OPINIÃO

Torre de Marfim

João Victor escreve aos sábados

Todos se chocam quando um professor universitário com grande pesquisa em torno de questões progressistas age de uma maneira autoritária e elitista contra uma mulher em situação muito mais vulnerável que a dele. Chocam porque fazem uma imagem da academia  idealizada no que ela deveria ser, mas não do que, em parte, ela sempre foi. Cheia de vícios, a academia brasileira mostra-se superior, mas não está longe dos mesmos problemas de outras instituições nacionais.  A humilhação pública feita pelo professor Alípio de Souza Filho a uma aluna do curso de Ciências Sociais é um símbolo da extrema desconexão de muitos pesquisadores laureados com diplomas internacionais, mas que já não conseguem enxergar complexidades para além dos livros que estudam, dos temas que abordam e das bolhas intelectuais que frequentam. O caso protagonizado por Alípio foi de causar náuseas a quem se dispôs a ouvir o seu discurso em sala de aula, mas ele está longe de ser o único que pensa assim nas nossas universidades públicas.

Chamam de Torre de Marfim esse mundo em que intelectuais convivem com suas pesquisas, mas são extremamente limitados para entender as questões práticas do dia-a-dia e as relações complexas que levam, por exemplo, uma mãe trabalhadora a frequentar, com sua filha pequena, uma aula. Esse mundo à parte, carregado de elitismo acadêmico,  mostra os limites da universidade no diálogo com os setores populares e a classe trabalhadora.

Era o ano do golpe, e em uma das muitas aulas públicas na universidade que debatiam o assunto, sempre entre um público muito parecido, um professor, ao qual tenho muita estima, levanta-se e  pega o microfone para questionar as razões da acomodação das periferias e do apoio de setores populares aos atos da direita contra o governo Dilma. Faz isso  a quilômetros da periferia, num lugar que nunca foi plenamente alcançado por ela, mas acha que tem condições, mesmo sem nenhum trabalho de organização popular, de cobrar a mobilização daqueles que nunca foram chamados a construir um projeto alternativo de poder.  Fala para si e para quem já concorda com ele. Muitos aplausos.

Auto proclamados, ou eleitos por outros, a elite cultural brasileira que está massivamente dentro das universidades públicas, ainda não percebeu que o outro lado do muro debate política, se organiza e resiste, independente do que os ideólogos de direita e de esquerda determinam como fundamental. Quantas respostas absolutas já foram pensadas para perguntas que nem foram feitas a quem vive, por séculos, essas questões?  Temos as soluções para todos os problemas, mesmo para aqueles que não vivenciamos, nem por 45 minutos, numa aula dada com caprichados slides no Power Point.

Formatada para receber as oligarquias e figuras que sempre tiveram o privilégio de profissionalizar o estudo, a universidade pública ainda luta para entender sua relação com o estudante trabalhador, que tem uma jornada de 40h semanais, mas segue o seu sonho, e de sua família, de acessar o ensino superior.  Entra em conflito com um formato de aluno que já não cabe mais na previsibilidade do que foi a universidade brasileira, anteriormente ocupada por perfis muito parecidos. Não entende as deficiências que tivemos no ensino básico, não compreende as exigências, ao limite da desumanização,  que o capital e o trabalho faz dos nossos corpos e mentes.  Cobram atenção, mas não discutem muito se o seu conhecimento, altamente gabaritado por tantos títulos, consegue alcançar esse novo estudante. Obviamente, existem aqueles professores que carregaremos com afeto, pois desses podemos perceber que a burocracia acadêmica não conseguiu retirar a empatia e a essência do que é ensinar.

O povo que luta para terminar o ensino superior reivindica políticas de assistência estudantil e uma atenção menos burocrática para as situações específicas, casos que podem determinar a escolha entre seguir estudando ou optar pela evasão. Quantas mães deixam de estudar por não ter um lugar específico para deixar os filhos durante a aula? Será mesmo que as universidades brasileiras irão falir se optarem por uma nova abordagem para as mulheres com filhos pequenos?  Bom,  se a universidade não pode ser ocupada por uma mãe negra, filha da classe trabalhadora, que depois de uma longa jornada ainda tem empenho para enfrentar os bancos acadêmicos, então para que(m) serve o ensino dessa universidade?

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Jornalista e militante de direitos humanos