OPINIÃO

Doença e docência

O docente como mestre e como amigo da sabedoria tem como dever ético fundamental despertar mentes para que reflitam e resistam ao estranhamento das interrogações e respostas do mundo. Por isso, Nietzsche denunciou a mentira do homem conceitual. Aquele que solapa a vida e protege a existência nos distritos de sua razão. Para suportar as doenças da razão e agruras do mundo, diz o filósofo, é preciso a coragem e a experimentação do homem sensível. Experimentar com a vida e as ideias é assumir a doença do mundo e transformá-la em “grande saúde”. Aí reside nossa potência ética e moral. Assumir-se como “médico da cultura” e ‘curar” a doença dos espíritos decadentes.

Pois bem, é cada vez mais comum encontrar docentes desprovidos desta potência de vida. Ao contrário, a doença do espírito decadente da racionalidade técnica e instrumental do mundo na formação escolar tem corroído sua imaginação criativa e esperança. Cada vez mais temos treinadores de alunos com fórmulas esquemáticas em salas de aula. Autômatos repassadores de conteúdos para gerações sem responsabilidades éticas com os problemas do outro e do mundo. A burocracia escolar transformou corpos potentes em decadentes. Corpos cansados e doentes pelos esforços repetitivos de suas tarefas.

A falta de apetite e de alegria com as atividades do ensino é um sintoma da “sociedade do cansaço”, conforme denominação de Byun-Chul Han. A síndrome de burnout e as doenças neuronais são suas expressões. Pesquisas sobre saúde e docência, demonstram que as principais doenças são “(…) estresse e exaustão emocional, seguido de distúrbios da voz e distúrbios musculoesqueléticos(…), síndrome de Burnout, depressão e hipertensão arterial sistêmica(HAS)” (www3.izabelahendrix.edu.br/ojs/index.php/fdc/article/view/344/338).

Em tempos de desesperança política no Brasil, tais doenças podem aumentar. Basta que consideremos a Emenda Constitucional-95/2016(Governo Temer), que congela gastos e investimentos públicos por 20 anos. O docente vivenciará perdas salariais, diminuição do poder aquisitivo, sucateamento dos serviços públicos e condições precárias de trabalho. A máquina de triturar gente, também, se faz presente pela lógica obsessiva e doentia do produtivismo.

Nas Universidades, sobretudo, a produção de obras mais lentas e curtidas pela necessidade de silêncio do pensamento perdeu seu lugar. Tal lógica transforma o docente em zumbi produtor de artigos e em refém da absoluta racionalidade do cálculo. Abundante na era digital. Vale lembrar que digital relaciona-se a dedo, isto é, ao contar ou calcular. Heidegger advertiu que a mão, ao escrever, não deve ser separada do pensamento. Ela deve ser uma “mão-obra”. Ele fazia menção ao uso da máquina de escrever. Imaginem em tempos de Smartphones, Ipads e Pc´s e das performances de seus aplicativos.

A lógica é a da aceleração da informação e da ausência de reflexividade. E é óbvio que o docente não pode competir com as ferramentas inteligentes atuais. Isso significa que o professor vai se tornando desnecessário como fonte para a formação e como autoridade simbólica que pode incutir juízo crítico. Por não ser um processador de dados mas aquele que possibilita narrativas sobre o mundo, o docente divide com o Google e Wikipédia sua legitimidade e referência. Somada a esta realidade existem, ainda, os dilemas da competição e conflitos entre pares.

Destacadamente nas universidades, o ódio entre colegas é assustador. Somos da opinião que vivenciamos um academicídeo silencioso. Raros são aqueles que desenvolvem atividades de pesquisa e ensino conjuntamente. O resultado disso tudo é o isolacionismo e a proliferação de almas ressentidas. Almas doentes e decadentes, diria Nietzsche. Entoam cotidianamente prosaidades fúnebres e se fecham em seus columbários acadêmicos. São corpos corroídos pela tristeza, pela covardia em mudar a vida e sujeitados pelos conformismos intelectual e político.

Para não sucumbirmos a este cenário distópico as lições rousseaunianas em o Emílio, certamente, reanimam os espíritos educadores nas escolas e universidades: “Nosso verdadeiro estudo é o da condição humana.”

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Alex Galeno
Alex Galeno é cientista social, professor da UFRN e escreve às terças-feiras para a agência Saiba Mais

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