OPINIÃO

17 anos depois, Alecrim é campeão

Juro.

Depois de mais de cinco anos no Alecrim – cheguei ao periquito em 1979 – não imaginava que ainda fosse comemorar um título de campeão estadual com a camisa verde.

Meu último clube, em 1984, havia sido o Treze de Campina Grande. Triste experiência. Eu, Odilon, Djalminha, potiguares, com outros colegas de outros estados, e mesmo os da Paraíba, chegamos mesmo a passar fome, sem exagero.

Tinha casado em setembro desse mesmo ano, justo quando estava me transferindo para Campina Grande cheio de esperança de ganhar um bom dinheiro e começar uma boa vida de casado.

Triste engano.

E depois dos meses de decepção, com a chegada do final do ano, liso, sem receber nada do clube paraibano, resolvi voltar para Natal e já com a resolução tomada de parar de jogar futebol.

Estava tão maluco que peguei meu carro, um Fiat 147, recém-saído da oficina, sem pneu de suporte, sem carteira de motorista, sem documento nenhum e peguei a estrada que me ensinaram, nem a conhecia direito. Sozinho. Acreditem.

Foram quatro horas de sufoco, agonia, medo de ver um pneu baixar, um polícia rodoviário em algum cruzamento, uma loucura. Narro isso só para ilustrar o meu desespero em voltar para casa e deixar para trás meses de sofrimento de um tratamento vergonhoso, onde, muitas vezes tivemos que pedir um pacote de cuscuz para fazer nosso jantar.

Depois de horas de vôo rasteiro, a “última fronteira”, em São José de Mipibu. Estratégia diferente: sacudi quatro moças de vida livre no carro antevendo uma ajudinha extra para passar na rodoviária de Parnamirim, caso fosse parado pelos guardas.

Passamos. As meninas deram adeusinho para os oficiais, conhecidos delas, e tudo bem.

Mas deixa eu adiantar, se não fico contando tim-tim por tim-tim e não chego onde quero, ou os leitores queiram.. Deixei as meninas no bairro das Quintas, todas elas.

Em Natal, entrei em contato com amigos do futsal. Acertei meu retorno ao futebol da bola pesada – havia jogado no América em 1978 – e o alvinegro era treinado por Jucivaldo Félix. Claro, minha opção primeira seria o América de meu querido Artur Ferreira, mas eu precisava de um emprego.

E Eudo Laranjeira, dirigente do futsal do ABC, me colocou na sua empresa de ônibus como auxiliar de almoxarifado, dando duro todo dia. Nem tanto. Meu amigo, querido amigo, Wilson Florêncio, meu chefe, meu goleirão das peladas, aliviavas as coisas para mim e ainda me pagava almoço.

De novo, deixa eu adiantar, caso contrário não chego no título de campeão do Verdão, motivo deste meu texto para o povo do bairro querido.

Estava eu na calçada da casa de minha mãe pensando na vida. Pensando no meu Dimitri, primogênito que já nascera, mas ainda morando na casa dos avós com a mãe, e por isso meu incômodo maior.

E lá vem meu querido amigo Ranilson Cristino. Nem conto as vezes que, depois de minha vida de futebolista, esse baixinho me ajudou, e nos momentos mais terríves que um homem pode enfrentar, mas isso é outra história.

O “Pequeno Gigante” chega, para na porta da casa de meus pais e começa a conversar. Eu já imaginava o que ele iria propor.

O Alecrim tinha perdido o primeiro turno e estava mudando de técnico – saiu Ivan Silva e assumiu Ferdinando Teixeira.

Ranilson, com o aval de Flávio Ribeiro, ao lado de Joilson Santana, eram responsáveis por contratar reforços para esse segundo turno, para o restante do Estadual.

Bom, Ranilson Cristino me convenceu. Tanto fez que me convenceu. Deixei o ABC de futsal, a Cidade do Sol, e voltei ao convívio da bola, do profissional.

Minha estreia seria contra o América, início do segundo turno. Logo num clássico.Com o baixinho Odilon machucado, eu, muito provavelmente, seria titular . E foi assim.

Ganhamos de 2 a 0. Fui escolhido o craque do jogo e ganhei um motorrádio. Deixa eu dizer uma coisa: não joguei para isso, afinal fazia já um bom tempo que só treinava futsal. Mas acho que compensei com garra e muita correria.

Na segunda-feira, na resenha da Rádio Cabugi estava lá eu falando e premiado. Parecia mentira. Logo ali, onde tantas vezes fui criticado, até duramente por ter coragem de falar coisas que eles nunca falam.

No jogo seguinte, um fato interessante: Odilon, recuperado, voltaria ao time, claro. O Baixinho era nosso grande astro.

O treinador me disse isso em campo, ainda durante o treinamento. No entanto, o próprio Odilon, vejam que grandeza, falou para o técnico que eu tinha jogado muito bem e que ele ficaria no banco. Ele atendeu a Odilon, acho até que de má vontade.

