CAPA, CIDADANIA

Venezuelanos encontram refúgio em Caicó

Sentado na mesa da sala da casa número 02, na ONG Aldeias Infantis SOS em Caicó, cidade distante 280 quilômetros de Natal (RN), Jesus Rafael tem teto e comida garantidos há sete dias. Há quatro meses no Brasil, o venezuelano, natural de Tachira, morou na rua, dormiu em praças e viveu em abrigos na cidade de Roraima (RR), onde trabalhou como ajudante de garçom em bares locais.

O dinheiro do trabalho era rigorosamente poupado com um único objetivo: levar comida para casa, onde lhe aguardavam a esposa Suleima e os três filhos do casal Dastan, Adonis e Prometheus. O antigo assistente de recursos humanos perdeu o emprego há pouco mais de um ano e, neste período, tentou viver de compra e venda de massa corrida para construção civil. A alta da inflação, no entanto, fez com que as pessoas não procurassem mais o serviço.

“A situação estava muito difícil, vendemos algumas coisas da casa e eu vim para Roraima. Dormi na rua por um mês até conseguir vaga no abrigo”, conta.

Ao todo, 2.328 imigrantes foram transferidos de Roraima para 15 cidades no país após a crise envolvendo venezuelanos e moradores brasileiros de Paracaima, na fronteira entre Brasil e Venezuela. Caicó recebeu 60 pessoas, divididas em 17 famílias. São 32 adultos e 28 crianças, alojadas em 5 casas.

Rafael Jesus percorreu 2.217 km até chegar à fronteira com o Brasil, onde foi vacinado e recebeu visto para 60 dias de permanência.

A comunicação com a família acontecia duas vezes por semana através de um telefone disponibilizado pela Organização Humanitária Fraternidade sem Fronteiras em uma biblioteca pública, localizada na Praça Garimpeiro, em Boa Vista.

“Eles foram muito bons comigo, o permitido era só 5 minutos por ligação, mas eu pedia por mais cinco minutinhos para falar com os meninos, e eles sempre deixavam. Tinha que ser forte, dizer que estava tudo bem, mas quando saía de lá voltava chorando para o abrigo”, diz.

Em uma dessas ligações, a esposa dele avisou que, até o fim da semana, não teria mais o que dar para as crianças comerem. Suleima é pedagoga e estava sem trabalho há um ano. Os últimos recursos financeiros da família haviam sido gastos nestes meses em que o marido ficou fora.

Jesus Rafael, Suleima e os filhos moram em Caicó como refugiados da Venezuela

Era hora de voltar. Carregando dois sacos de comida, Jesus chegou em casa em uma sexta-feira, onde encontrou a família sem comida há quase dois dias. “Ali eu vi que a situação só ia piorar, principalmente para os meus filhos que são muito pequenos, não podem trabalhar para ganhar algum dinheiro”, afirma.

Em comum acordo, decidiram vir todos para o Brasil. No caminho, as crianças de 5, 4 e 2 anos foram alimentadas com sardinha e água. Na primeira noite, a família dormiu na rua, na segunda conseguiram abrigo em uma igreja. Ficaram lá por sete dias, até abrirem vagas em um dos acampamentos para refugiados. Ao serem recebidos, se inscreveram no processo de interiorização de solicitantes de refúgio. Para participar, o refugiado precisa ser vacinado, submetido a exames de saúde e regularizado no país, portando CPF e carteira de trabalho.

“Sua família foi selecionada para o Rio Grande do Norte”

A família de Jesus foi selecionada para o Nordeste brasileiro.  Quando recebeu a notícia, sentiu uma misto de felicidade e medo. Nunca tinha ouvido falar no Rio Grande do Norte, muito menos de Caicó. “Mas se Deus estava oferecendo essa porta, era pra lá que deveríamos ir”, pensou.

