OPINIÃO

Aliança eleitoral MDB e PT no RN: a velha encruzilhada de volta

A possibilidade de uma aliança entre o PT e o MDB, aqui no RN, já causou urticária em muita gente, assim como a provável aliança entre Lula e Alckmin, ex-PSDB, e membro da famigerada Opus Dei. A tendência natural é explodir de ódio e raiva e, de imediato, tachar Lula e Fátima de “traidores”, algo muito comum na chamada “esquerda”, e não estou me referindo às seitas revolucionárias, para as quais só os “monges vermelhos” têm acesso ao “céu comunista”. Essas vivem em permanente delírio.

O MDB, de fato, é objeto de raiva de ódio por parte de muita gente, inclusive da direita. Seu “comportamento” político, sempre pragmático, é uma característica de um partido que nasceu como “não-partido”, já que foi criado artificialmente pela Ditadura, em 1965, para ser o “partido de oposição”, transformou-se num “grande partido”, na década de 80; em seguida virou partido do governo, seja ele qual for e sempre dividido, o que se verifica até hoje.

Partido de natureza camaleônica, mas com o veneno dos escorpiões, o MDB merece uma especial atenção, inclusive porque, no caso do RN, é um partido típico das paragens locais, visto que é mais uma formação centrada em grupos familiares e basta lembrar que o MDB do RN nasceu depois que os Alves foram expurgados da ARENA, a mando de Dinarte Mariz. O MDB local nasceu, portanto, “aluizista” e boa parte da sua tática eleitoral foi para garantir os membros da família Alves nas instâncias parlamentares.

Não foi à toa, que em 1978 produziu-se um acordo chamado de “paz pública”, em que o MDB “aluizista” fez um acordo com o então governador Tarcísio Maia, que na época estava em rota de colisão por aquele que expulsou Aluízio da ARENA, Dinarte Mariz. Tarcísio e Aluízio fizeram a “paz” com o bordão que se tornará um mantra para os “senhores do poder”: “em primeiro lugar o RN”.

E o “acordão” fritou um candidato ao Senado pelo MDB, Radir Pereira e, em troca Aluízio colocou Geraldo Melo, na chapa de Lavoisier, como vice-governador. A cena política, a partir de então, ficou restrita a uma disputa entre a família Maia e Alves, com os membros das famílias se distribuindo pelas legendas, de acordo com os interesses políticos, em cada eleição.

Em 1990, por exemplo, os Alves apoiaram Lavoisier Maia, então no PDT, e parte dos Maia acabaram elegendo Garibaldi Alves Filho, sobrinho de Aluízio Alves, para o senado. Quatro anos depois os Alves cruzaram os bigodes com os Maia. E Garibaldi, que em 1990 apoiara Lavoisier, agora o enfrentava. Lavoisier fora recebido de volta no PFL dos Maia, mas Agripino foi para o Senado. Vejam como as famílias sempre dominaram a cena política.

Nas eleições de 2002 e 2006, Alves e Maia, permaneceram unidos para enfrentar uma dissidente dos Maia, Wilma de Faria e em 2010, com o PMDB abdicando da disputa pelo governo, Garibaldi e Agripino Maia, os dois chefes supremos dos Alves e Maia, foram eleitos senadores. E em 2014 novamente os Alves e Maia se uniram contra o vice de Rosalba, Robinson Faria, que, depois de um catastrófico governo, levou uma sova eleitoral de Fátima Bezerra e a aliança Alves-Maia apostou na candidatura de Carlos Eduardo Alves, dono do PDT, sobrinho de Garibaldi Alves, mas não conseguiu vencer.

Aliás em 2018, com a ascensão do fascismo bolsonarista, as duas famílias foram literalmente “engolidas” pelas candidaturas toscas dos bolsonaristas. O filho de Agripino Maia, Felipe Maia, medíocre deputado estadual, sequer concorreu e apoiou o pai, Agripino, que não foi eleito. Já Garibaldi Alves perdeu a vaga no Senado para o brutamontes Styvenson Valentim. Seriam o fim dos clãs políticos que dominaram a política local desde 1978?

Pelo jeito a aproximação entre Fátima Bezerra e o MDB do sobrevivente Henrique Alves e do septuagenário Garibaldi Alves, indica que os Alves continuam vivos e atuantes. É bom lembrar que a nova estrela em ascensão, o deputado federal Walter Alves, filho de Garibaldi Alves, já vem se movimentando, há algum tempo, entre os prefeitos, e Carlos Eduardo entrou na jogada e as conversas avançaram.

Fátima conversa com o MDB, e por tabela com o PDT, porque ela sabe que enfrentar a máquina federal, aqui representada por Rogério Marinho e Fábio Faria, ambos figuras ressentidas com o PT, não é uma tarefa fácil e basta ver como Marinho está fazendo a cooptação dos prefeitos, para saber que não será uma disputa fácil.

Todo esse processo, embora cause náuseas e surtos de ódio, tem um pé na realidade. Mostra como o nosso processo de formação histórica, no campo da economia e da política, gerou uma estrutura de poder que permanece forte. E Fátima tem de lidar com isso.

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