanos, interditando nosso acesso à cidadania e não criminalizando os crimes de ódio que sofremos. Quem ama cuida, e cuidar é não eleger tais pessoas que ameaçam não só nossa comunidade, como todas as minorias e em última instância toda a democracia. 

Semana passada o candidato que fala em liberação das armas, no direito do cidadão em fazer justiça com as próprias mãos, provou um pouco do seu próprio veneno. Se o Brasil fosse como Bolsonaro deseja que seja, ele mesmo não estaria vivo, afinal ele apregoa que o cidadão deve andar armado para se defender de algo que o ameace, e foi justamente isso que fez Adelio Bispo (um radical com problemas mentais), armou-se e foi dar fim a quem o “ameaçava” (era assim que se sentia o autor do atentado em confissão à polícia, ameaçado).  

Eu também me sinto, como cidadã, ameaçada por Bolsonaro, claro que prefiro usar como arma o voto, a política. Mas uma coisa não dá pra negar, se houvesse no Brasil o porte de arma de fogo tão defendido por crápulas como Bolsonaro, ele mesmo estaria morto pois não teria recebido uma cutilada de arma branca, teria sido alvejado por sequência de tiros. Alguém duvida disso? 

A tentativa de criminalizar a esquerda, que é na verdade muito mais vítima que algoz em todos os episódios históricos que se tem notícia, já começou. No Paraná, reduto de direita no Brasil, militantes negros do PT são perseguidos e presos  sem mandado ou justificativa alguma, exceto o fato de serem petistas de periferia. A caravana de Lula no Sul foi alvejada por tiros mais de uma vez, não se deu a menor importância ao episódio. E se tivesse atingido alguém? 

Mariele Franco, a freira americana Dorothy, Chico Mendes, e tantos outros militantes de esquerda, ativistas dos direitos humanos, assassinados em pleno “período democrático” (1988 pra cá), na maioria das vezes em crimes nunca solucionados, não constrangem os fascínoras da nossa sociedade, que em sua sanha assassina continuam a clamar por mais, acham que a polícia brasileira mata pouco (é disparada, não só a polícia que mais mata, como a que mais morre no mundo), querem mais mortes, mais violência, mais armas de fogo, mais encarceramento, quando todos os estudos sociológicos e históricos decentes já demonstraram que violência é mais uma questão social que de repressão e extermínio. A malfadada e absurda política antidrogas já demonstrou contundentemente isso: reprimir mais, não é a solução, que antes passa pela legalização e o deslocamento do foco do Estado do encarceramento para a escolarização. 

Fico imaginando uma sociedade brasileira na qual as armas de fogo sejam legais para livre acesso ao cidadão. Penso nas brigas de trânsito e de bar, mesmo nos embates familiares e penso o quão demagógico, hipócrita e mentirosa possa ser uma pessoa que afirme que mais armamento nas ruas seria melhor e menos violento para nossa sociedade, que só resolve suas pendengas na faca pela falta de revólver. 

É preciso pensar com muito cuidado em tudo isso na hora de votar. Esse sim nosso maior argumento, nossa maior arma, nosso poder democrático, nossa chance de termos um futuro melhor, afinal, temos ótimos políticos no Brasil. Só precisamos aprender a elegê-los. Por isso, sem demagogia, sem constrangimento, faço campanha para os candidatos que acredito, estejam do lado de um projeto de RN e de Brasil que seja mais inclusivo, mais justo, mais democrático e onde eu sinta estar do lado certo da história: e peço a você meu leitor que tenha muito carinho com as indicações que darei aqui, não é uma questão de ideologia por ideologia (como se os políticos e partidos de direita não tivessem ideologia, a acusação de que algo é ideológico só atinge a quem está na esquerda). É uma questão de constatação, os partidos que defendem os LGBTS são os de esquerda, então em quem mais deveríamos votar? 

O DEM, o PSDB, o MDB, o PSD etc não perdem chances de barrar nossos direitos, querem vender o país para os gringos e odeiam os pobres. Então, por que diachos todos nós cidadãos e LGBTS em particular vamos votar nesses políticos? 

Por isso,  vou deixar aqui minha chapa, minha intenção de voto, que possa servir de inspiração para alguns de vocês, que se seguirem minha indicação, me conhecendo como vocês conhecem, podem ter certeza que só indico pessoas sérias nas quais acredito, pessoas que estarão na linha de frente da construção de um lugar mais pleno de todos os direitos, inclusão e justiça social: Haddad Presidente, Fátima Governadora, Zenaide e Alexandre Mota Senadores, Natália Bonavides Deputada Federal e Sargento Regina Deputada Estadual. Vamos comigo melhorar o RN, o Brasil e por tabela o mundo. É a melhor chance nos últimos anos de assim fazê-lo. Conto com vocês. E, lembrando, LGBTS, votem na esquerda, por favor. 

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Historiadora e Militante LGBT

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