TRABALHO

Fragilidade da Petrobras no controle dos protocolos sanitários provoca tensão entre trabalhadores às vésperas do retorno presencial

Por Gabriel Trigueiro, especial para a agência Saiba Mais

Em meio ao avanço da variante Ômicron, do novo coronavírus, e também da Influenza (A) H3N2, funcionários da Petrobras vivem um clima de tensão após a empresa determinar o retorno de 100% dos trabalhadores, inclusive dos grupos de risco, ao serviço presencial a partir de janeiro de 2022. A medida deve afetar cerca de 400 funcionários que atuam no Rio Grande do Norte e 41 mil em todo o país.

O painel de dados ligados à Covid-19, atualizado diariamente pela Agência Nacional do Petróleo, aponta 4.577 casos confirmados de coronavírus e 14 óbitos entre os homens e mulheres que atuam nas instalações da empresa.

No fim de setembro, o técnico em segurança André Pereira, 48, morreu cerca de um mês após ser removido às pressas da plataforma P-40, na Bacia de Campos (RJ), com sintomas severos. Ele chegou ao local três dias antes, para iniciar seu período de duas semanas embarcado, sem que fosse testado previamente.

Segundo o Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro) da região Norte Fluminense – que representa cerca de 35% dos funcionários da empresa -, André e outros funcionários têm sido vítimas de uma tragédia anunciada que resulta da postura negacionista da direção da empresa em relação à emergência sanitária.

Coordenador do Departamento de Saúde do sindicato, o petroleiro Alexandre Vieira explica que, pelas normas atuais, todos os profissionais que trabalham embarcados precisam ir para um hotel dois dias antes e se submeter ao teste RT PCR, que fica pronto em 24 horas, para só então iniciarem o período de 14 dias em alto mar. Mas uma exceção à norma pode ter sido fatal no caso de André.

O funcionário havia sido diagnosticado com Covid-19 semanas antes do embarque, em sua folga, e foi dispensado do teste por causa disso.

“Após 15 do aparecimento dos primeiros sintomas, a pessoa pode embarcar sem teste porque a empresa presume que o funcionário já está curado e sem o vírus. André chegou à plataforma numa quinta-feira e teve que ser retirado de transporte aeromédico na noite do sábado. A situação era grave, já que remoções aéreas só feitas à noite quando há risco de vida”, explica.

O técnico passou cerca de 30 dias internado. Chegou a ser tratado com uso de pulmão artificial (ECMO), mas não resistiu às complicações da doença e morreu no dia 26 de setembro. A perda acendeu um novo alerta sobre as condições de trabalho nas instalações de produção de petróleo, face à pandemia.

Petrobras resiste em adotar medidas preventivas desde o início da pandemia, denuncia Sindicato

Segundo Alexandre, a categoria vem enfrentando resistência da Petrobras em tomar medidas preventivas contra o coronavírus desde o começo de 2020, o que tem levado os trabalhadores a recorrer com frequência ao Ministério Público do Trabalho, à Justiça e outros órgãos na tentativa de ter seus direitos assegurados.

“Até hoje a empresa não tornou a vacinação obrigatória, por exemplo. Atualmente, quem embarca nas plataformas precisa estar vacinado, mas isso se dá por uma determinação da Anvisa”, diz Vieira.

Alexandre explica que já em março de 2020 a categoria solicitou à empresa o fornecimento de máscaras para uso nas instalações, mas, segundo ele, a Petrobras negou-se a distribuir os EPIs com o argumento de que seu uso causaria pânico.

“O sindicato começou, então, a confeccionar máscaras por conta própria, estampadas com o símbolo da nossa campanha contra a privatização. A empresa entrou com um processo por uso indevido da imagem, mas perdeu. Isso tudo repercutiu muito mal, então a Petrobras passou a fornecer umas máscaras vagabundas”, relembra.

A distribuição de máscaras PFF2 só passou a ser feita após recomendação expedida pelo Ministério Público do Trabalho em março de 2021.

