DEMOCRACIA

Jornalista revela a história não contada pela imprensa da oligarquia Rosado

Jornalista político com forte atuação em Mossoró, Bruno Barreto conhece como poucos os meandros e bastidores da política da cidade. Jornalista formado na primeira turma do curso da UERN, foi na redação do jornal “O Mossoroense” – pertencente ao grupo político da ex-deputada federal e atual vereadora Sandra Rosado –  que Bruno passou a maior parte de sua carreira profissional, na função de editor da página política do periódico.

O gosto pela história política aliado à perspicácia jornalística fez ele buscar outro campo para aprofundar suas pesquisas sobre um fenômeno que sempre o instigou: as entrelinhas da constituição da família Rosado como oligarquia política, assim como os caminhos que levaram à divisão do clã em dois grupos distintos e rivais. Para contar esta história, o jornalista pesquisou mais de duas mil edições de jornais mossoroenses, além de diversos livros e estudos sobre o assunto.

O resultado está no livro “Os Rosados divididos: como os jornais não contaram essa história”, publicado pela editora Sarau das Letras e com lançamento marcado para a noite desta quinta-feira, no Memorial da Resistência, em Mossoró. A obra é uma versão ajustada da dissertação defendida por Bruno no Mestrado em Ciências Sociais e Humanas da UERN, com orientação do Professor dr. Lemuel Rodrigues, também pesquisador com trabalhos sobre uma das famílias mais tradicionais da política potiguar.

Nesta entrevista especial à agência Saiba Mais, concedida ao jornalista Esdras Marchezan, editor do coletivo Repórter de Rua, Bruno Barreto adianta trechos do livro:

 

Agência Saiba Mais: A família Rosado está entre as mais tradicionais na política do Rio Grande do Norte. Que papel teve a imprensa na construção ou consolidação desta oligarquia?

Bruno Barreto: A imprensa teve um papel decisivo. Mesmo quando ainda não tinha a propriedade de meios de comunicação, a família Rosado exercia forte influência na mídia através das verbas publicitarias. Essa estratégia é usada até hoje não só em Mossoró, mas em várias partes do país. Além da mídia, a Coleção Mossoroense teve um papel importante na consolidação do “mito” rosadista. Isso não tira os méritos da editora, uma das mais importantes do país, mas não pode ser ignorado.

 

O seu livro foca exatamente no momento de divisão deste grupo político e na forma como os jornais se omitiram ao não noticiar bem este fato. Quais os motivos dos jornais adotarem esta postura?

Essa era a pergunta que mais me intrigou na elaboração do projeto de pesquisa para a dissertação de mestrado. Os Rosados se dividiram politicamente em um período de muitas incertezas. O Brasil estava iniciando o processo de redemocratização. Não havia tanta segurança no que viria pela frente. Não era interessante para os dois lados da mesma família expor o assunto na imprensa que por sua vez colaborava ficando em silêncio. Os próprios jornais ajudaram a confundir ainda mais ora abafando, ora expondo o racha ainda que de forma discreta. A divisão política nunca chegou a ser tratada como notícia. Nas mais de duas mil edições da Gazeta do Oeste e O Mossoroense não há uma única manchete tratando do assunto até o dia que Dix-huit e Vingt Rosado romperam. Era como se eles fossem os Rosados e não Carlos Augusto.

 

Que tipo de estratégia utilizada pela família Rosado você considera mais eficiente para que o grupo se mantenha vivo politicamente por tanto tempo?

