OPINIÃO

Prêmio Hangar de Música 2017

Anúncios

Já defini em outro texto neste espaço, a noite de Natal como um “deserto de possibilidades”. Claro que se tratava de uma observação um tanto exagerada e que só pode ser compreendida comparativamente. Quando se pensa nas pretensões de Natal como uma capital turística é que fica plena minha afirmativa, afinal cidades turísticas devem se comprometer em construir variadas opções de lazer e cultura, não só para seus visitantes, como para seus habitantes usuais.

Então, quando comparamos a noite natalense que não dura de segunda a segunda, mas  vive de uns fins de semana mirrados aqui e ali, com cidades que levam a sério seu potencial turístico como Belo Horizonte, Rio de Janeiro ou Salvador, percebemos o quanto faz a diferença o empenho do poder público de fato na construção da estrutura física (estradas, segurança, opções de roteiro, valorização financeira dos artistas), bem como atue no estímulo à produção de eventos, festivais, atividades artístico-culturais as mais diversas para se construir uma cultura da diversão, do lazer, do consumo de cultura em geral que produza o ciclo virtuoso da prosperidade econômica e da riqueza das trocas culturais que podem advir de tais iniciativas. Afinal, o visitante deixa não apenas suas possíveis críticas e elogios ao lugar, mas acima de tudo deixa dividendos no comércio, nos serviços locais, algo que não parece óbvio para os  gestores públicos tacanhos dessas bandas elefânticas.

Para quem acha que não dá para comparar Natal com as cidades que acima citei, devido às proporções demográficas absolutamente discrepantes entre tais, gostaria de lembrá-los que João Pessoa fica ao lado, é uma cidade demograficamente menor, mas que ferve de cultura num nível desconhecido entre nós.

Quando critico nosso poder público, e mesmo a estreiteza da falta de visão da maioria do nosso empresariado que segue sem investir em cultura para concluir que a noite potiguar é um “deserto”, não quero com isso jamais desvalorizar artistas, produtores culturais e todos aqueles que trabalham e ralam pela cultura potiguar, muito ao contrário, ao demonstrar a inércia dos poderes locais estabelecidos para com a temática, viso justamente supervalorizar o esforço daqueles que insistem em fazer cultura nesse “deserto”.

Anúncios

É nesse contexto que gostaria de tirar meu chapéu para meu querido Marcelo Veni e toda sua equipe, responsáveis na noite de terça desta semana, dia 28 de novembro, pela 15º Edição do Prêmio Hangar de Música, que esse ano com toda justeza decidiu homenagear a mãe, a diva, a rainha do Rock brasileiro Rita Lee, por ocasião de seus 70 anos, uma das mais longevas e mais bem sucedidas carreiras femininas da história da MPB.

Com  sua primeira edição ainda no apagar de luzes do século XX, 1999, o Prêmio Hangar de Música, nesses quase 20 anos de existência, inscreve-se na história da produção cultural potiguar, nordestina e mesmo nacional, como uma importante referência, um espaço de diversidade cultural e criatividade permanentes, onde o devir cultural, a pulsão da criação, se reúnem para celebrar a beleza de suas realizações numa linda noite festiva, regada ao primor e competência técnica que caracterizam, desde há muito, o trabalho de Marcelo e dos seus.  Portanto, antes que eu me esqueça, dos técnicos aos músicos, dos realizadores aos assistentes, parabéns a todxs envolvidos.

Conheci Marcelo Veni no hoje já longínquo ano de 1993. Junto com Patrícia Farias e Wescley Mariano, fizemos um Grupo de Teatro e de discussão política, com direito à jornalzinho próprio e tudo, o polêmico “Telecotecodubalacubaco”. O periódico fazia uma crítica bem humorada da situação  da escola na época, o tradicional Instituto Padre Miguelinho. Hoje ao contemplar o lugar que cada um de nós ocupa nas suas respectivas carreiras, muito me orgulha constatar, como disse meu caro Wescley, que “a gente deu certo”.

Acompanhei o processo de constituição de Marcelo Veni num dos maiores, mais prestigiados e proeminentes produtores culturais do RN, e diria mesmo do Nordeste,  através das bem sucedidas experiências  que ele teve como organizador e apresentador das hoje saudosas  gincanas  estudantis  – uma experiência política de ludicidade e filantropia que me parece fazer falta hoje nas vivencias estudantis atuais.

