OPINIÃO

A marcha do “bolsonarismo”

Por Carlos Peixoto*

O neoliberalismo destruiu muitas coisas: a crença no futuro, a crença na capacidade humana de agir e até mesmo – como Margareth Thatcher certa vez admitiu – a crença na existência da sociedade. Seu maior ato de destruição, porém, foi injetar uma amoralidade nietzschiana na vida de milhões de pessoas que não têm poder. Nosso caminho de volta – como esquerda, como explorados pelo capital e como humanidade – tem que ser pela redescoberta da nossa capacidade de agir. No centro da batalha está a luta pela verdade”. (Paul Mason – Em defesa do futuro).

A tríade sombria de narcisismo, maquiavelismo e psicopatia são traços de personalidade comuns aos extremistas, assim como a predisposição para rotular adversários políticos e/ou integrantes de correntes/grupos raciais, religiosos, sexuais e culturais diferentes como “não humanos”. Isso legitima o discurso de ódio e a violência contra eles. Em 1951, Arendt alertou que um extremista convicto “é aquele para quem já não existe a diferença entre fato e ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios de pensamento).” “Estamos diante do problema de saber de onde vem a psicologia fascista das massas.” Para encontrarmos respostas – uma teoria e também formas de reação à onda extremista atual – precisamos tentar compreender: o que está acontecendo e por quê?

Entre os seguidores do presidente Bolsonaro (superestimados em ⅓ do eleitorado), somente uma fração parece ter origem no fascismo histórico de direita – militares da reserva e/ou seus dependentes, identificados e saudosistas do golpe de 64, aqueles que o chamam de “mito”. O “bolsonarismo” é melhor compreendido como uma aglomeração representativa de setores sociais pressionados pela crise econômica do neoliberalismo. São profissionais liberais que perderam status e poder aquisitivo, que se sentem pressionados com a entrada no mercado da mão de obra advinda das políticas educacionais inclusivas nas universidades e institutos técnicos; servidores públicos sem especializações com vencimentos e progressão funcional congelados; aposentados e pensionistas ameaçados pela crise na Previdência; jovens sem perspectiva de carreiras, apesar de detentores de diplomas, em um mercado de trabalho competitivo e em retração; parte da massa trabalhadora desiludida com a agenda de esquerda e despolitizada após o desmanche das estruturas sindicais, desempregada ou em vias de perder o emprego.

Foi dessa mistura inconsistente de receios, descontentamentos e rancores que saíram os votos da “direita”que definiram o primeiro turno em 2018. No segundo turno, a persistência dos preconceitos da elite branca, machista e xenófoba; os cálculos e os interesses do establishment industrial/financeiro e o ressentimento da maioria da classe média com as promessas quebradas pelo PT, aliaram-se a essa mistura e – com significativa ajuda de cegueira estratégica petista – deram o resultado esperado.

Esse é um quadro que mostra como a marcha do “bolsonarismo” – entendido como o conjunto das reações políticas conservadoras e autoritárias – pouco tem a ver com a personalidade do presidente, vazia de conteúdo ideológico e expressividade política/pessoal (os resultados das eleições municipais comprovam esses aspectos). E como o desafio para manter a democracia vai muito além de derrotar Bolsonaro e a trupe dele em 2022, exigindo desde já uma nova teoria e um novo projeto para a esquerda no Brasil.

*Carlos Peixoto é escritor e jornalista

Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *