CIDADANIA

UFRN avança na pesquisa com psicodélicos

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou na quarta-feira (22) que simplificou a importação de medicamentos à base de canabidiol, substância química encontrada na maconha e usada em tratamento de saúde. A decisão desobriga a necessidade de laudo médico e facilita a compra desse tipo de componente usando apenas a prescrição médica. A notícia é boa para quem precisa do remédio, mas ainda está na contramão da ciência e da tecnologia nacionais, que poderiam produzir o canabidiol aqui mesmo.

O Instituto do Cérebro da UFRN, por exemplo, realiza pesquisas com canabinóides em modelos de autismo, tinitus e distúrbios emocionais. Há pelo menos cinco anos, o Laboratório de Redes Neurais e Epilepsia, coordenado pelo neurocientista Claudio Queiroz, estuda também os efeitos anticonvulsivantes da maconha. Sua equipe multidisciplinar tem desenvolvido protocolos e criado preparações capazes de atenuar sinais e sintomas das epilepsias em modelos animais.

Experimentos realizados durante o doutorado do estudante Igor Sales observou que baixas doses de extratos ricos canabidiol (CBD), mas com quantidades significativas de tetraidrocanabinol (THC), atenuaram convulsões de longa duração na mesma proporção que as drogas tradicionalmente autorizadas para esse tipo de tratamento. Nessa fase, os experimentos concentraram no gerenciamento do estado epiléptico, uma emergência médica de difícil controle. “No momento, estamos analisando o efeito de extratos com diferentes proporções de CBD e THC na atividade eletrográfica de animais cronicamente epilépticos”, acrescentou Claudio Queiroz, orientador da pesquisa.

Para conseguir esses resultados, o Instituto do Cérebro desenvolveu e padronizou um protocolo de extração que envolve o processo de cura, secagem e moagem da inflorescência, descarboxilação e extração dos canabinoides, além da redução, estabilização e diluição do extrato da cannabis. Também criou protocolos capazes de aferir as concentrações de três dos principais canabinoides (THC, CBD e CBN – canabinol), fundamentais para o estabelecimento de regimes terapêuticos e posologia. Agora, o Instituto busca apoio para realização de protocolos capazes de detectar presença de contaminantes (microbiológicos, metais pesados e solventes).

O neurocientista Claudio Queiroz orienta e realiza pesquisas com canabinóides (foto: divulgação)

Como pesquisa científica não é feita isoladamente, esse trabalho é acompanhado e recebe colaboração de gente daqui e de fora. Pesquisadores de instituições nacionais e internacionais, universitárias e da iniciativa privada visitam o Instituto do Cérebro para colaborações científicas e de formação. Entre essas atividades, destacam-se uma série de debates e oficinas realizadas ao longo dos últimos anos, permitindo o intercâmbio de informações entre pesquisadores, médicos, pacientes e sociedade civil de todo o Brasil e de outros países.

Para Claudio Queiroz, como essa é uma área recente, o fato de o ICe estar desenvolvendo estudos nessa direção coloca a UFRN na vanguarda desse tipo de pesquisa no cenário internacional. “A vantagem é que, caso se consiga aprofundar nesse tipo de experimentação, a UFRN vai poder disputar a liderança nessa área de conhecimento e isso é muito vantajoso, pois possibilita que a Universidade possa colher bônus e dividendos associados ao desenvolvimento de fármacos e formulações e, até mesmo, no fornecimento de medicamentos para a sociedade. Mas, para isso, é preciso que haja um avanço na legislação que possibilite esse tipo de produção e inovação em território nacional”, acrescenta o pesquisador.

Infelizmente, o Instituto é um dos poucos os centros brasileiros dedicado ao estudo dos canabinóides e das substâncias psicodélicas em geral, considerando o potencial terapêutico dessas substâncias. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), as evidências científicas apontam que pacientes com esclerose múltipla, depressão, doença de Parkinson e transtorno de ansiedade, poderiam se beneficiar dos canabinoides.

Um dos principais motivos para isso, segundo Claudio Queiroz, continua sendo a questão legal e suas barreiras que dificultam o acesso dos pesquisadores a essas substâncias. Outro aspecto, na visão do neurocientista, é o total desconhecimento das pessoas – principalmente profissionais de saúde – em relação ao potencial dessa planta e seus derivados. “Por ser uma área de investigação recente, poucos ouviram falar do sistema endocanabinóide durante a sua formação e, comumente, tratam o assunto com pouca seriedade, muitas vezes com preconceito ou com visão distorcida sobre os potenciais das substâncias psicodélicas na saúde”, acrescenta.

A autorização de registro de medicamentos produzidos com cannabis pela Anvisa é uma pequena vitória numa luta que se arrasta há anos, mas como o plantio continua proibido no Brasil, os grupos de pesquisa continuam dependendo de insumos produzidos lá fora, muitas vezes a preços muito altos. Além disso, é preciso uma autorização especial da Anvisa para realizar pesquisa e inovação com a cannabis. Quem ganha com essa burocracia são as empresas de representação que começaram a se instalar por aqui para aproveitar o grande mercado que se abre e fortalecer as empresas e instituições de pesquisas estrangeiras.

O receio de Claudio é que a demora do Brasil em perceber o que EUA, Canadá e países da Europa já perceberam o faça ficar para trás. “Enquanto lá fora permitem o acesso a essas substâncias, assim como a todo um conjunto de equipamentos e insumos específicos para realizar esse tipo de pesquisa, aqui, além de não termos financiamento, ainda temos os entraves legais. Assim, corremos o risco de ficarmos para trás nessa corrida em busca do uso de psicodélicos em saúde. Minha preocupação é que essa diferença só cresça a ponto de, no futuro, não sermos mais capazes de alcançar o resto do mundo”, pondera.

Ayahuasca

Claudio Queiroz não é o único a pesquisar os psicodélicos na UFRN. O Centro de Biociências (CB) também tem testado o efeito de algumas substâncias em mais de um tipo de modelo animal. No Instituto do Cérebro mesmo, os laboratórios dos neurocientistas Rodrigo Romcy Pereira e Katarina Leão demonstram interesse na pesquisa com a cannabis. Recentemente, o laboratório de Richardson Leão realizou experimentos com a dimetiltriptamina (DMT) e o vice-diretor do ICe, Sidarta Ribeiro, apresentou resultados com o uso de Dietilamida do Ácido Lisérgico (LSD).

Outro estudo em destaque no ICe envolve a ayahuasca. Conhecida popularmente como “chá do santo daime”, essa infusão, feita a partir de uma combinação do cipó jagube e o arbusto chacrona, duas plantas amazônicas, é uma bebida utilizada para fins de cura e rituais espirituais pelas populações indígenas, mas seus efeitos foram comprovados com muita eficiência na redução dos sintomas da depressão e até no risco de suicídio.

Os neurocientistas Dráulio Araújo e Fernanda Palhano realizam pesquisa com Ayahuasca (foto: divulgação)

A pesquisa, que vem sendo desenvolvida desde 2006 pelo laboratório Neuroimagem Funcional, coordenado por Dráulio Araújo, demonstra que a ideação suicida dos pacientes estudados diminuiu já no primeiro dia após o uso da ayahuasca, se mantendo baixo até sete dias após a intervenção. Em tratamentos convencionais, esse efeito começa a aparecer depois de no mínimo 15 dias e não se mantém sem novas doses.

Para Dráulio Araújo, a maior parte dos estudos entende que talvez substâncias psicodélicas possam ser arriscadas, mas o que se observa é exatamente o contrário. “Embora seja um dado preliminar, além de não aumentar o risco de suicídio, o uso da 7 oferece melhoras significativas aos pacientes estudados. Nenhum deles piorou dos sintomas de depressão ou do nível de suicidalidade”, reforça o pesquisador.

LSD

O neurocientista Sidarta Ribeiro confirmou em pesquisa que o LSD tem eficiência contra perda de memória (foto: divulgação)

Um dos neurocientistas em evidência no Brasil, Sidarta Ribeiro é conhecido por suas pesquisas envolvendo sono, sonho e memória. Mas ele é também um defensor das pesquisas com psicodélicos, principalmente a cannabis, e tem apresentado diversos estudos que comprovam os efeitos benéficos dessas substâncias. No final do ano passado, ele colaborou em um artigo que demonstrou que o LSD tem eficiência contra a perda de memória.

Testes realizados em ratos jovens, adultos e velhos, a partir de proteína produzida em organoides cerebrais (mini cérebros) submetida ao ácido, concluiu que houve melhora no aprendizado graças ao aumento das sinapses. Coordenada por Sidarta e pelo neurocientista Stevens Rehen, da UFRJ, a pesquisa mostra que roedores jovens e adultos tiveram melhor desempenho quando submetidos a doses de LSD antes das tarefas. Nos ratos mais velhos, o resultado foi melhor quando foram expostos a ambientes com objetos novos.

O aumento de novas conexões neuronais é essencial para a fixação da memória e da cognição, por consequência. A perda de memória tem ligação com a idade e com doenças neurodegenerativas, e o estudo mostra que o LSD ajuda a estimular o aprendizado. Além disso, a pesquisa mapeia as vias metabólicas subjacentes a tal efeito e mostra, pela primeira vez, que o ácido modula proteínas sinápticas em neurônios humanos.

 

 

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