Por muito tempo se falou que eles se dividiram para somar. Na verdade há uma confusão entre causa e efeito. A divisão, de fato, somou. Não surgiu nenhum grupo que lhe fizesse frente nas três décadas seguintes. Por outro lado, a divisão não foi tão pragmática como imagina o senso comum. Ela é fruto de um processo político natural em que existia um grupo político e familiar muito grande e quando isso acontece surgem subgrupos. No caso era a ala de Laíre Rosado e a de Carlos Augusto. É desse confronto que surgiu o racha político. Respondendo a sua pergunta objetivamente: a grande estratégia foi não ter estratégia. A divisão política com as duas alas ocupando governo, oposição e, em alguns momentos, a terceira via, sufocou o surgimento de novas lideranças. Veja que Francisco José Junior foi o único a fazer frente ao grupo, mas só conseguiu isso graças a autodestrutiva guerra jurídica pós-eleição de 2012 (que resultou na cassação da então prefeita de Mossoró, Cláudia Regina, apoiada na época pela então governadora Rosalba Ciarlini, esposa do ex-deputado Carlos Augusto Rosado). Se aquela batalha jurídica não acontecesse a divisão Rosado x Rosado seguiria sem grandes abalos e hoje cada ala estaria em suas próprias trincheiras.

 

Sua pesquisa aborda o período entre 1980 e 1988. Que fato marcou o rompimento, ou divisão, como você apresenta no título do livro, da família Rosado?

É um período muito rico de nossa história política. Estávamos no fim da Ditadura Militar, retorno do pluripartidarismo, eleições diretas para governador e prefeitos de capitais e o fim de um ciclo político nada bom para o país. Tudo isso teve reflexos em Mossoró. A divisão foi reflexo da guerra interna entre Rosados e Maias pelo comando da Arena, depois PDS, no Rio Grande do Norte. Não se explica a divisão dos Rosados sem observar as três escolhas dos governadores biônicos em 1970, 74 e 78. Em todas as três Dix-huit chegou muito perto de ser escolhido governador sendo nas duas últimas derrotado por Tarcísio Maia que tinha residência física em Mossoró, mas não tinha votos para fazer frente aos Rosados.

Tarcísio tentou fomentar lideranças para enfrentar o grupo até entender que para ele ter força na cidade teria que dividir o grupo. O “elo fraco” era Carlos Augusto Rosado. Ele foi feito, com as bênçãos de Tarcísio, presidente da Assembleia Legislativa em 1981. Quando Vingt decidiu votar camarão em 1982 (as regras naquele pleito previam o famigerado voto vinculado impedindo o eleitor de votar em candidatos de chapas diferentes), Carlos Augusto votou no tio, mas também em José Agripino para o Governo e Carlos Alberto para o Senado. A partir daí o afastamento foi gradual e os jornais não transformaram nenhum acontecimento em manchete. Na pesquisa foi preciso ir para dentro das colunas políticas procurar nas entrelinhas o que estava acontecendo. O marco temporal para mim é outubro de 1985 quando eles se dividiram oficialmente com Carlos Augusto fundando o PFL e Vingt Rosado desembarcando no PMDB.

 

De que forma os jornais se relacionavam com os representantes da família Rosado? Que jornais assumiram posturas mais independentes em relação ao grupo, no período pesquisado?

Não havia independência nem na Gazeta nem em O Mossoroense. Os jornais estavam atrelados aos grupos políticos. A Gazeta era ligada ao grupo de Tarcísio Maia e O Mossoroense ao rosadismo. A primeira se beneficiava das verbas estaduais e o segundo das verbas municipais. É complicado falar em liberdade de imprensa ou até mesmo “liberdade de empresa” em um período autoritário. Mas Canindé Queiroz vez por outra quebrava essa regra. Diran Amaral também. Foram os colunistas políticos que mais deixaram rastros para o foco do meu trabalho.

 

Que dificuldades você encontrou durante sua pesquisa?

A ausência de manchetes sobre o tema. Outro ponto é que os jornais da época eram caóticos. A divisão por editorias só aparece a partir de 1987. Outro problema, para mim o principal, era a ausência de continuidade nos assuntos. Se jogava uma informação num dia e quando ia olhar a edição seguinte não tinha mais nada. Foi um pouco frustrante.

Autor do livro ressignifica o mito de que a oligarquia Rosado se dividiu para somar: “a estratégia foi não ter estratégia”

 

Atuando como editor de Política de “O Mossoroense” durante algum tempo – jornal pertencente ao grupo da ex-deputada federal e atual vereadora Sandra Rosado – que tipo de impressão você tem sobre o papel do jornal, assim como da FM 93 e da TV Mossoró, sobre o fortalecimento da imagem deste grupo político perante à sociedade mossoroense?

Curioso isso. Das setes eleições para a Prefeitura de Mossoró disputadas entre as duas alas da família Rosado, o grupo de Sandra Rosado perdeu seis. A única que venceu não usufruiu do poder porque rompeu com o tio Dix-huit Rosado. Mesmo acumulando derrotas o grupo de Sandra tinha o mais forte grupo de comunicação da cidade. Só ela reunia rádio, jornal e TV, mas isso não se convertia em resultados políticos. O público preferia  ver as denúncias típicas de veículos de oposição, mas na hora de votar separava o joio do trigo. Paradoxalmente na  medida em que esses veículos sucumbiram (o Jornal O Mossoroense não tem mais a versão impressa, a 93 FM perdeu a liderança e a TV Mossoró se mantém praticamente na base do trabalho voluntário), o grupo de Sandra perdeu força. Diria que esses veículos ajudavam a garantir no mínimo um segundo lugar, hoje nem isso.

 

Nas eleições passadas, a família Rosado viveu o que talvez seja um de seus momentos políticos mais delicados, quando só conseguiu garantir a eleição do deputado federal Beto Rosado. Há uma tendência ao enfraquecimento do grupo daqui por diante?

A eleição de 2018 será decisiva para a família Rosado, atualmente (como diria o jornalista Carlos Santos) está “misturada” em bases políticas muito frágeis. A eleição de Rosalba Ciarlini ano passado deu algum fôlego político ao clã, mas o desempenho administrativo seguindo ladeira abaixo como está podemos ter um cenário pior que o de 2014. Na família Rosado há um claro problema de reposição. A geração dos bisnetos de Jerônimo Rosado não apresenta uma renovação forte. A exceção seria Larissa Rosado, desgastada após disputar várias eleições consecutivas acumulando derrotas. É um ótimo nome ainda, mas precisa de um “descanso” eleitoral.

 

Qual a principal contribuição da sua pesquisa, e consequentemente do livro, para a sociedade?

O ineditismo de um tema que sempre gerou muita especulação e nenhuma análise em nível acadêmico. Sinto-me feliz em ter dado o primeiro passo ao analisar um aspecto não estudado. Existem muitos estudos sobre os Rosados, mas nenhum focado no racha político da década de 1980. Os professores do Departamento de História da UERN sempre falam que meu trabalho será referência para outros estudos. Fiz a minha parte, que surjam novas pesquisas para complementar alguma lacuna não preenchida como a necessidade de ouvir os personagens ainda vivos ou para contestar a tese que defendo: a de que a divisão política não foi combinada.

 

Que diferenças se notam hoje na relação entre a imprensa e os grupos políticos? Tivemos mudanças?

Há uma grande diferença na forma. A Internet mudou muito as relações entre público e jornalista. A reação sobre o que escrevemos é imediata e isso aumenta a responsabilidade. Antes quando alguma crítica chegava era um colega jornalista ou algo de “ouvir falar”. Hoje o público lhe diz na cara dura. Isso aumenta a necessidades de cuidado com o que escrevemos e, por tabela, limita a influência dos políticos. Mas no geral eu diria que os políticos tentam sempre manipular o noticiário atuando como fontes (divulgando o que lhes interessa) ou como patrões. O público tem que ficar atento e cobrar por informação de qualidade.

 

Para mais informações sobre a pesquisa do jornalista Bruno Barreto, confira a entrevista concedida ao programa Sobre Humanas, da UernTV.

https://www.youtube.com/watch?v=bjGX1mUUOj0

 

 

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Jornalista e Professor