CULTURA

Primeiro espetáculo do Teatro Alberto Maranhão após restauração é dedicado aos responsáveis pela obra, os operários

As cortinas vermelhas do centenário Teatro Alberto Maranhão (TAM) foram abertas pela primeira vez em seis anos, desde que foi interditado, em 2015. Mas a cena não era inédita para os principais espectadores do show de reinauguração, os trabalhadores da obra de restauro, que viram o tecido ser colocado. Cerca de 70 pessoas que participaram até o final dos trabalhos da recuperação do espaço e mais os responsáveis pelos reparos no Forte dos Reis Magos, da Pinacoteca Potiguar e da Escola de Dança TAM (Edtam) foram convidados para o momento.

A apresentação de Jessier Quirino e o show de Forró Meirão na sexta-feira, 17 de dezembro, se destinavam principalmente aos operários dos principais equipamentos culturais do Rio Grande do Norte, com presença da governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), e servidores da Fundação José Augusto, gestora cultural do estado.

A programação começou cedo, às 17h, com apresentação do cantor Genildo Costa no pátio do teatro. No palco principal, o professor Aécio Cândido, o poeta Antônio Francisco e o diretor-presidente da FJA, Crispiniano Neto, apresentaram poemas em homenagem aos trabalhadores.

Programação de reabertura segue até o dia 23 de dezembro. (Foto: Sandro Menezes)

João Antônio da Silva, de 45 anos, disse que “foi um presente” trabalhar ali. Ele começou como ajudante de obra e agora é vigilante do espaço. “É um grande prazer. Está muito bonito. Muita gente que passava perguntava quando ia abrir”, disse ele, ao lembrar que não conhecia o interior do prédio antes de assumir a função: “Não tinha tempo, trabalhando”.

Mesmo estando presente, ainda não foi dessa vez que João Antônio assistiu a um espetáculo na casa, pois cumpria seu turno de 12h. A verdade é que poucos operários marcaram presença. João aponta a deficiência do transporte coletivo de Natal como possível responsável. Segundo ele, na Ribeira só passam ônibus até as 22h, e de lá para o Bairro Nordeste, onde mora, só até as 19h. Também por essa razão não convidou a família, esposa e enteado. “Ela trabalha nessa hora, é zeladora de um banco, mas mesmo que estivesse livre não teria ônibus”, lamentou.

João Antônio da Silva, de 45 anos, considera um “presente” fazer parte desse capítulo da história do espaço. (Foto: Isabela Santos)

O rosto de João é um dos que estão impressos na exposição “Um diário visual das memórias em fluxo”, do fotógrafo Pablo Pinheiro, aberta até 31 de janeiro no Salão Nobre do teatro, e com versão online no perfil @diariodebordodotam, no Instagram.

A obra começou em 2018 e a ideia de dar protagonismo àqueles que colocaram a mão na massa veio um pouco depois. “Esse projeto junto com Pablo é para dar visibilidade a essas pessoas que são geralmente anônimas e dedicaram anos a esse lugar. Costuma aparecer o nome das autoridades, mas elas ficam no anonimato”, ressaltou o diretor do Teatro Alberto Maranhão, Ronaldo Costa, que disse estar emocionado ao ver o TAM sendo entregue à sociedade potiguar. “Chegamos à administração com um teatro sem vida, mas o gigante estava apenas adormecido”.

Exposição de Pablo Pinheiro mostra bastidores da restauração do prédio. (Foto: Isabela Santos)

Fátima Bezerra não fez discurso, mas em conversas e entrevistas no local destacou que a pré-estreia tem a marca de um governo de perfil popular. “O primeiro espetáculo é dedicado aos operários, aos trabalhadores e trabalhadoras que construíram essa reestruturação”, argumentou a governadora.

Reviva Cultura

Cícero da Silva, 52, um dos responsáveis pela pintura do Forte dos Reis Magos e também da Edtam, prestigiou o evento ao lado do neto Yuri, de seis anos de idade. No Alberto Maranhão nunca havia entrado, mas os prédios onde trabalhou fazem parte da história de sua família.