Era um jogo contra o RAC – Riachuelo Atlético Clube, do querido e saudoso Garrincha.

O time entrou com César, Saraiva, Sabiá, Ronaldo e Soares; Carlos Alberto, Eu e Didi; Curió, Freitas e Chiquinho das Araras.

Assim, mal tinha começado a partida, o “Francisco” vai à linha de fundo, finta o zagueiro e na hora de cruzar torce o joelho. Chiquinho se machuca sério. Sai na maca chorando, sentidos muitas dores. Uma contusão séria, infelizmente (depois faria cirurgia).

Odilon aquece. O treinador, não sei o que conversou com ele. Lá dentro. Didi, Eu e Odilon conversamos. Tratamos de combinar como ficaria. E foi assim. Quando eu roubava a bola, desarmava, fazia Didi, e Odilon caía pelo lado esquerdo do campo e partia para cima das defesas.

Quando estávamos sem a bola, o time fazia a recomposição. Eu e Carlos Alberto, dois volantes na cabeça da área na proteção para que também pudesse subir o Soares no apoio, outra forte jogada de nossa equipe.

Tomávamos a bola, acionávamos Odilon ou Curió, e abraços e mais abraços. E foi assim que surgiu o “Quadrado Mágico.

Ganhamos, a partir daí, todos os duelos. Era casa cheia. O Alecrim dos “Irmãos Ribeiro” recuperando a confiança.

Os bichos, as gratificações eram pagas no vestiário, um diferencial enorme, que empolgava nosso grupo. Salários absolutamente em dias, coisa que eu só tinha visto no Alecrim nos tempos do querido Bastos Santana.

Ganhamos com esse quadrado mágico, e também contando sempre com um bom grupo, com a entrada dos meninos Baíca e Manoel Pacote, e do ótimo meia Beto, o segundo e terceiro turno.

Ninguém segurava o Alecrim. Jogava, como se diz “por música”. O entendimento entre zagueiros, meiocampistas e atacantes era coisa única. Um grupo de jogadores que, acreditem, não precisaria, na verdade, não precisou de treinador para vencer.

E chegamos para fazer a final, a grande final contra o América, campeão do primeiro turno. Estádio lotado. Adrenalina a mil.

O time do Alecrim seria posto em xeque. Muita gente da imprensa não acreditava que o Verdão fosse forte o suficiente para encarar e vencer a final contra o América. Me lembro do “velho” narrador esportivo achando que tremeríamos diante do seu clube grande e a vitória ainda seria rubra.

Apesar do grande futebol que apresentamos no segundo terceiro turno, a discriminação contra o Verdinho, assim como hoje, era muito forte.

Mas o grupo estava unido, preparado. Estávamos em regime de concentração por mais de duas semanas seguidas, e sem reclamar. Os “trabalhos” de lavagem com Mãe Aída (especialmente vinda de Brasília) estavam de vento em popa.

Tomávamos banhos de ervas perfumadas e depois, sempre tarde da noite, aproveitando os muitos espaços da Sede Campestre, nos reuníamos para fazer orações e oferendas para que nossos “caminhos fossem abertos”.

Me lembro bem de uma oração que dizia assim: “assim como fogo acaba n`água, que possamos acabar com a força do ABC”(ou América), dependendo contra quem fosse o jogo.

E ao final da oração, todos de mãos unidas, e João Santana, nosso massagista querido (infelizmente já falecido) era o encarregado de jogar água e apagar a fogueira (nosso adversário).

Muita coisa havia sido preparada extra-campo para fazer o Alecrim sair da fila de espera.

Nos divertíamos demais. O Alecrim, o time, na Sede Campestre, comendo do bom e do melhor, era uma grande família feliz.

Um elo indestrutível que nos levaria a qualquer conquista que disputássemos.

Começa o jogo

Odilon imarcável, Curió rapidíssimo, Didi nosso maestro; a defesa firme, craques de bola jogando por música: César, Saraiva, Lúcio Sabiá, De Leon e Soares; Carlos Alberto, Edmo, Didi Duarte e Odilon; Curió e Freitas.

Como eu jogava com a camisa 11 muitas gente, e até comentaristas veteranos, vejam só, achavam que eu era o ponta esquerda do Alecrim. Ainda hoje tem muito cego de guia pensando isso.

Eu atuava como um segundo volante, seria hoje o segundo volante, o cara da saída rápida, da ligação com o ataque. E eu fazia isso muito bem, sem falsa modéstia.

Uma das coisas que muito me orgulham ainda hoje é ouvir Didi Duarte dizer, várias vezes, que se não fosse minha presença em campo, fazendo o papel que desempenhava, ele não teria condição de ter rendido tanto. Eu discordo, mas ele afirma isso sempre.

Volto para o jogo. Falta do lado esquerdo, quase quina de área. Lá vai o Baixinho Odilon bater. Prenúncio de grande lance, era assim sempre que aquele cracaço do distrito de Pajuçara, São Gonçalo do Amarante, ia cobrar uma falta.

Ele chuta, um foguete que faz uma curva de lado da barreira, pressenti que, se Eugênio, goleiro do América, chegasse, não seguraria.

Dito e feito.

Cheguei na bola, no rebote, voando, no momento que ele soltava a pelota…o coração parece que ia saltar pela boca, chutei com força, com a alma, como em sonho, goooooooooooooooooooooooooooool.

Minha nossa, gol meu, eu que quase nunca marcava, fazendo justo na final. Nem sei o que se passou na minha cabeça naquele momento.

Não consigo me lembrar de nada, só do desejo maluco de voar ao encontro da torcida que vibrava enlouquecida naquela arquibacada do lado esquerdo das cabines de rádio, onde se localizava a maravilhosa torcida verde.

Lá em cima, na arquibancada, Francisco Macedo (querido amigo, torcedor fundador da FERA, e que já não mais está entre nós) teve um começo de infarto. Passou mal, desmaiou.

Explico: ele, em conversas com amigos na mesa de um bar, havia dito que sonhava com o título do Alecrim, 1 a 0, gol meu. Por isso, o passamento…

Mas, o desengano.

Já ia correndo desesperado para comemorar quando vi o árbitro, gaúcho (não me lembro o nome, acho que era o Carlos Rosa Martins) com a mão levantada, mandando voltar a cobrança.

Ele não tinha autorizado.

Quase morri. Ia correr na direção do “cara de cachorro buldogue”, minha vontade era dar um “passa pé” no safado, mas aí chega meu anjo da guarda em campo, Didi Duarte…

-Vai não velho, vai não – me disse, segurando meu braço.

-Mas Didi, gol lícito – falei quase chorando.

E Didi: – tem nada não, você faz outro, vamos jogar, vamos jogar, vamos ser campeões – me consolou.

Só Deus sabe o que senti naquele momento. Mas segui. Correndo, combatendo, desarmando, e fazendo meu papel. O Alecrim fazia uma partida maravilhosa.

Fizemos 1 a 0 com o artilheiro Freitas. E 2 a 0 com o Baixinho iluminado Odilon.

Os minutos finais. Parecia um sonho. Era como se eu flutuasse. Não acreditava que aquele sonho, tantas vezes sonhado, adiado, e quase nem mais sonhado, estivesse se realizando no Estádio Machadão quase lotado.

Passava um filme na minha vida, São Tomé, a vinda para Natal em cima de um caminhão (quase pau de arara), os meus amigos com quem batia bola de meia no meio da rua, “seu” Sinedino, meu pai, que já não estava mais conosco, minha mãe, Toinha, que nunca me vira jogar, e nem sabia bem o que era futebol, meus irmãos, os amigos da Cidade Alta, os que torciam contra e a favor de mim, e principalmente, pensava no meu filho Dimitri, e minha esposa Evânia.

Torcedores do Alecrim e ABC se abraçavam, faziam a festa.

Escutei alguém gritar do banco que faltavam apenas dois minutos. Não sei o que se passou. Me lembrei dos anos de agonia, das discriminações, da falta de respeito, dos bons e dos maus dirigentes, das vezes que fui enganado, criticado…

Comecei a chorar descontroladamente. Soluçava em campo.

E cada companheiro que chegava perto de mim, me consolava e incentivava e reafirmava como se advinhando minha dúvida, minha incredulidade: “somos campeões, Amarelinho, somos campeões porraaaaaaaaaaaaaaa!

Amarelinho” era um de meus apelidos do futebol.

Fim de jogo.

Torcida invade o gramado, ainda consegui esconder a camisa de número 11. O resto – calção, meiões, chuteiras…me levaram. E eu nem liuguei. Desci de sunga para o vestiário.

Me lembro do abraço, eu sem roupa nenhuma, do amigo Joilson Santana (já falecido), que chorava muito me agradecendo pelo “presente que nós havíamos dado ao seu pai, Bastos Santana”. Chorei junto.

Depois de 17 anos de sofrimento, o Alecrim Futebol Clube era de novo campeão estadual contra quase tudo e quase todos.

E eu fazendo parte desta história.

Ainda me lembro, na Praça Padre João Maria, todo o plantel e uma multidão nos acompanhando no pagamento de promessa. Eu já com meu filho Dimitri, de seis meses,

no colo, e ao lado de minha esposa Evânia, orando ao padre querido a quem tínhamos feito o pedido humilde do título.

Claro, Dona Aída, a mãe de santo de Brasília, já tinha recebido sua bolada e estava também festejando lá no se terreiro.

Jantares, festas bichos, gratificações, mais festas, abraços e foi assim.

No ano seguinte – 1986 – já sem os irmão Ribeiro, e com um presidente que não nos respeitava – Renato Cirilo – fomos bicampeões.

Mas essa, já é outra história.

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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