OPINIÃO

100 anos de Veríssimo de Melo

Enquanto seguimos em frente, chorando os mortos e comemorando os vivos, um fato é digno de nota: neste 9 de julho comemora-se o aniversário de Veríssimo de Melo, que se vivo fosse completaria 100 anos!

Não é preciso dizer que o Rio Grande do Norte não se reduz a Câmara Cascudo, mas é sempre bom recordar o incrível pesquisador e documentarista da cultura popular que também foi Veríssimo de Melo.

O leque de sua produção é tão vasto e diverso que beira até a impertinência eu ousar falar de sua obra: títulos como “Bambelô – sobrevivência negra no Nordeste” (1966), “Contribuição do Nordeste ao Movimento Modernista” (1971), “Calendário Cultural e Histórico do Rio Grande do Norte” (1976), “Folclore infantil: acalantos, parlendas, adivinhas, jogos populares e cantigas de roda” (1985) ou “As chuvas na tradição popular” (1986), dentre tantos outros, dão um pouco dimensão da importância de seu legado.

A mim, na condição de pesquisadora do assunto, interessa-me particularmente um nicho da obra de Veríssimo de Melo que demonstra o seu olhar acurado sobre as manifestações populares: o humor.

O título Sátiras e epigramas de Zé Areia recebeu reedição pelo Sebo Vermelho (de Abimael Silva) e O Potiguar (de João Gothardo)

Comento, pois, rapidamente, alguns títulos do saudoso Vivi (como se referiam a ele aqueles que tiveram a alegria de partilhar sua amizade) e que têm como foco exatamente esse viés que se atrela imprescindivelmente a essa nossa condição de humano, demasiado humano: o riso.

Começo pelo livro que me conquistou logo quando cheguei a Natal em 2010: Sátiras e Epigramas de Zé Areia. Eu caí de amores não só pelo bufão das Rocas, mas sobretudo pela verve daquele contador de causos que narrou para mim a pedagogia do riso e da malandragem que foi Zé Areia durante a Segunda Guerra. Não fosse o Mestre Veríssimo, que reviveu a persona de Zé Areia e suas tiradas cômicas, eu não teria pensado e concebido o livro “Natal Cidade do Humor” (Natal: Sebo Vermelho, 2013).

Outro livro que me arrebatou e me alfabetizou em termos de RN e de Humor foi o Pequena Antologia do Humor Natalense, original de 1959 e com reedição pelo Sebo Vermelho em 2003. A sacada de atrelar a geografia urbana com a comicidade, por meio de estórias e atores diversos (do Coronel Olinto a Renato Caldas), implica não só engenhosidade de raciocínio como também muita sensibilidade poética.

Um terceiro livro que eu destacaria por último, mas nunca menos importante, é o Dicionário de Espírito e Humor dos Velhos Amigos. Foi exatamente por meio de um amigo querido que esse exemplar me chegou às mãos, trazendo pérolas diversas, desde máximas atemporais (como aquela do Grouxo Max: “eu nunca entraria para um clube que me aceita como sócio”) ou ainda essa pérola, para encerrar a síntese de seu olhar bem-humorado:

Um popular, diante de uma confusão numa esquina: – que putaria franciscana é essa aí?”

Muito mais se pode falar sobre a pena afiada e galhofa de Veríssimo de Melo. Só o seu livro-homenagem ao amigo boêmio Luiz Tavares (O gigante Luiz Tavares) merece muitas páginas e doses. Não me atrevo a reduzir aqui neste textículo tudo o que se dizer sobre Veríssimo de Melo, sua obra e seu jeitinho de saber o que é bom nas gentes, no que se inclui o fazer rir. Mas sei que é com ele que celebro este 9 de julho de 2021, fazendo minhas as palavras de outro grande, Oswaldo Lamartine:

Tinha como traço dominante, o argamassar amizades. Alegre e sensível, gostando de rir e fazer rir. Figura física lazarina e morena, como um Quixote do nosso conviver.

Não tive o prazer de conhecer Veríssimo de Melo pessoalmente. Mas, por meio de seus livros, tenho certeza de que eu o teria como amigo. E é a esse amigo distante que eu saúdo seu centenário.

Viva Vivi!

 

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