OPINIÃO

O primeiro mandato

Carlos Fialho escreve às segundas-feiras na agência Saiba Mais
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“Você riscou meus papéis de trabalho de novo, Isabela!”

“Mas você não ficou chateado não, né?”

“É minha pauta do dia, minha filha! As coisas que tenho que fazer.”

“Mas, papai, eu fiz uma mão de caneta azul pra você.”

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E assim termina mais uma discussão diante de um argumento indiscutível, inapelável e definitivo. Afinal, que valor tem uma lista de afazeres, compromissos e obrigações organizadas em um cronograma feito à mão grafado em uma folha A4 se comparado a uma mão desenhada de próprio punho pela filha pequena? Os rabiscos paternos não são nada perto da ilustração filial que, segundo a curadoria do coração, está à altura das mais elevadas pinturas em exposição no Louvre ou no Reina Sofia. Poderia até iniciar uma exposição e etiquetar ao lado: “Mão de Isabelinha. Bic sobre papel.”

Esta semana, completei meu primeiro mandato como pai. Um ciclo de 4 anos para o qual fui eleito pela mãe, Nina Barbalho e que se assemelha a qualquer outro cargo eletivo, inclusive pelas sujeiras a que a gente precisa se acostumar no início. Agora, é tempo de prestar contas do meu mandato e me colocar à disposição do colégio eleitoral (que agora se vê ampliado, uma vez que ao da mãe se soma o voto da filha cheia de vontades e quereres) para exercer o papel de pai de Isabela por mais um ciclo. O fim deste período de 4 anos que ora se encerra, no entanto, representa apenas o simbolismo dos ritos e passagens, tão impalpável e abstrato quanto quaisquer outros cerimoniosos rituais humanos e sociais. Porque a avaliação do desempenho como pai é constante e tão rigorosa que faria o Ministério Público e os Tribunais de Contas parecerem tão ameaçadores quanto os Ursinhos Carinhosos montados em Queridos Pôneis divulgando Gifs animados de gatinhos.

Um pai pode sofrer impedimento a qualquer momento, mesmo que temporário. Declarações fortes do tipo “você é muito feio” ou “você é muito chato” ou ainda contundentes como a clássica “você é feio, bobo e chato” costumam ser feitos em momentos de especial tensão política quando a pequena herdeira assume posição de líder da bancada oposicionista, normalmente exercida pela mulher, relegando a figura paterna a um limbo de ostracismo e coadjuvância só comparável à celebridades que participam de reality shows da Record. O teor de tais assertivas, em que pese sejam pueris, ainda consegue estar em nível mais elevado que os discursos da fatídica e histórica sessão da Câmara dos Deputados que golpeou a ex-presidenta ou que os votos do TSE que salvaram o mandato do atual: mistérios da humanidade. Felizmente, porém, na maioria dos casos, este impeachment paterno é passageiro e logo se resolve com um “Paaai, vamos brincar de massinha!” ou melhor: “Pai, me leva na praia!”

Os deveres de quem toma posse para um cargo tão importante são inúmeros e não permitem um dia sequer de descanso. A primeira regra dita e repetida é “não deixar faltar nada em casa”. Embora imprecisa, uma vez que não especifica o que seriam estas coisas que não podem faltar (qual o tudo contido dentro neste nada), tal premissa nos leva a concluir que não pode deixar de haver comida à mesa e afeto no dia a dia, acesso à escola para que tenha uma educação formal e momentos de lazer baseados em liberdade e muitas gargalhadas para que também aprenda a rir e fazer rir, presença e referências positivas de forma a evitar que acabe se envolvendo com o que não deve, como sertanejo universitário ou más companhias tipo blogueiras fitness.

É missão do pai saber noções básicas de engenharia para que a estrutura de Megablocos ou de Lego possa se sustentar pelos minutos necessários antes de serem demolidos pela filha. O mesmo raciocínio vale para castelos de areia. Também deve-se conhecer princípios do Direito para que as disputas pelos brinquedos com amiguinhas não terminem em litígio irreparável ou ainda para poder fazer uma sustentação oral que defenda as vantagens da salada sobre o chocolate entre meio-dia e duas da tarde. Acordar cedo e dormir tarde fazem parte do pacote, assim como envolver-se com figuras como Moana, Frozen, os Detetives do Prédio Azul e muitos outros novatos em sua vida.

Mas claro que vêm as recompensas também, a gratificação pelo esforço e o retorno do tempo dedicado à cria. Logo, ela está se interessando pelos seus assuntos preferidos. Isabela, antes de saber ler, sentava com um livro aberto e ficava dizendo histórias aleatórias como se estivesse lendo porque esta é uma das coisas que ela vê os pais fazerem com frequência. Aprendeu a cantar “Nowhere man” dos Beatles e o hino do Flamengo e, quando saio de viagem, ela separa uma latinha de cerveja e mantém na geladeira para que possa me servir quando eu voltar pra casa.

Os confrontos de opinião também têm sido duros, fazendo-me tentar encontrar o equilíbrio entre um déspota implacável (governante severo que se impõe pelo medo) e líder afetuoso (que é seguido pela devoção e o amor que inspira). Esta deve ser a mais difícil das tarefas, levando-nos muitas vezes a nos flagrar coléricos berrando frases desconexas como “É você! Chata é você!”

Bem, em todo caso, acredito que o principal objetivo do exercício do meu mandato de pai é contribuir para um ambiente harmonioso, em que todas as eleitoras possam encontrar em mim motivos para sorrir e orgulharem-se, cujos problemas possam ser enfrentados juntos e que, apesar dos momentos de instabilidade e desentendimentos mil, no fim das contas, e na média, sejamos todos felizes. Por tudo isso, acredito que meu mandato seja renovado por mais um período. Já estou consultando as bases e parece que lidero as pesquisas com folga. Pelo menos, até agora, não ouvi nada que se pareça com um “Primeiramente, fora, Papai!”

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Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras