CULTURA, ENTREVISTA

André Dahmer: “Pela situação do país meus colegas estão extremamente panfletários”

André Dahmer fez uma única exigência para conceder esta entrevista: não gravaria vídeo nem gostaria de ser fotografado. Conversando entre um gole e outro de cerveja, e sem a pressão de máquinas e flashes, é como um dos principais cartunistas do país se sente mais à vontade. Filho de pai jesuíta, Dahmer é autor de cartuns que viralizam praticamente todos os dias na internet. É o pai das séries “Malvados”, “As Aventuras do Homem Literal” e “A Menina que Recitava Comentários de Internet”. Aliás, o carioca é uma cria da internet, habitat que conheceu e aprendeu a desbravar. 

Em Natal para participar de uma mesa redonda em homenagem a Henfil, durante o Festival Literário de Natal, André Dahmer conversou com a agência Saiba Mais num bar da cidade. Participaram da entrevista o repórter Rafael Duarte, o advogado Gustavo Barbosa, fã do trabalho de Dahmer, e o cartunista Aureliano Medeiros, da série “Oi, Aure”, um dos principais nomes da nova geração do cartum potiguar.

Nesta entrevista, Dahmer fala da carreira, da relação com a internet e dos efeitos das contradições do mundo contemporâneo em seu próprio trabalho.

 

André Dahmer: Olha, é a primeira vez que um repórter vem me entrevistar já com um advogado…  

Agência Saiba Mais: (risos) Pode ficar tranquilo que não perguntaremos qual é o limite do humor para você…

André Dahmer: (risos) Pior que essa só quando perguntam de onde eu tiro inspiração. Falo logo: dos boletos. Quando os boletos começam a chegar a inspiração vem…

Começando…sua história com os quadrinhos começa já na internet ?

Um dia um crítico de quadrinhos veio me entrevistar dizendo que precisava escrever sobre a história do quadrinho na internet. Foi aí que eu descobri que o início foi em 2002, embora eu imaginasse que tivesse sido um ano antes. Eu não tinha blogs nem ferramenta de publicação, era em html e, em seguida, chegou o blogspot. Ia escrevendo em html e botando a imagem em JPEG. Então comecei com quadrinho na internet para escrever em html porque eu tinha um grande amigo na minha rua que falou pra mim: “olha Dahmer, isso aqui é internet”. Eu perguntei como é que funcionava. E ele explicou que o que eu quisesse publicar ficava lá para todo mundo ver. Era um tempo de ingenuidade tão grande que quando eu publiquei a primeira tirinha o Marco falou: “olha, já está na internet”. Eu falei: “é impossível, Marco. Acabamos de apertar o botão e todo mundo pode ver ?” Sim, todo mundo. Então saí da casa dele, fui para minha casa, abri meu computador por internet discada ainda e falei: “caralho, não é só no computador dele. Também está no meu!” Agora você imagina o nível de ingenuidade que a gente tinha. Você vê hoje esses blogueiros, vloguer, youtuber que já começam e querem ter um milhão de seguidores. A gente queria aprender.

 

Haviam outras pessoas desbravando os quadrinhos pela internet nessa época ?

Já existia uma geração de pessoas. Fui um dos primeiros a publicar quadrinho. Eu, o Arnaldo Branco, que também fazia charges… um dia ele me escreveu falando: “Dahmer, queria muito encontrar você” e ele virou meu melhor amigo. A gente tem empresa junto, temos um contador que a gente paga junto… mas esse momento 2002 e 2003, internet era mato mesmo. Uma noite sentamos eu e aquele meu amigo Marco e eu disse: você é biológo, né ? Então pega aí www.biologo.com.br. E ele pegou para ele esse endereço. E que nome você quer para você ? Ah, eu quero pintura.com.br. Se eu quisesse vender para a tinta Suvinil eu ganharia uma grana. E Malvados foi criado assim. Vamos pegar um nome curto, sem acento e sem cedilha. Ah, Malvados !

 

“Malvados”, primeira série criada por André Dahmer

 

Então você fez isso antes do Eduardo Cunha pegar todos o nomes da internet, como Jesus.com, por exemplo…

(risos) Ah, mas essa área era inexplorada. Por que gospel vende disco até hoje ? Porque os caras não sabem baixar música. No caso do Eduardo Cunha, dez anos depois, Jesus ainda estava disponível. Mas o Eduardo Cunha poderia estar ali, no início que nem eu, comprando domínios (risos).

 

Você já tinha uma visão empreendedora ali…

Comprei poucos. Comprei Malvados, achei interessante comprar também Malvado (no singular) e o Pintura. Mas poderia ter comprado todos. Sei lá, jazz.com.br. Alguns já existiam, como Brasil, sexo.com.br… Então quando o pesquisador me perguntou como eu tinha começado a fazer quadrinho, expliquei que foi ao contrário: eu queria aprender a linguagem que me interessava. E vi que poderia fazer tirinhas que é um meio rápido de ver.

 

O renascimento dos quadrinhos acontece de certa forma com a internet…

É incrível isso. O mesmo boom que teve nos anos 80 também aconteceu nos anos 2000 com essa geração do Sanchez, todas essas pessoas… a internet tem uma ligação muito estreita com esse boom de quadrinhos que começa em 2003, 2004, 2005. Você vê os nomes que tem aí… os jornais pararam de publicar Recruta Zero, Snoop, Charlie Brown, Garfield… que são quadrinhos muito bons, mas são do Syndicate que vendem para o mundo inteiro 30 quadrinhos por 50 dólares. E até aquele momento os jornais falavam: “vamos comprar porque é barato”. Só a Folha de São Paulo publicava quadrinhos nacionais. Mas hoje você abre os jornais do Rio de Janeiro, o Extra, o Dia… o Globo só publica quadrinhos brasileiros porque entendeu que é uma geração importante, essa é a verdade.

 

Você é formado em desenho industrial…

 É, mas exerci pouco tempo. Fui um infografista da editoria de Esportes do jornal Lance! E logo eu que odeio esportes, não tenho nem time de futebol. Quando me entrevistaram para o emprego, achava que era a chance da minha vida porque eu tinha acabado de sair da faculdade. O país estava numa crise econômica grande e o editor de esportes veio e perguntou qual era o meu time. Falei que eu era Flamengo porque achava que era a melhor opção que eu tinha. Aí depois descobri que ele era tricolor, entendeu ? (risos) Mas eu trabalhei pouco tempo nessa redação. Era um trabalho tão sofrido, tão maçante… lembro que trabalhava 12, 13, 14 horas. Teve uma Copa na Coreia (Japão/Coreia, em 2002) e disseram que eu ia que me foder porque era o mais novo. Fiquei até 2003 e fui embora, preferi ficar sem nada. Foi importante passar por isso para que eu entendesse que deveria fazer meu próprio trabalho. E esse meu chefe veio tentar me convencer a ficar, disse que eu estava há 14 meses sem férias e falou que era melhor eu tirar as férias antes de decidir. Aí mandei ele enfiar as férias no cu. Eu já estava fazendo quadrinhos há 4 meses e depois de um ano passando aperto, fazendo quadrinho e ilustração, que eu também odiava…

 

Por quê ?

É péssimo. Você entrega a ilustração aí o cara diz que não gosta de azul. Porra… então tem que ser eu mesmo, sem mando de ninguém, sacou ? Que me parece justo. Você fica a mercê do outro e da pauta. Aí te mandam fazer uma ilustração sobre automóveis. Só que eu não gosto de desenhar automóveis. Eu, inclusive, tenho um desenho muito pobre, estudei pouco desenho. Sempre fui uma pessoa de realizar as coisas do jeito que dá, sou autodidata. Então também falei: “foda-se”. Se eu tiver que vender cerveja na praia, nunca vão deixar de comprar cerveja, né ? Se você sair com uma caixinha de seis cervejas e um saco de gelo, no final do dia você vai poder comprar 18 cervejas. Aí no dia seguinte você fica sem comer e vai comprar 70 cervejas. É fácil sobreviver de uma coisa que você não gosta. Tem várias opções: matar alguém dá muito dinheiro, por exemplo. Eu tive exemplo em casa. Meu pai falava que o trabalho é para o prazer e não para o sofrer.

 

Seus pais tiveram alguma influência no teu trabalho ?

