OPINIÃO

Um dique chamado Nordeste

Depois de consolidados os resultados do primeiro turno alguns recados que saíram das urnas parecem bem evidentes. A insatisfação popular que ameaçava levar o deputado Jair Bolsonaro para o Palácio do Planalto, ainda no primeiro turno, varreu o sistema político de modo bastante isonômico. De Magno Malta a Lindenbergh Farias, de Eunício Oliveira a Roberto Requião, pela direita e pela esquerda, o eleitor votou contra todas as caras conhecidas que tiveram algum protagonismo político nos últimos quatro anos.

Até a bancada da Bíblia, que anda, junto com a bancada do Boi e da Bala,  lambendo o coturno do candidato do PSL (pra não falar em outras partes mais eróticas) viu 55% dos seus membros serem tocados para fora do congresso. Assistimos três em cada quatro senadores que concorreram a uma vaga neste pleito serem derrotados. Na Câmara Federal observamos as bancadas do MDB e do PSDB encolherem e o nanico PSL saltar de 08 para mais de 50 deputados, todos ungidos pela fantasia eleitoral do messianismo bolsonarista. No fim das contas o eleitor surfou na onda da antipolítica, no discurso de repúdio à ordem democrática e na descrença no sistema de representação tradicional. A onda conservadora só não se transformou num Tsunami porque esbarrou num dique chamado Nordeste.

Na região de Augusto dos Anjos e Gonzagão, o deputado Bolsonaro sofreu suas mais significativas derrotas. Perdeu nos nove estados e só não viu a votação de Fernando Haddad ampliar-se substancialmente em função da presença de Ciro Gomes como uma alternativa no campo progressista, dividindo os votos com o candidato petista.

Quase como em uma trincheira vermelha, os estados do Nordeste, junto com o Pará, ajudaram a colocar Haddad no segundo turno e ampliaram a esperança de um equilíbrio maior de forças na balança da política nacional.

Como era de se esperar, rapidamente surgiram memes, postagens e comentários nas redes sociais alegando um suposto “voto de curral” dos grotões sertanejos e uma usual ignorância do eleitor nordestino. Pra gente, que mora na banda setentrional do país, já está virando tradição ouvir esses comentários xenófobos após o resultado dos pleitos pra presidente. Mas a questão não é só regional. O problema é de classe.

Afinal, quem aqui no Nordeste nunca ouviu, nos almoços de domingo das famílias de classe média, aquele tiozão reacionário repetir essa mesma cantilena sobre o “bolsa família” (chamado muitas vezes de “bolsa esmola”) ou sobre uma suposta preguiça e falta de coragem para trabalhar do povo mais pobre?  

É por isso que a trincheira eleitoral no Nordeste não se explica por alguma razão geográfica. Não é a brisa do mar, a secura do clima sertanejo, ou o sol quente no juízo que faz com que os eleitores rejeitem o vendaval conservador que sopra do sul do país. O que pinta o mapa de vermelho, da Bahia ao Pará, é o fato de que, no período dos governos de Lula e no início do primeiro governo Dilma, a região teve um crescimento econômico muito acima do resto do país. Aqui, por esses litorais e esses sertões, muita gente sentiu, na pele, os efeitos das políticas de dinamização da economia, de inclusão social, de ampliação da rede de proteção aos mais pobres e de incremento de serviços públicos de educação e saúde. Essa memória de um momento em que a cantada e decantada miséria de um Nordeste que se vende pobre e atrasado parecia ter ficado definitivamente para trás, está viva e pulsante no espírito dos cidadãos que ainda vivem nos estados nordestinos.

Isso ajuda em muito a explicar o fato de que os governos apoiados por Lula, mesmo com o ex-presidente encarcerado em Curitiba, tenham tido votações tão consagradoras na região.

Apesar disso, a guerra no segundo turno não poderá ser uma guerra de trincheiras. Ainda que os sonhos de um Nordeste independente encantem as fantasias políticas de alguns de meus conterrâneos, não há como o campo progressista derrotar a onda conservadora de dentro das nossas fronteiras. A guerra de conquista precisa ser travada em outros territórios, especialmente no Sudeste, onde, se a diferença entre Haddad e Bolsonaro não cair, dificilmente haverá uma mudança significativa do quadro eleitoral que emergiu no primeiro turno.

Na eleição mais dramática e perigosa da Nova República, o Brasil recebeu uma segunda chance pra dizer qual o projeto de nação que quer para si mesmo. Por isso votar, no próximo dia 28 de Outubro, não será apenas um ato político. Comparecer às urnas é um imperativo moral,  ou, quem sabe, um grito de sobrevivência e esperança para uma dama tão maltratada que alguém um dia batizou de democracia.

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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