OPINIÃO

Como matar o que se alimenta de esperança?

João Victor escreve aos sábados

Às margens de uma rodovia movimentada na gigantesca região metropolitana da capital paulista, barracos de lona preta enfileirados em 19 grupos formam a maior ocupação urbana do país. No chão de terra brotou não só a luta pelo direito à moradia, mas uma esperança real, palpável, de um mundo diferente desse, um mundo mais igualitário e justo. Como pode tanta esperança caber em alguns hectares de terra?

Enfrentando tantas pressões, a serenidade e a certeza, captada no olhar, dos trabalhadores que formam a Ocupação Povo Sem Medo impressiona,  e talvez isso aconteça porque estamos também cedendo a uma leitura impressionista de que nós, que escolhemos espaços progressistas para lutar,  estamos nas cordas, respirando oxigênio rarefeito e  que o conservadorismo vai conseguir engolir nossa existência nessa terra com tanto chão e com tão poucos donos. A verdade é que eles nunca conseguiram e nunca conseguirão.

Tentam nos colocar na prisão, matam nossos iguais, perseguem nossas famílias, mas por décadas não conseguiram apagar a centelha que queima nos corações revolucionários, essa que insiste em superar esse mundo perverso e que não aceita se conciliar com ele. Nesta semana, tive a oportunidade de conhecer experiências socialistas e revolucionárias nos EUA, México, Venezuela, Espanha, Chile e em diversas partes do Brasil. E em todas as falas dos companheiros, a certeza que a barbárie provocada por esse sistema, que celebra a desigualdade como sucesso, é algo comum a todos esses lugares, mas que a resposta desses lutadores nunca é o medo, mas sim ainda mais vontade de lutar.

E é isso que mais deve angustiar os que controlam o sistema: depois de tudo que foi tirado dessas pessoas, porque eles decidiram continuar lutando? Esqueceram que eles não lutam apenas por agora, lutam por um outro mundo, pela memória dos que vieram antes e para garantir uma história para os que ainda vão nascer.

E nesse momento se percebe uma ligação muito forte, invisível aos olhares destreinados, onde trabalhadores que nunca se viram, homens e mulheres que talvez nunca se conheçam, compartilham de uma mesma vontade e são alimentados pela mesma esperança. Se levantam em Hong Kong contra a falta de democracia, na Catalunha lutam por liberdade, no Chile pelo acesso à educação pública, no México contra o autoritarismo de estado que mata estudantes e trabalhadores. Tem nomes diferentes, histórias diferentes, vidas diferentes, mas estão unidos pela vontade perigosa de resistir.

E quanto mais pervertem a ideia de que existir na esquerda é algo equivocado, ultrapassado, mais as pessoas decidem questionar um sistema que prometeu tudo para elas, mas só conseguiu entregar migalhas e medo. Colocar para as pessoas uma distorção do que é lutar à esquerda, confundindo a luta dos trabalhadores com alguns poucos que usaram dessa luta pra se conciliar com o poder, é muito funcional para quem quer manter seus privilégios.  Mas não aceitem os que olham para nós com olhar de derrota.

O pessimismo, para mim, é uma ferramenta da direita, e para nós ele de nada vale. É uma trave que impede enxergar o tamanho da nossa luta e quantos lutam junto com a gente.  Existirão dias que estaremos suscetíveis a acreditar que diante de tantos ataques estamos perdidos, andamos sozinhos. Contudo, esses dias logo passam e percebemos que nada consegue matar o que se alimenta de esperança para sobreviver.

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Jornalista e militante de direitos humanos