Meu pai é jesuíta. Ele só conheceu o mundo com 28 anos. Entrou no seminário com 6 e saiu com 28. Aí conheceu minha mãe num hospital, rezando junto. Minha mãe era muito do interior do Rio Grande do Sul e ficaram dois anos trocando cartas… no mês passado ele me entregou todas as cartas que ele havia escrito para minha mãe. Disse que eu poderia fazer o que eu quisesse com elas. Perguntei pelas cartas da minha mãe, mas ele disse que ela não quis entregar (risos). Mas isso mostra que era assim o amor platônico em 1970, um tempo em que você não podia ter alguns livros em casa. Era outro mundo, difícil de entender. Ao mesmo tempo a gente está vivendo de novo esse mundo agora. Artista sendo levado coercitivamente para depor porque fez arte. Isso a gente não vê desde os anos 60. Agora esse comportamento social é cíclico. Esse tempo duro de agora vai formar uma geração de jovens libertários. Você vai ver em 2020 essa geração de hoje dançando pelada nas festas, coisa que a gente não via desde os anos 60.

 

Para André Dahmer, vivemos um tempo com medo, mas que dará uma geração de jovens libertários

 

Que tempo é esse ?

É um tempo em que estamos vivendo com medo. Outro dia um amigo escritor disse que ia apagar tudo o que havia escrito na internet e ia embora para Portugal. Eu acho que não é por aí. Ainda falei para ele que escrever na internet é igual a xixi na piscina, não dá para voltar atrás. É um tempo muito escroto. E cara, eu não tenho… sempre me chamam de pessimista, mas não sou. Tanto que estou te dizendo que tem um lado bom isso que está acontecendo. Vamos formar jovens conscientes, de tão importante que a liberdade é, a liberdade de expressão. Mas que também não é irrestrita como muitos apregoam por aí. Você não pode sair por aí pregando o ódio contra minorias, está na Constituição Federal. Você pode se expressar sem anonimato e sem ferir o direito do outro. Agora fazer uma performance que já havia sido feita há 40 anos pela Lígia Clark e ser levado pelo Estado para se explicar… isso tudo é muito burro. Estamos vivendo a ditadura da burrice e da ignorância.

 

Qual foi o maior erro dos governos do PT ?

De verdade… os anos Lula que incluíram 25, 30 milhões de pessoas na classe média foram ótimos, maravilhosos… mas também não fizeram mais do que a obrigação como política de Estado. Também injetaram dinheiro na economia nas classe C e D. Só que não teve uma conscientização política aí. Acho que o maior erro do PT foi ter dado todas as condições para as pessoas ascenderem economicamente, fizeram muitas universidades, cursos técnicos… mas e o trabalho de base ? Na hora que os sindicatos passaram a ser governistas… na hora que as centrais sindicais passaram a distribuir sofás e geladeiras no dia do trabalho, algo se perdeu. E mesmo que seja o governo que você ajudou a colocar lá, é importante cobrar o tempo inteiro. Eu nunca deixei de cobrar. Acho que os anos Lula foram os melhores do país em vários sentidos, mas tem que cobrar os erros também. O Lula não teria conseguido esse ciclo sem ter escrito a Carta ao Povo Brasileiro, sem ter dito que ia governar também para os bancos e para a classe média. Agora também não precisava abrir mão da formação critica. Faltou isso. Essa raiva que tem no Brasil é a nova classe média, pessoas que foram beneficiadas, mas são ignorantes. Quem tem medo de comunismo no Brasil é ignorante.

 

Você imagina o PT ou o PSOL implantando o comunismo no Brasil ?

Eu assisto os vídeos do PCO uma vez por semana mais a título de curiosidade. Nem o PSOL nem o PT tem projeto de poder para fazer reforma agrária ampla e irrestrita. O PT é um partido de centro. Mesmo o PSOL, que hoje no Rio tem um tamanho significativo dentro da Câmara, por exemplo, não tem um projeto de revolução, é reformista. Essa coisa das pessoas que dizem temer que o Brasil vire uma Venezuela ou Cuba, isso é coisa de gente ignorante. O projeto de poder do PT desde o primeiro governo Lula não tinha nada a ver com isso.

 

 O alvo das suas tirinhas é a nova classe média ?

 Não gosto dizer que existe um alvo, mas o que deve ser discutido… veja que somos o país onde há o mito do povo alegre e cordial. E lembre que ano passado tivemos 65 mil homicídios de jovens e pobres. E 71% dessas mortes foram de negros. O sistema carcerário brasileiro tem hoje 700 mil pessoas, todos negros, pobres e jovens. Então quer dizer… aí vêm os idiotas dizendo que a solução para isso é dar uma arma para cada cidadão de bem. Não se fala em escola, em política de legalização das drogas… na verdade, o que está acontecendo no sistema penal é que a guerra às drogas faliu o sistema. Minha mãe trabalhava no sistema prisional do Rio de Janeiro e falava que nos anos 70 presídio de mulher só tinha crime passional, era a mulher que matava o marido dormindo. Hoje os presídios femininos estão lotados e os crimes também tem relação com as drogas. Sem falar que hoje são mais de 300 mil pessoas presas sem julgamento. É assim porque é só pobre e negro. A gente sabe do problema que já deu aqui no Rio Grande do Norte, no Espírito Santo, em Pedrinhas (Maranhão)… são cadeias medievais e não tem um político com vontade política para dizer que isso tem que mudar. Onde se mata 65 mil pessoas por ano ? Em qual país ? Em país de conflito armado pleno. Nem a Síria….

 

Como é que é traduzir essa revolta em tirinhas ? Sua última série “As aventuras do Homem Literal” e “A Menina que recitava comentários de internet” tem a ver com esse contexto…    

Sabe o que está acontecendo entre os quadrinhistas e cartunistas? Eu sinto que pela situação do país meus colegas estão extremamente panfletários, raivosos… e eu quero continuar leve e fazendo humor realmente. Porque eu acho que o humor é a melhor forma de você passar um recado dentro desse contexto. Mas meus amigos de profissão estão perdendo a cabeça. Eles estão fazendo com raiva ou com tristeza o trabalho. Longe de mim falar que não tem sentido. Tem sentido sim, mas não quero virar um artista que faz um trabalho de mensagem pura e simplesmente panfletário.

 

Da série “As Aventuras do Homem Literal”

 

 

Que quadrinhistas da nova geração têm chamado sua atenção ?

É uma pergunta injusta (risos). Tem muita gente… Mazô (Mariana Paraizo), o Andrício de Souza, o (Daniel) Esteves, absolutamente genial… é uma geração excelente, o Diego Sanchez, estão todos começando no momento de país perdido. O Diego está fazendo mais tatuagem do que quadrinhos porque dá mais dinheiro. É um país que poderia ser como na Europa e ocupar uma livraria inteira.

 

Mas hoje os cartunistas e quadrinistas não são mais prestigiados ?

É verdade, a gente nunca tinha entrado na livraria na Travessa e dado de cara com uma sessão de quadrinho sem estar na sessão de criança. Mas até hoje o país não conseguiu formar leitores. O Paulo Leminsk vendeu 120 mil livros agora, depois de muitos anos morto. O Brasil é uma merda de país. Temos romancistas muito bons. O Daniel Galera é um puta escritor e não vende 60 mil livros. Imagina os poetas.

 

Onde você quer chegar com seu trabalho ?

Eu quero… olha, o sucesso para mim é morrer dormindo. Minha grande ambição é fechar o olho e morrer dormindo, sem sofrer. Não quero morrer de câncer, queimado, afogado. De resto queria ficar mais tempo com minhas filhas e, se possível, com minha mulher, se ela me aguentar (risos).

 

Mas falando da sua arte…

Não quero mudar o mundo, virar nome de viaduto. Uso o meu trabalho de maneira egoísta para satisfazer as minhas angústias, minha maluquice… mais do que um projeto de guardar para o futuro. Você acha que algum quadrinista vai ser lembrado daqui a 400 anos ? Então é burrice pensar num projeto de futuro. No máximo você vai virar nome de praça, de rua. Depois vão destruir a praça, vai vir uma guerra e virá um novo regime que vai mudar o nome da praça. Meu trabalho é totalmente egoísta. É para me acalmar, me dá direção.

 

Levando em conta o tempo do medo e do ódio que vivemos hoje e você citou… o episódio do jornal francês Charlie Hebdo, onde chargistas e cartunistas foram assassinados por exercerem o mesmo trabalho que você, mexeu contigo ?

Claro que mexeu. Caras deram 120 tiros e mataram o Wolinsk (um dos principais cartunistas franceses do mundo). No dia da tragédia começaram a me ligar e falei que eu não queria falar nada. Eu não gostaria de ser assassinado por desenhar. Tem várias coisas no sistema com as piadas que eles fazem, mas assassinar uma pessoa… não acho legal, não acho uma troca justa. Poderiam responder por algumas piadas… não sei nem o que dizer. O Charlie Hebdo é um grupo francês onde a liberdade expressão é muito valorizada. É um caminho longo de discussão, mas pregar o ódio, não.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"