Contando em seu curriculum com uma graduação em Administração e outra em Gestão  Pública atualmente em curso, trata-se de um profissional com 20 anos de experiência que não deixa cair a peteca das atividades culturais no RN, e mesmo fora dele, sempre com uma bandeira quase que ideológica no sentido de favorecer, promover, divulgar a arte e o artista potiguar. Exemplos maravilhosos dessas ações são o baile e desfile das Kengas, hoje dos mais tradicionais blocos de carnaval de Natal – onde se destaca a reverência e a militância em favor da cultura LGBT, além do projeto  “carnaval outros sons”, que vem sendo realizado desde 2010.

Oferece também Marcelo em seu cotidiano assessoria cultural para artistas, grupos, empresários interessados na cultura em geral, elaboração de projetos, captação de patrocínios, agenciamento e produção de bandas, intérpretes, dentre outros. Contou com a credibilidade que goza no meio artístico local para representar a classe entre 2007 e 2009 no conselho municipal de cultura de Natal, além de coordenar a produção de eventos da CUFA (Central Única das Favelas do RN. Realizou também entre 2010 e 2012, num árduo esforço de revitalizar um dos espaços de boêmia mais tradicionais de Natal – o beco da lama, o projeto “Beco musical”. Sendo responsável também pela exposição de arte urbana “Arraiá do Zé Roqueiro, pelo  festival “Rap Representa” e o prêmio e concurso Dosinho de marchas de carnaval cuja próxima edição está marcada para 9 de fevereiro de 2018. Além de todo esse extenso curriculum, Marcelo também ministra palestras em escolas e comunidades versando sobre os dilemas da produção cultural.

Graças a atuação de Veni na divulgação e lançamento de novos artistas, dentro e fora do RN, na produção de shows e espetáculos  locais e nacionais, na realização de seminários de formação, Marcelo Veni, em especial através do Prêmio  Hangar de Música, tem se constituído num verdadeiro baluarte da cultura do RN. Projetando o Prêmio  Hangar como uma respeitada premiação do calendário cultural nacional, se refletindo no alcance e repercussão cada vez maiores da premiação que já honrou com homenagens os nomes de Chico Elion, Glorinha Oliveira, Mirabô Dantas, Giliard, Fernando Luiz, Teresinha de Jesus, Lia de Itamaracá, Sandra de Sá, Belchior e na edição atual, Rita Lee.

Por falar na atual edição, os grandes vencedores da noite foram minha cara Valéria Oliveira,  premiada como intérprete e disco do ano; Far From Alaska, que levou os prêmios de banda e show do ano; Simona Talma, reconhecida como letrista-compositora do ano; e Plutão já foi Planeta que levou o prêmio pela melhor musica do ano, além da Pablo Vittar potiguar” Kaya Konky, que ganhou pelo melhor vídeo clipe do ano. Não podemos também deixar de citar o trabalho do produtor musical do ano – Gabriel Souto e a categoria especial de homenagem pela trajetória que coroou os 40 anos de carreira da nossa querida Dodora Cardoso. Por fim, destaco as referências aos prêmios Hangar nacional – Jhonny Hooker e, Nordeste – Baiana System.

O show da noite que tomou a obra de Rita Lee como referência de constituição foi primoroso, desde a linda da Analuh Soares e o Rafael Barros com “Amor e sexo”, passando por “Balada do louco” na voz de Nara Costa, continuando com  uma linda e glamourosa performance de Rodolfo Amaral com “Caso sério” e “Desculpe o aue”; chegando à “Erva Venenosa” com Jaina Elne. Por fim, a impagável performance de Dodora Cardoso com “Ôrra meu”, contemplando a pegada do Rock com “Papai me empresta o carro” na  voz do Shilton Roque.  E até me arriscaria a definir como o auge da noite a performance de Sueldo Soares com “Ovelha negra”, sem falar, claro, na maravilhosa da Badu Morais – uma das mais espirituosas presenças de palco que já vi,  além de demais performances às quais me falta espaço nessa coluna para contemplar.

Aos que querem rever ou ver pela primeira vez, basta acompanhar a estreia da parte musical do Prêmio Hangar de Música 2017 no formato de um espetáculo tributário da Rita Lee a ser apresentado a partir de 2018, no Teatro de Cultura Popular de Natal, em datas a definir. Mas antes, podemos prestigiar o Tributo a Rita Lee, a ser realizado pela equipe do Hangar, agora no próximo 3 de dezembro às 16h30, no parque das Dunnas, como parte do projeto “Som da mata”.

Parabéns a Marcelo Veni e toda sua equipe, o Prêmio Hangar de Música 2017 já ficou para a história, já marcou, e me deixou com saudades. Que bom que tem de novo. Com novo tema e eu, aqui na torcida, pela Clara Nunes, em 2018.

Artigo anteriorPróximo artigo
Avatar
Historiadora e Militante LGBT