“Até hoje a empresa não tornou a vacinação obrigatória, por exemplo. Atualmente, quem embarca nas plataformas precisa estar vacinado, mas isso se dá por uma determinação da Anvisa”.

Alexandre Vieira, SindPetro, da região Norte Fluminense

Alexandre enfatiza que o uso de máscaras, a testagem e a vacinação são extremamente necessários pelas características do trabalho e do corpo funcional da Petrobras.

“Há ambientes em que não é possível fazer distanciamento, como dentro dos helicópteros. Além disso, muitos trabalhadores, mesmo brasileiros, moram no exterior, em países como Estados Unidos e Portugal, e só vêm ao Brasil cumprir sua escala, que é de 14 dias de trabalho por 21 dias de folga. Também temos trabalhadores estrangeiros nas instalações, que vêm de países como Índia e China. Há sempre o risco de trazer novas variantes da Covid-19 ao Brasil”, exemplifica.

As medidas preventivas ao coronavírus já foram tema de três recomendações expedidas pelo MPT. Além de enfatizar a necessidade de normas rígidas de testagem, uso de equipamentos de proteção individual e aplicação de protocolos específicos no caso de identificação de sintomas, os procuradores destacam a necessidade da Petrobras “manter diálogo permanente com os sindicatos das categorias profissionais sobre as questões relativas ao enfrentamento da pandemia, medidas de prevenção e retomada de atividades não essenciais

Entre outras reivindicações, os petroleiros cobram que todos os funcionários que já tiveram Covid-19 passem pelo mesmo esquema de testagem dos demais.

“Nosso receio é de que haja uma piora no quadro posteriormente às festas de fim de ano, período que coincidirá com a volta de 100% dos funcionários às atividades presenciais, inclusive aqueles acima de 60 anos, que correspondem a cerca de 15% dos trabalhadores”. diz Alexandre.

Petroleiros do RN aprovaram indicativo de greve

Coordenador-geral do Sindipetro Rio Grande do Norte, Ivis Porpino pondera que os trabalhadores que estavam atuando em formato remoto deverão voltar ao serviço presencial, neste primeiro momento, num sistema híbrido, sem eliminar por completo o home office. Ele comenta, porém, que o momento de insatisfação com o governo Bolsonaro, sobretudo diante das ameaças de privatização, pode levar à decretação de uma greve geral nos próximos dias.

Na última sexta-feira, a categoria aprovou indicativo da Federação Única dos Petroleiros (FUP), na base do Rio Grande do Norte, pela decretação do estado de greve. Nesta semana, a FUP está promovendo novas reuniões deliberar sobre os próximos passos da mobilização, com avaliação do quadro nacional das assembleias.

Petrobras cita avanço da vacinação e melhora no cenário da pandemia para justificar retorno

Sede da Petrobras, Centro-RJ

Em nota, a Petrobras afirmou que o retorno ao trabalho presencial se baseia na melhoria do cenário da pandemia no Brasil e no avanço da vacinação contra a Covid-19.

“A companhia tem conduzido o retorno ao presencial em ondas, ao mesmo tempo em que implementa seu modelo de trabalho híbrido. O retorno foi gradual, com 20% dos empregados em funções administrativas em outubro, 30% em novembro e 40% em dezembro. No dia 3 de janeiro, retornam os demais empregados, com algumas exceções, como gestantes, pessoas com deficiência e empregados ainda não imunizados, que permanecem em teletrabalho nos cinco dias da semana”, explicou a empresa.

Segundo a Petrobras, para os empregados que fizeram sua adesão ao teletrabalho, o retorno será alternado – dias presenciais e remotos, com até três dias remotos por semana.

“Todos os cuidados estão sendo mantidos nas instalações, como uso obrigatório e adequado de máscaras, distanciamento físico, higiene das mãos, equipamentos e ambientes e identificação precoce de colaboradores com sinais, sintomas e contatos com casos suspeitos da doença, que passam por orientação de saúde e testagem”, conclui a petrolífera.

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