OPINIÃO

Cancelamento das festividades de fim de ano e o Carnatal acontecendo: que caminho seguir?

Em época de pandemia, a verdade é uma palavra que pouco significado tem. O “espírito científico” serve a Deus e a Satã, ambos fincados no imaginário “cristão ocidental”, e o mundo se apresenta como caleidoscópio sombrio e cada vez menos humano. Somos a sociedade do espetáculo, mas não no sentido colocado pelo francês Guy Debord, em 1967, no qual o autor tece uma profunda crítica sobre o consumo, a sociedade e o capitalismo.

Nessa “sociedade do espetáculo” do século XXI, marcada profundamente pelo fim das experiências socialistas, ocorridas no final do século XX; pelo recrudescimento da violência geopolítica, vindas diretamente dos EUA, em seu processo de recuperação do seu império; da crise sem precedentes que mantém o sistema capitalista em estado de permanente tensão desde 2008 e a pandemia, que abalou o tecido econômico e social do mundo, são as “não verdades” que parecem emergir como “verdades” e as redes sociais são o espaço do caos comunicacional.

Na verdade, as lógicas se entrelaçam num ambiente onde o pensamento racional move-se mais pela irracionalidade. Temos muitos exemplos, que vai desde a irracionalidade de a Prefeitura Municipal de Natal cancelar as festividades de fim de ano, em nome da saúde pública, e permitir a realização do Carnatal, essa patética festa da elite decadente potiguar, alimentada por uma sempre presente faixa da população disposta a perpetuar essa alegoria decadente, mas que enche os bolsos dos seus promotores.

Sem querer me deter nas justificativas da prefeitura ou do prefeito, mas imagino que pelo fato de que o Carnatal ser um evento privado, haveria uma melhor possibilidade de controle, o que é absolutamente ridículo, pelo menos para esse leigo que se atreve a opinar sobre essa temática.

Mas, alegremo-nos, os organizadores desse espetáculo grotesco garantiram que só entra na “bolha” do Carnatal, aqueles que foram vacinados, ou seja, temos uma imagem bem desconfortante, que nos remete à série The Walking Dead, cujas comunidades ergueram barreiras para os “caminhantes” não entrarem, o que invariavelmente acaba acontecendo.

Não se trata de um comentário apocalíptico, afinal não sei se os casos de COVID-19 aumentarão no pós-Carnatal. Torço para que não ocorra, mas torcida é apenas uma vontade, um desejo. O que sei, efetivamente, é que a população, diante dessas decisões da prefeitura, fica mais com dúvidas do que com certezas.

E quando as festividades de fim de ano são suspensas pelo prefeito, acatando uma recomendação do Comitê Científico de Natal e o Diretor Executivo do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da UFRN, o famoso LAIS, diz que esse cancelamento é “precipitado”, em quem o “cidadão comum” deve confiar?

As “certezas”, vindas de especialistas, se tornam “incertezas” da massa, daqueles que, loucos para voltar ao “novo normal”, uma maluquice inventada para dizer que o mundo mudou depois da pandemia, e que a realidade vem mostrando que o “novo normal” é apenas a velha realidade, acrescida de desemprego em massa, pobreza e fome, espalhada pelo mundo.

Obviamente que, diante da ameaça de termos uma nova e perigosa do Sars-cov 2, a tal da Ômicron, as mesmas vozes que questionavam as necessidades de proteção, novamente se movimentam, especialmente reverberadas pelo comandante-em-chefe do negacionismo, o senhor presidente da república. É mais do mesmo.

Aguardemos os próximos capítulos.

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