Equipamentos culturais fazem parte da história da família de Cícero da Silva. (Foto: Isabela Santos)

Cícero tem um quiosque no Forte há 29 anos e espera voltar para lá ainda no primeiro semestre de 2022, após a reabertura do monumento, que está marcada para 25 de dezembro. Na escola de dança, duas filhas, hoje adultas, estudaram durante anos. “Já conhecia dona Wanie Rose [professora e hoje diretora]”.

“A gente acha bom poder concluir essas obras, porque são lugares que andavam muito abandonados. É gratificante ver concluído. Esses bairros Ribeira, Rocas, são muito carentes de lazer. Acho importante”, disse ele, que costumava vender artesanato no quiosque do Forte com a esposa Orideia de domingo a domingo.

Esta é a maior reforma pela qual passou o Teatro Alberto Maranhão, inaugurado em 1904. (Foto: Sandro Menezes)

O resultado de todas essas obras também é gratificante para o engenheiro civil Sérgio Wiclife, coordenador de obras da FJA e fiscal desses trabalhos pelo órgão. Servidor desde 1978, ele confessa nunca ter trabalhado tanto quanto na gestão da professora Fátima Bezerra.

TAM, Edtam, Pìnacoteca, Forte, Papódromo, Biblioteca Câmara Cascudo (reaberta também nesta semana), Memorial Câmara Cascudo e teatros Adjuto Dias (Caicó) e Lauro Monte Filho (Mossoró). A reabertura desses espaço foi organizada no programa “Reviva Cultura”, do governo do RN.

“São obras muito importantes. Considero um milagre. Nunca imaginei que um governo fosse restaurar tantos equipamentos culturais ao mesmo tempo. Nenhum governante olhou para a cultura como Fátima. Aqui no Teatro Alberto Maranhão tivemos uma restauração em 2004, no governo Wilma, uma recuperação parcial, mas dessa vez foi 10 vezes maior”, disse o engenheiro, chamando para ver o elevador funcionar, porque “tem gente que duvida”.

Jessier Quirino se apresentou em durante a noite dedicada aos trabalhadores. (Foto: Raiane Miranda)

O prédio histórico atende às exigências de acessibilidade com rampas e elevador. Os banheiros também são acessíveis. O teatro conta ainda com nova climatização, sonorização, cabeamento estruturado, câmeras de segurança e também recebeu serviços na área de revestimentos, recuperação de louças, metais e acessórios, esquadrias, instalações elétricas e hidráulicas, combate a incêndio, serviços de esgoto e águas pluviais – uma obra que custou R$ 2,5 milhões viabilizados com empréstimo junto ao Banco Mundial e teve fiscalização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“É muito emocionante esse momento. Encontramos o teatro fechado. E temos que dar razão ao juiz que mandou fechar. Era um perigo isso aqui, uma tragédia anunciada. Hoje começamos a devolver uma casa de espetáculos à altura dos seus 117 anos, que tem uma pauta de 10 a 15 vezes mais barata que um teatro privado”, anunciou Crispiniano Neto, apontando para a vocação democrática do principal teatro do estado.

Programação

Além da sessão especial para os operários que atuaram nas obras, haverá abertura oficial, uma solenidade no sábado (18), a partir das 19h, com a presença de autoridades e convidados. Com programação gratuita até o dia 23, o primeiro evento aberto ao público ocorre domingo (19), às 18h. Os ingressos são limitados e precisam ser retirados pelo site Sympla.

17/12 – Horário: 17h – Espetáculo para os operários do TAM

18/12 – Horário :19h – Solenidade oficial de reabertura

19/12 – Horário: 18h – Concerto Oficial da Orquestra Sinfônica do RN

20/12 – Horário: 19h – Mostra de curtas-metragens da Lei Aldir Blanc RN

21/12 – Horário: 19h – Cantata Brincante do Sesc

22/12 – Horário: 19h – Quarta da Dança

23/12 – Horário: 19h – Ópera “O Empresário” – Grupo Lyricus

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais