CIDADANIA

Por trás dos prejuízos financeiros, histórias de amor, afeto e reconstrução

Anúncios

A televisão de estimação de Lucinalva derreteu. O enfeite do bolo de aniversário de três anos da pequena Kethlen virou cinza. As lembranças que Ângela tinha da mãe, eternizada no álbum de fotos da família, também só restam na memória. Difícil calcular monetariamente a perda que as 90 famílias tiveram no incêndio da ocupação 8 de março. A soma não é em dinheiro. As geladeiras, os fogões, as máquinas de lavar, os armários e as roupas já não estão mais ali e pouco dá para dizer que voltarão um dia a estar na casa de cada vítima do incêndio. O prejuízo maior é o do afeto, do laço desatado. Pelo chão, misturado às fuligens, pedaços de pano, brinquedos quebrados, bonecas largadas, pau, pedra e um longo caminho pela frente.

Ângela Maria de Queiroz recorria às fotos da mãe, morta há 9 anos, quando a saudade entrava pela porta aberta da ocupação 8 de março. A casa dela tinha fogão, geladeira, máquina de lavar roupa e duas cômodas novas. Mas é a lembrança da mãe que leva a dona de casa à lona diante do repórter.

– É muito triste. As fotos da minha mãe eram a única lembrança que eu tinha dela.

Diante do baque afetivo, a perda dos cartões do bolsa-família, do SUS e da gratuidade no transporte público parecem pequenos problemas. Ângela morava há quatro anos no barraco de madeira e lona com três filhos pequenos, um deles com problema de saúde que a impede de sair para trabalhar. A família se estabeleceu no assentamento vinda do município de Serra de São Bento. Com o incêndio, a dona de casa optou por passar uns dias na casa do irmão, no conjunto Bela Vista, no Planalto.

– Fiquei só com a roupa do corpo e alguns documentos. Meu pai mora em outro barraco e conseguiu ainda tirar algumas roupas. Vim para a casa do meu irmão, vamos ter que recomeçar do zero.

 

Mais do que qualquer prejuízo financeiro, a dona de casa Ângela de Queiroz sentiu a perda das fotos da mãe

 

Lindalva do Nascimento tinha saído de casa para resolver problemas relacionado ao cartão do bolsa-família. No caminho, recebeu a notícia ainda por telefone e voltou correndo. O lugar da casa hoje é um amontoado de cinza, cerâmicas quebradas, mármore rachado, ferros retorcidos e objetos derretidos pelo fogo. É como se Lindalva e o marido ajudante de pedreiro voltassem cinco anos no tempo. Assim como em 2012, o casal retornou para a casa da sogra e, desde o incêndio, divide uma rede de dormir.

– Antes de vir para cá eu morava no quintal da minha sogra, em Cidade Nova, e voltamos para lá agora. Já era casada com meu marido quando uma sobrinha veio para o assentamento e nos chamou. Depois ela foi embora e ficamos. Quando soube do incêndio minha pressão subiu e vim correndo. Gostava demais da minha televisão e encontrei a bichinha derretida. Ver aquele fogo todo, aquela chama alta, a casa toda destruída, é muito triste.

Lindalva vai todos os dias ao assentamento para ajudar a encaminhar às demais vítimas as doações que chegam, e também para colher informações sobre os próximos passos da Ocupação até a mudança dos moradores para o condomínio Village da Prata, no Guarapes. Ao contrário de outros vizinhos, a dona de casa e o marido não costumam comprar objetos a prazo e deixaram para adquirir novos móveis somente após a transferência para o apartamento:

– A vizinha da frente não quis esperar e comprou muita coisa pagando em várias prestações. A gente só tinha isso aqui e estava aguardando os apartamentos sair. Ninguém vai esquecer o que aconteceu aqui da noite para o dia.

Amanda Vieira dos Santos pensou em abandonar a escola quando encontrou todos os livros queimados. Não sobrou nada. Ela cursa o 2º ano do ensino médio e se divide entre as aulas, o trabalho como feirante no Carrasco e no Alecrim e a educação da pequena Kethlen, de 3 anos. A filha pergunta todos os dias pela coroa do bolo de aniversário, que também virou pó. Noves fora o prejuízo financeiro, a dor maior é ver a tristeza da pequena.

– Perder as coisas que comprei para minha filha é o que dói mais. Sandálias, roupas, ela pergunta todos os dias pela coroa do bolo do aniversário de três anos. Chorei muito quando cheguei e vi tudo queimado. Até as bananas que comprei para vender na feira o incêndio levou. Pensei em desistir da escola porque perdi várias matérias, alguns professores entendem e outros não. A diretora me disse que reporia os livros que faltassem. Vou continuar, mas está sendo tudo muito difícil.

O barraco onde Amanda morava com Kethlen tinha dois vãos e o banheiro separado dos outros cômodos. No dia do incêndio, ela se preparava para deixar o currículo em empresas da cidade para tentar emprego. Nos últimos dias, Amanda tem contado com o auxílio da mãe, Josefa dos Santos, que mora na praia de Maracajaú e desde a tragédia na ocupação 8 de março ainda não voltou para casa. Por enquanto, se estabeleceram na casa de um tio, no conjunto Leningrado, também no Planalto.

 

Josefa dos Santos veio de Maracajaú para ajudar filha e neta vítimas do incêndio na ocupação 8 de março

 

Amanda é uma das moradoras que enfrenta problemas de cobrança pelas antenas parabólicas e os receptores destruídos no incêndio. Josefa tomou a frente espera sensibilidade por parte das operadores.

– Já fizemos o Boletim de ocorrência e avisei que vamos pagar o valor mensal desse mês pelo uso. Mas se for para pagar o receptor e a antena não pago. É quase mil reais e não tenho esse dinheiro. Amanda chorou muito.

Artigo anteriorPróximo artigo
Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"