OPINIÃO

2020 e as catástrofes de quinto grau

A vida é, sem sombra de dúvida, contínua, e jamais, desde que apareceu, há mais de 3 bilhões de anos, deu qualquer sinal de uma interrupção absoluta. A cada momento de todo esse tempo, a Terra parece ter sido ocupada por coisas vivas em rica profusão (…)

 Onde, no entanto, existe a possibilidade de uma doença, de algum modo, transferir-se de um ser humano para outro, e onde sua ocorrência num único indivíduo pode levar à morte de, não um, mas milhões de outros também, aí está a possibilidade da catástrofe.

Isaac Asimov

Em seu livro “Escolha a Catástrofe”, curiosamente, o bioquímico e escritor de ficção-científica russo-estadunidense Isaac Asimov (1920-1992) relaciona diversas probabilidades de destruição do planeta Terra. Como consequência, a maioria dessas tragédias resvalaria na possibilidade de extinção da raça humana.

A publicação norte-americana é de 1979, a edição brasileira de 1982, a minha leitura dele foi em 1997, é fácil encontrá-lo gratuitamente na internet agora em 2020.

No livro, as palavras apocalipse, colapso, destruição e catástrofe alternam-se para explicar como a vida poderia ser exterminada de acordo com cinco graus de gravidade de destruição. Mas vejam que catástrofe, em grego, quer dizer apenas “mudança súbita de expectativas”, algo parecido com “virar de cabeça para baixo”.

Percebam que é possível que em “Escolha a Catástrofe” haja algumas informações defasadas – e até delirantes – mas o que importa aqui é o seu interesse histórico. A princípio, a edição foi criada para a mera divulgação científica. A partir dele, Isaac Asimov passou a inspirar cientistas e artistas em temas os mais diversos sobre “futurismo”: ficção científica, literatura, artes visuais, atualmente bastante comuns, com temáticas complexas em linguagem mais acessível até às crianças, disponíveis em vários canais no Youtube.

À época de sua divulgação, “Escolha a Catástrofe” foi testemunha de um aumento na paranoia coletiva sobre o fim da vida na Terra. Lembrem-se que um dos eventos mais cruéis da humanidade na história contemporânea aconteceu em 6 de agosto de 1945, o bombardeio atômico terrorista às cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. A partir de então, provavelmente adentramos no período da Guerra Fria (1945-1992). Coincidentemente, Isaac Asimov viveu e construiu a sua literatura exatamente entre as décadas de 1950 e 1990.

Em “Escolha a Catástrofe” as cinco categorias que Asimov apresenta dependem, entre outras coisas, da velocidade dos desdobramentos de seus efeitos. Nas três primeiras categorias os eventos são lentos e irreversíveis, contra os quais hoje sequer poderíamos utilizar a tecnologia atual em nosso socorro. Nas duas últimas categorias os efeitos catastróficos seriam muito rápidos, porém, caberia ao ser humano evitá-los, mas com grandes esforços de cooperação.

As catástrofes do primeiro grau seriam aquelas que as culturas ancestrais reconhecem como a batalha final decisiva entre luz e trevas, relacionadas às concepções sobre o juízo final bíblicas, apocalípticas e milenaristas: nas ciências, elas são traduzidas como aumento da entropia, a segunda lei da termodinâmica, a teoria do caos e os buracos negros, dentre outros temas.

As catástrofes de segundo grau estão relacionadas aos fenômenos lentos e inevitáveis, como a própria morte do Sol. Da mesma maneira, as catástrofes de terceiro grau que podem ser controladas pela ciência. A partir das catástrofes de quarto grau percebe-se que a maioria delas pode ser controlada, provocada ou mesmo agravada pelas ações do ser humano: desde o aumento do calor no planeta às alterações genéticas.

Nas catástrofes de quarto grau estão as guerras e as doenças infecciosas coletivas, as pandemias: “o que se interpõe entre tal catástrofe e nós é o novo conhecimento que adquirimos no último século e meio sobre as causas das doenças infecciosas e os métodos para combatê-las”.

Finalmente, as catástrofes de quinto grau seriam aquelas decorrentes das atividades criadas pelos próprios seres humanos que tenderiam à redução e, provável, extinção da espécie humana: o esgotamento dos recursos renováveis, a extinção de alguns metais, a poluição, o gasto de energia para a reciclagem de materiais, o uso da energia atômica, o excesso populacional, o envelhecimento da população e a baixa taxa de natalidade, os excessos da tecnologia, a inteligência artificial confrontando a humanidade.

Na década de 1970, Isaac Asimov já imaginava o que hoje seria a internet, a rede mundial de computadores, e o uso das novas tecnologias na educação, ao que ele chama no livro de “método de educação por computador” que “certamente não se restringiria a determinada faixa etária”. Esse novo formato seria usado pelas pessoas dentro de suas casas, sem limite de idade, favorecendo os novos interesses que seriam “despertados, talvez, aos sessenta anos”.

“Se nos comportarmos racional e humanitariamente; se nos concentrarmos objetivamente nos problemas que afligem toda a humanidade, em vez de emocionalmente em assuntos do século XIX, como segurança nacional e orgulho regional; se reconhecermos que não é nosso vizinho o nosso inimigo, mas sim a penúria, a ignorância e a fria indiferença da lei da selva — então poderemos solucionar todos os problemas que se nos defrontam. Podemos deliberadamente escolher não assistir a qualquer catástrofe. E, se fizermos isso durante o próximo século, poderemos nos espalhar pelo espaço e perder nossa vulnerabilidade.”

Então haveria um antídoto contra as catástrofes? Segundo Isaac Asimov, sim, a criação de uma nova utopia humana. Esta nova utopia criada no século XXI se daria em no mundo em que “as rivalidades nacionais seriam esquecidas e a guerra, abolida”. Seria um lugar em que “a raça, o sexo e a idade perderiam sua importância numa sociedade cooperativa de comunicação, automatização e computação avançadas”. Enfim, seria “um mundo de energia abundante e tecnologia próspera”.

Acredito que Isaac Asimov teria boas surpresas agora em 2020, muitas informações novas para a sua lista de catástrofes do quinto grau. De cara eu já diria que ele poderia inserir umas boas páginas sobre o uso das novas tecnologias digitais, os crimes cibernéticos, a energia consumida pelas criptomoedas, a disseminação de notícias falsas, as agruras do modelo democrático, os tribunais internacionais racistas, sem esquecer que, no tempo em que vivemos agora há uma nova guerra fria, com corrida espacial e tudo, dessa vez entre os EUA e a China.

 

 

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Gilmara Benevides
Gilmara Benevides é doutora em Direito, interessada em história e relações culturais internacionais.

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