Os dias seguintes foram de ansiedade. O longo caminho para chegar a cidade que os acolheria aumentava as dúvidas “Será que vão nos receber bem? Ouvíamos falar de pessoas que não queriam os venezuelanos no Brasil e sentíamos medo. Só queremos trabalhar pela nossa família”, diz.

A recepção não poderia ter sido melhor. Ao chegar na sede da ONG que agora seria seu novo lar, dezenas de caicoenses os receberam com aplausos, roupas, comida e festa. “São todos muito calorosos e atenciosos com os meninos. Essa é a coisa mais bonita que eu já vi”, conta.

Sem contato

Todos deixaram parentes na Venezuela. Alguns deles não tem contato com os familiares desde que saíram do país. “O problema agora é que não temos como falar com eles, não temos telefones, computadores ou sinal wi-fi. Minha mãe não sabe onde estou, não sabe nem se estou vivo. Faz muito tempo que não dou notícias” afirma José Gregório, que veio para Caicó com sua esposa, sogro e três filhas.

O contato com a família era feito apenas através de redes sociais. “Quanto custa um celular barato no Brasil?” pergunta Gregório à repórter. “Assim que encontrar um trabalho vou comprar um pra falar com eles”. O acesso à internet nas casas ainda não foi possível. Segundo Juclebson Araújo, coordenador do acolhimento nas Aldeias “é necessário atender primeiro as demandas de necessidade básica”.

 

José Gregória e família: sem notícias dos parentes na Venezuela

Um terço dos imigrantes venezuelanos no Brasil chegou em 2018

Estima-se que o Brasil existam aproximadamente 30,8 mil imigrantes venezuelanos. Segundo o IBGE, 10 mil deles chegaram só em 2018. O trabalho de transferência é de responsabilidade da Casa Civil.

Caicó recebeu 60 pessoas, divididas em 17 famílias, dos 2.328 imigrantes transferidos de Roraima.

“Nós havíamos reformado estas casas para alugar e ajudar na renda da ONG quando recebemos a notícia que eles viriam. Corremos para dar os últimos ajustes e pedimos ajuda pelas nossas redes sociais. No começo achei que ninguém ajudaria, mas recebemos 10 mil peças de roupa. Todo mundo quer ajudar. O seridoense é muito solidário”, diz Leianne Régia, responsável pelas parcerias estratégicas e sustentabilidade das Aldeias em Caicó.

Venezuelanos fazem em espanhol lista dos mantimentos que necessitam

A organização comunitária atua na cidade desde 1979. A manutenção das casas é feita com recursos enviado pela ONU, através do Governo Federal. Com esta verba, a equipe do Aldeias comprou móveis, artigos de necessidade básica e utensílios para as casas. Segundo Leianne, agora a ONG está trabalhando no pedido de doações, principalmente de fraldas, comida e material de higiene

“Para que a gente possa usar o recurso na profissionalização deles. Precisamos investir em autonomia profissional”.

A intenção da organização é que, após empregados, os refugiados fiquem abrigados por três meses para que possam juntar dinheiro e montar suas próprias casas.

A crise na Venezuela

Fatores internacionais, econômicos e políticos formam o cenário de recessão atual na Venezuela. A economia dependente concentra cerca de 96% da sua renda em petróleo, e a pouca diversidade na produção local obriga o país a exportar produtos de necessidade básica. Uma das tentativas do governo de Nicholas Maduro para tentar reduzir a inflação foi implantar o controle nos preços, que proíbe margens de lucro acima de 30%. A medida acabou afastando investimentos da iniciativa privada devido aos altos impostos, o que levou escassez de produtos nas prateleiras.

As pressões e sanções impostas pelo capitalismo através dos Estados Unidos acirram a situação política da Venezuela. O atual presidente, herdeiro político de Hugo Chávez, está no poder desde 2013, tendo sido reeleito em maio de 2018. Seu governo enfrenta uma forte onda de oposição, que não reconhece sua vitória e promove constantes protestos e paralisações pelo país. Além disso, o país recebe cada vez menos respaldo da comunidade internacional o que evidencia seu isolamento político.

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