OPINIÃO

Será que o “circular” da UFRN ameaça falir o Sistema de Transporte Urbano de Natal?

O anúncio de que o ônibus chamado de “Circular”, já que ele circunda a UFRN, voltou a funcionar ontem, 1° de dezembro, com uma tarifa de R$ 3,20, quebrando uma tradição da gratuidade do transporte, e deixando os estudantes em pé de guerra contra a Secretaria de Mobilidade Urbana de Natal (STTU).  A pasta fez o anuncio no dia 30, considerando o “circular” como “uma nova linha alimentadora da UFRN” e considera que essa cobrança é em função do desequilíbrio no sistema de transporte de Natal e que a gratuidade poderá voltar funcionar com o eventual retorno das aulas presenciais.

Antes de tratarmos desse tema, é bom saber que quase 15 mil alunos do Campus Central da UFRN moram na Região Metropolitana de Natal, sendo que, destes, 55% estão nos municípios um pouco mais distantes do eixo central (Natal, Parnamirim, Macaíba e São Gonçalo do Amarante), portanto, estão sujeitos ao pagamento das tarifas intermunicipais, ou seja, caso essa tarifa seja permanente, haverá o aumento da carga de gastos desses alunos.

Como não tive acesso a forma de como a STTU chegou a essa tarifa e a fórmula de aplicação dela é, aos olhos de um leigo, complexa, resta perguntar que montante valores serão obtidos com a “cobrança temporária” que diminuirá os desequilíbrios do sistema de transporte de Natal. Como sempre a justificativa carece de uma certa logicidade, o que não é surpreendente em se tratando de tarifas de transporte coletivo urbano de Natal.

É interessante notar, entretanto, que, ao ignorar solenemente a UFRN na questão da imposição dessa “tarifa temporária”, como ressaltou o gestor da pasta de Assuntos Estudantis da UFRN, a prefeitura de Natal parece estar mais interessada nos interesses do empresariado do setor de transportes, no que propriamente na equalização de problema que nunca foi devidamente solucionado e que poderá produzir resistências visíveis a partir de março de 2023, quando provavelmente serão retomadas as aulas presenciais.

É fato que a UFRN, por sua condição, não tem como intervir na gestão dos transportes urbanos de Natal, mas como um espaço gerador de ISS, já que produz variada gama de serviços, além de ser um espaço generoso de consumo, visto que circulam, em tempos normais, mais de 10 mil pessoas por dia apenas no Campus Universitário, gerando demanda de serviços, deveria ser, pelo menos, respeitada pela Prefeitura Municipal de Natal. Parece que, nesse caso, a UFRN foi deixada de lado.

Esse lenga-lenga do “circular” vem desde a sua implementação, em agosto de 1995, portanto há mais de 26 anos, e o questionamento sobre a sua qualidade esteve sempre na ordem do dia das representações estudantis e de servidores técnico-administrativos, principais usuários desse “sistema”.

Olhando do ponto de vista quantitativo, parece desproporcional a justificativa dada pela STTU, afinal, no primeiro momento, trata-se de UM ônibus e, ao longo da “história do circular” esse número de ônibus nunca chegou a mais de 5, o que, convenhamos é significante, posto que esse ônibus representa 0,3% da frota em circulação, que é de 388 veículos, aliás número sempre considerado aquém das necessidades dos usuários, tanto no sentido de qualidade como de quantidade.

Ao afirmar que a tarifa é para reparar os desequilíbrios do sistema, gerado aparentemente pelo “circular”, a STTU nos deixa perplexos, pois parece que o gasto de 0,3% da frota, tem um peso relevante, o que não deixa de ser curioso e fica o questionamento do porque a Prefeitura não buscou um diálogo com os usuários desse circular, no caso, as representações estudantis, de servidores técnico-administrativos (aqui incluindo os “terceirizados”) e até dos professores que, embora pouco utilizem desse sistema, sofrem os efeitos indiretos de sua precariedade.

Esse episódio, grotesco em todos os sentidos, mostra como um sistema que se move basicamente para acumular, não admite, por menor que seja, “falhas” na sua lógica e os estudantes, servidores técnico-administrativos, “terceirizados” e professores acabam sendo computados como uma “falha sistêmica” a ser corrigida pela introdução de uma tarifa que, depois de 25 anos sendo gratuita, passa a ser “nefasta para o interesse do sistema como um todo”.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo