OPINIÃO

1924

Eveline Sin escreve às quartas-feiras na agência Saiba Mais

saudade do que me é chão. precioso quanto o silêncio. as veias de minha vó. montanhas na pele do tempo. seu jeito de pisar na terra. lentamente se esgueirar atrás de uma galinha. que pobre, dormiria no balaio. pra virar sangue. sangue que crescia toda família. mas ainda sim sangue. sangue que alimentava o barro. mas ainda sangue. por todas elas meus olhos fechados e minhas graças. também pelos pequenos rituais de admiração, idolatria e enigmas de minha vó. de tudo que vivi à beira da levada. do pé de pinha. da goiabeira. no cair de tardes. avançando o corpo na cadeira de balanço. saudades dos cheiros que ficam tingidos em nossas cabeças, quarando. o cheiro do feijão calado. de pendurados nas janelas das lembranças. os cacos de vidro nos muros que desenhavam o quintal. o chão cor de areia. o teto sem forro. a chuva nas telhas. os respingos na pele. todas as falas que me amaciaram a carne. me bordaram a alma. e me dão presença de manhã. “só sabe quem veve.” “quanto menos somos, melhor passamos.” “no chão cururu nos are arubu. só escapa quem avoa”. sigo escapando. avuando pelas palavras escritas nas paredes com caneta bic. anotadas num carderninho guardado na gaveta de panos de pratos do móvel azul da cozinha. o mesmo que sustentava o pote de farinha. eu lembro da farinha escorregando das mãos de minha avó na hora de engrossar o pirão. tão devagar. eu nunca esqueço da mão de minha avó. da unha. do cheiro de água rabelo mode as picadas de muriçoca. a carne que era sempre “muciça”. a certeza de ser de um povo, de ser quem se é. como a certeza afiada que todas as coisas que fiz, faço e farei são para meus avós, meu sertão de cabelos brancos.

luiza 1924

quando soube
que seu coração
estava fraco
o meu cambaleou.
quis cair em você,
entrar
corpo adentro.
caberíamos folgados,
o seu coração e o meu
na vastidão do peito seu.
é que pessoa como você,
forte com a vida,
gasta mesmo o coração,
quem sabe dois dão conta,
dão, num dão?
quando soube
que faltava ar pra você,
respirei cada vez mais forte,
pra guardar o máximo de ventania
que couber em mim
e soprar em você.
quando nos encontrarmos
vai ser como essas catástrofes naturais,
conheceremos a força dos ventos.
tudo preso aqui.
só posso respirar quando nos olharmos.
minha falta de ar
é todo ar que guardo pra você.
quando soube
que tinha água no seu pulmão,
pensei,
água procura mesmo jeito,
caminho
pra desaguar no mar
e você é esse mar inteiro,
cada vez mais cheio.
denso.
calmo.

calma,
meu mar.

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Eveline Sin é artista, poeta e grafiteira. Escreve às quartas-feiras.