OPINIÃO

1º de maio, 13 de maio… algum deles é dia de negro?

Segue o bonde, segue o trem, segue o ônibus, o alternativo, segue a mulher chegando em casa depois da saga trabalho-estudos, ou trabalho-trabalho.

Dia 1º de maio foi usado para descansar, para ficar com a família, para pegar uma praia, para fazer faxina, para fazer o almoço da semana, para visitar a tia doente, para trocar o turno do parente que está como acompanhante no hospital. Afinal, é para isso que serve esse feriado, assim em meio de semana, não é mesmo?

O Dia do Trabalhador vem carregado de pouco orgulho e o gosto amargo das últimas derrotas, especialmente para as mulheres negras. Segundo dados do Dieese (2015), as mulheres negras brasileiras recebem cerca de 48% a menos que os homens brancos, sem contar que é esse o grupo com maior taxa de desemprego. A perspectiva de seguridade social é baixa e tímida, com regras da Previdência a continuar suas alterações maléficas.

E isso tudo logo depois de conquistas importantes, como a Lei da Empregada Doméstica (2015), onde finalmente registrava questões mínimas, como jornada de trabalho não superior a 8 horas diárias, registro de Carteira de Trabalho (CTPS), piso salarial, seguro contra acidentes, horas extras, entre outras. Ou seja, mulheres deixando de ser mucamas. Trabalho, por vezes escravo, sendo reorganizado. Isso provocou rangeres nas estruturas e incomodou a branquitude. Talvez tanto ou mais quanto a Lei de Cotas no Serviço Público, criada em 2014, mas que precisou ser validada pelo Supremo Tribunal Federal em 2017 como constitucional para poder ser amplamente reconhecida. Afinal, é difícil ter que aceitar que 20% das vagas de concursos mais concorridos do Brasil, como Juiz Federal, Procurador da República, Diplomatas, Auditores, etc, terão que ser destinadas à pessoas negras. Não vamos nem relatar aqui a resistência sofrida por essa lei, vide a resistência que persiste até hoje da Lei de Cotas no Ensino Superior (2012), mesmo 15 anos depois das primeiras experiências na Universidade de Brasília. Parece ainda ser muito difícil reconhecer a presença negra nos espaços públicos de poder.

Nada espanta ao povo negro depois da falsa abolição em 13 de maio, chamado por Abdias Nascimento (ícone do Movimento Negro e ex-Senador) como “mentira cívica” porque colocou o Brasil na História como último país do mundo a promover o fim do período escravocrata. Porém, no período que a lei entra em vigor, menos de 5% da população negra era escrava, e a benevolência da Princesa Isabel caminhou mais na direção de um ato de auto-redenção da população branca, do que qualquer aparente compromisso com a população negra. Sabemos o que se desenrolou a partir de então: nenhum investimento na promoção de direitos aos negros e negras – pouco ou nenhum investimento em educação, moradia, saúde e muito menos qualificação profissional para retomarmos o tema do trabalho, o que fez o povo negro ocupar os postos mais subalternizados, com poucas possibilidades de crescimento, pois desde ali o racismo institucional já imperava, mesmo sem ser assim nomeado.

Temos então um mix de datas significativas e que nos faz refletir sobre tudo isso. Aqui temos intenção de fazer balanços, mas de por o assunto na roda para ser debatido. Se o trabalho é uma categoria que estrutura a sociedade, em nosso entendimento, o Racismo também nos parece óbvio que um está intimamente conectado ao outro, desde que maio é maio nesse país. Mas não tem sido motivo para deixar que ocupemos todos os espaços possíveis, e os que dizem que não são possíveis para nós também.

 

Leia outros textos do coletivo As Carolinas:

Mulher negra ! 

Meu cabelo veio da África

Carolina ecoa em nós

Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *